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A previsibilidade cria segurança emocional.

Duas pessoas a conversar sentadas à mesa da cozinha com chávenas de café e uma ampulheta.

A mulher no café não estava a chorar alto.

Os olhos dela estavam apenas fixos na porta, no ponto exacto por onde o namorado costumava entrar às 7:15. Eram 8:02. O café já tinha arrefecido. Ela continuava a ver o telemóvel como se ele pudesse pedir desculpa.

Quando ele finalmente chegou, cheio de sorrisos apressados e desculpas, ela não explodiu. Ficou apenas em silêncio. Aquele tipo de silêncio que diz: “Não sei se consigo confiar no que vem a seguir.”

Falamos muito de paixão, química, grandes declarações. Falamos muito menos de mensagens enviadas quando se diz que se vai enviar, de pessoas que aparecem a horas, de vozes que soam da mesma forma à segunda-feira e à sexta-feira.

As coisas aborrecidas, por outras palavras. As que, no fim, decidem o quão seguros nos sentimos.

Porque é que a previsibilidade acalma o nosso sistema nervoso

Observe uma criança à hora de dormir. A mesma história, a mesma luz, o mesmo “boa noite” na mesma porta. Quase se vê o corpo a amolecer quando a rotina começa. O cérebro sabe o que vem a seguir, e por isso pode finalmente deixar de procurar sinais de perigo.

Os adultos não deixam de precisar disso. Apenas aprendem melhores formas de esconder o quanto o desejam.

Num mundo em que as notícias podem mudar em segundos e os e-mails do trabalho nos seguem até ao duche, pessoas previsíveis são como uma manta pesada. Não emocionantes. Não vistosas. Profundamente reguladoras. O nosso corpo relaxa à volta delas muito antes de a nossa mente encontrar as palavras “sinto-me seguro contigo”.

Uma terapeuta com quem falei contou-me o caso de uma cliente, 32 anos, bem-sucedida, “má em relações” - nas palavras dela. Continuava a escolher parceiros que eram entusiasmantes no início e caóticos seis meses depois. Chamadas perdidas. Planos cancelados. Silêncio após discussões.

Depois começou a sair com alguém novo. Ele mandava mensagem quando dizia que ia mandar. Chegava dez minutos mais cedo. Quando discordavam, não desaparecia; dizia: “Falamos amanhã quando estivermos mais calmos”, e ligava mesmo no dia seguinte.

Ela descreveu a primeira reacção como tédio. Sem finais em suspense dramáticos. Sem jogos de adivinhação. Três meses depois, chorou na sessão porque percebeu que o “tédio” era, na verdade, o seu sistema nervoso a experimentar paz pela primeira vez. A previsibilidade parecia estranha e, depois, viciante.

Há uma lógica simples por trás disto. O nosso cérebro é uma máquina de previsão. Usa padrões passados para adivinhar o que vem a seguir, para que nos possamos preparar. Quando o comportamento de alguém é consistente, o cérebro faz menos trabalho. A frequência cardíaca diminui. Os músculos deixam de estar tensos. Podemos finalmente concentrar-nos na ligação, em vez de na vigilância.

A imprevisibilidade faz o contrário. Mantém o corpo em alerta máximo. A mente cria cenários: Será que vão cancelar outra vez? Esta mensagem vai ser carinhosa ou fria? Com o tempo, essa vigilância de baixo nível torna-se ruído de fundo. Começa a chamar-lhe “ansiedade” ou “eu sou só intenso”, quando muitas vezes é o seu corpo a reagir a sinais inconsistentes.

A segurança emocional, no fim, não é uma “vibe”. É um padrão.

Como trazer mais previsