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11 frases que pessoas egoístas dizem sem perceber (psicólogos explicam porquê)

Três pessoas conversando à mesa com caderno, caneca, telemóvel e laranja sobre a mesa.

Há um tipo particular de silêncio que fica suspenso no ar depois de alguém dizer algo egoísta. Não é alto, não é dramático - é apenas pesado. Talvez aconteça à volta de uma mesa de cozinha, ou num chat de WhatsApp, ou numa sala de reuniões onde as persianas zumbem baixinho com o ar condicionado e, de repente, toda a gente evita o contacto visual. Sente o peito apertar um pouco. Repete a frase na cabeça e pensa: “Será que ele/ela acabou mesmo de dizer aquilo?”

As pessoas egoístas raramente andam por aí a anunciar: “Sou egoísta.” Anunciam-no de outras formas - em pequenas frases que, à superfície, parecem inofensivas, mas que cortam um pouco quando chegam. Os psicólogos dizem que essas frases não são acidentes. Revelam como alguém vê o mundo: como algo que deve dobrar-se ao seu conforto, às suas necessidades, à sua narrativa.

Quando começa a reparar nestas frases, já não as consegue deixar de ouvir… e pode surpreender-se com os sítios onde aparecem.

1. “Eu sou assim.”

Todos já ouvimos esta, normalmente logo depois de alguém ter dito ou feito algo magoante. “Eu sou assim” sai com um encolher de ombros, uma risadinha, um gesto no ar. À superfície, soa a autenticidade, como se a pessoa estivesse a assumir a sua personalidade. Por baixo, dizem os psicólogos, muitas vezes é uma recusa subtil em assumir responsabilidade ou mudar.

Quando alguém se apoia nesta frase, o que está realmente a dizer é: “Não vou fazer o esforço emocional de me encontrar contigo a meio caminho.” Fecha a discussão antes de ela sequer começar. Fica ali, a segurar os seus sentimentos, enquanto a outra pessoa se vai embora com a consciência limpa. Não é tanto uma descrição de identidade, mas um escudo contra o crescimento.

Uma versão mais saudável soaria mais a: “Tenho sido assim, mas estou disposto(a) a trabalhar nisso.” Essa pequena mudança transforma uma parede numa porta. A versão egoísta bate-lhe a porta na cara e chama-lhe “ser verdadeiro”.

2. “És demasiado sensível.”

Esta costuma picar. Finalmente diz: “Isso magoou-me”, e em vez de ser ouvido(a), os seus sentimentos são rotulados como um problema. “És demasiado sensível” desvia o foco do que aconteceu para a sua suposta falha. É um truque psicológico arrumadinho: se a sua reação é o problema, o comportamento da outra pessoa fica livre de culpa.

Os psicólogos chamam-lhe uma forma de invalidação emocional. Pode deixá-lo(a) a duvidar da sua própria realidade. Começa a perguntar-se se estará a exagerar, se afinal o peito não devia estar tão apertado, se o nó na garganta é só drama. Com o tempo, aprende a desconfiar dos seus próprios sinais.

O que torna esta frase especialmente escorregadia é que pode soar a conselho. Não é. É uma forma silenciosa de dizer: “O meu conforto importa mais do que a tua dor.” Uma resposta mais cuidadosa seria: “Não percebi que isso te magoava - conta-me mais.” Parece simples, mas sejamos honestos: quase ninguém consegue dizer isto sempre.

3. “Estou só a ser honesto(a).”

A honestidade é uma coisa bonita - até se transformar numa arma. “Estou só a ser honesto(a)” costuma vir a seguir a um comentário que foi menos sobre verdade e mais sobre crítica: o seu corpo, o seu trabalho, o seu parceiro, as suas escolhas de vida. A frase torna-se um escudo moral, como se qualquer brutalidade estivesse automaticamente justificada por ser “honesta”.

Os psicólogos salientam que pessoas verdadeiramente honestas normalmente não sentem necessidade de o anunciar. Dão tanta importância à gentileza quanto à verdade. Quando alguém insiste que está “só a ser honesto(a)”, muitas vezes aponta para falta de empatia - uma forma de manter a própria consciência arrumada enquanto a sua autoestima se esvai em silêncio.

Há uma diferença entre: “Posso partilhar algo que pode ser difícil de ouvir, mas acho que te pode ajudar?” e “Estou só a ser honesto(a).” Uma abre espaço para consentimento e cuidado. A outra parece mais alguém a arrombar a porta dos seus sentimentos e a dizer que é um serviço público.

4. “Não tenho tempo para dramas.”

No Instagram, esta frase parece sábia, quase glamorosa. “Sem dramas” na bio, “sem negatividade” na legenda. Mas na vida real, “Não tenho tempo para dramas” é muitas vezes usada sempre que outro ser humano se atreve a trazer um assunto real. A sua dor, o seu limite, a sua tentativa de falar do que se passa vai para o caixote marcado “drama” e é empurrado para fora de vista.

Os psicólogos dizem que isto é evitamento emocional com um verniz brilhante. É mais fácil chamar “drama” a qualquer conversa desconfortável do que admitir: “O conflito deixa-me ansioso(a)” ou “Não quero ver-me como o mau da fita.” A frase soa adulta e controlada, mas pode ser profundamente desdenhosa. A sua dor é reduzida a ruído que a outra pessoa não quer ouvir.

Há diferença entre caos genuíno e alguém dizer calmamente: “Ei, isso magoou-me.” Quando “Não tenho tempo para dramas” serve para fugir à responsabilidade, diz baixinho: a minha paz de espírito vale mais do que a tua necessidade de seres ouvido(a). Isso não é paz. É silenciar com melhores relações públicas.

5. “Estás a pensar demasiado nisso.”

Fica acordado(a) à noite, a repetir aquela conversa, a sentir aquele aperto no estômago. No dia seguinte, volta ao assunto, com cuidado, escolhendo as palavras. E então ouve: “Estás a pensar demasiado nisso.” Uma frase e todo o seu mundo interior vira um incómodo, uma falha a ser desligada.

Às vezes, pensar demasiado é mesmo real, claro. O problema é que esta frase é tantas vezes atirada antes de a outra pessoa sequer tentar perceber o que está a pensar. Os psicólogos dizem que pode ser um atalho preguiçoso para evitar qualquer profundidade emocional. Em vez de dizer: “Ajuda-me a perceber o que te preocupa”, rotula a preocupação como sendo o problema.

Quando isto acontece vezes suficientes, começa a fazer a edição por eles. Deixa de partilhar, deixa de questionar, deixa de confiar na sua leitura das situações. O seu cérebro continua a girar, mas agora gira em silêncio. As pessoas egoístas beneficiam desse silêncio; significa que nunca têm de se olhar com atenção ao espelho.

6. “Porque é que estás a fazer um drama tão grande com isto?”

Esta muitas vezes vem com um suspiro, talvez um revirar de olhos, o tilintar dos talheres no prato. “Porque é que estás a fazer um drama tão grande com isto?” sugere que transformou algo pequeno em algo enorme. O subtexto: o verdadeiro problema não é o que aconteceu, é a sua reação.

Psicologicamente, é uma forma de minimizar. Quem fala consegue manter-se confortável e “na medida certa”, enquanto a sua experiência é encolhida até quase não contar. Pode começar a reformatar comportamentos magoantes como “não é nada” só para manter a paz. Essa paz tem um custo: o seu autorrespeito vai-se desgastando, pouco a pouco.

Quando alguém se importa de verdade, pode até discordar de si, mas raramente goza com o tamanho dos seus sentimentos. Pergunta: “Parece que isto é mesmo importante para ti - porquê?” As pessoas egoístas muitas vezes não querem a resposta, porque ouvir significaria que talvez tivessem de mudar.

7. “Se te importasses mesmo, tu…”

Esta frase entra na sala com uma mala pesada cheia de culpa. “Se te importasses mesmo, ligavas-me todos os dias.” “Se te importasses mesmo, cancelavas os teus planos.” “Se te importasses mesmo, fazias isto à minha maneira.” Transforma amor ou amizade num teste que está perpetuamente a um passo de reprovar.

Os psicólogos reconhecem isto como manipulação emocional: ligar o seu valor à forma como cumpre as condições, muitas vezes não ditas, de outra pessoa. Não lhe estão só a pedir um favor; estão a dizer-lhe que o seu amor está em julgamento. E as regras do teste também tendem a mexer-se. Passa um nível, e a fasquia sobe em silêncio.

Relações saudáveis permitem necessidades e limites diferentes. Soam mais a: “Eu apreciava mesmo se…” e menos a um veredito de tribunal sobre se se importa o suficiente. Quando alguém diz frequentemente “Se te importasses mesmo, tu…”, o que está realmente a dizer é: “As minhas necessidades são a única prova que conta.”

8. “Eu nunca te pedi para fazer isso.”

Imagine: torceu-se todo(a) por alguém. Ficou até tarde, emprestou dinheiro, cancelou coisas, cozinhou, ouviu, acalmou. E depois, quando finalmente diz que está cansado(a) ou magoado(a), a pessoa encolhe os ombros e diz: “Eu nunca te pedi para fazer isso.” O ar fica frio. Todo esse esforço de repente parece invisível.

Esta frase permite que pessoas egoístas usufruam da sua generosidade sem sentirem qualquer obrigação em troca. Os psicólogos dizem que ela apaga toda a economia emocional do dar-e-receber. Você ofereceu, a pessoa aceitou, beneficiou - mas no momento em que há um custo, sai do contrato e afirma que nunca esteve nele.

Sim, é verdade que escolhemos as nossas ações. Ainda assim, a empatia reconhece que o cuidado cria um sentido natural de responsabilidade mútua. Quando alguém se esconde atrás de “eu nunca te pedi”, o que está realmente a dizer é: “Vou aceitar tudo o que me deres, mas não vou ficar parado(a) tempo suficiente para responder por isso.”

9. “Isso é um problema teu, não meu.”

Há um frio particular nesta. Muitas vezes sai plana, quase aborrecida, como alguém a fechar uma janela num dia de vento. “Isso é um problema teu, não meu” pode soar a definição saudável de limites, à primeira vista, mas o tom costuma denunciá-la. Não é sobre limites; é sobre indiferença.

Os psicólogos distinguem entre dizer: “Não consigo resolver isto por ti, mas importo-me”, e simplesmente atirar tudo de volta para o seu colo. Pessoas egoístas usam esta frase para passar por cima da poça da sua dificuldade sem molharem os sapatos. O seu medo, a sua confusão, a sua dor - tudo arrumado na pasta “não me diz respeito”.

Claro que nenhum de nós pode carregar os problemas de toda a gente. Mas há um mundo de diferença entre ser realista quanto aos seus limites e usá-los como desculpa para nunca aparecer emocionalmente. Quando ouve “Isso é um problema teu, não meu” vezes demais, começa a acreditar que precisar de apoio é uma falha, e não uma parte fundamental de ser humano.

10. “Sou eu que sempre…”

O placar silencioso ao fundo

Esteja atento(a) a esta durante discussões sobre loiça, planos, crianças, favores. “Sou eu que sempre limpo.” “Sou eu que sempre ligo primeiro.” “Sou eu que sempre cedo.” À superfície, parece alguém a pedir reconhecimento. Por baixo, os psicólogos veem frequentemente uma espécie de martírio que mantém o foco nos sacrifícios de quem fala.

O egoísmo nem sempre parece ganância; às vezes disfarça-se de dar sem parar, com memória longa e contabilidade permanente. Esta frase transforma relações num placar onde a pessoa egoísta está eternamente na frente, exausta e, no entanto, estranhamente justa. Os seus esforços desvanecem-se porque a narrativa precisa de a outra pessoa ser o herói.

Uma versão mais equilibrada poderia ser: “Sinto que tenho feito mais X ultimamente, podemos falar sobre isso?” Em vez disso, “Sou eu que sempre…” chega já carregada de acusação. Não é convidado(a) para uma conversa; é colocado(a) num papel secundário na história de sofrimento nobre da outra pessoa.

11. “Não percebo qual é o problema - eu não me importo com isso.”

Quando o conforto deles vira a medida

Esta muitas vezes sai casualmente, como se fosse a coisa mais lógica do mundo. “Não percebo qual é o problema - eu não me importo com isso.” A implicação é clara: como não os incomoda, não devia incomodar mais ninguém. A temperatura emocional deles torna-se o termóstato universal.

Os psicólogos chamam-lhe pensamento egocêntrico - usar a própria experiência como padrão para a experiência de todos. Se eles não estão ansiosos com algo, a sua ansiedade deve ser desnecessária. Se eles não se ofenderam, a sua dor deve ser exagerada. Ensina-o(a), subtilmente, que o seu mundo interior é menos válido do que o deles.

Todos fazemos isto às vezes, mas pessoas egoístas vivem aí. A ausência de desconforto deles torna-se prova de que a situação é inofensiva. Você fica novamente a perguntar-se se é “demais”. Uma resposta mais generosa seria: “Eu estou bem com isso, mas vejo que tu não - conta-me porquê.” Essa curiosidade simples é exatamente o que falta quando o egoísmo manda em silêncio.

Reparar nas frases - e no que estão realmente a dizer

Quando começa a identificar estas frases, pode sentir-se um pouco tonto(a). Estão por todo o lado: nos grupos de família, em escritórios com impressoras a zumbir, em amizades que deixaram de parecer seguras, até a sair da sua própria boca num dia de cansaço. Esta é a verdade desconfortável: nenhum de nós é imune ao egoísmo. Ele infiltra-se na linguagem muito antes de estarmos prontos para o admitir.

Os psicólogos dizem que as frases em si são menos importantes do que o padrão por trás delas. São usadas uma vez de vez em quando, num momento desajeitado? Ou são uma banda sonora, em repetição, sempre que tem uma necessidade, um limite, um sentimento? O seu corpo quase sempre sabe a diferença. Aperta, encolhe, cala-se, muito antes de o cérebro conseguir explicar porquê.

Não pode controlar a forma como os outros falam, mas pode decidir que histórias conta a si próprio(a) quando isso acontece. Pode dizer: isto não é eu ser “demasiado sensível”; isto sou eu a reparar que estão a passar por cima dos meus sentimentos. Pode recuar, traçar um limite, ou, no mínimo, parar de se torcer em nós para fazer o egoísmo de alguém soar razoável.

E talvez, da próxima vez que essas palavras familiares subirem até aos seus próprios lábios, as apanhe, as segure por um segundo, e escolha algo mais corajoso.

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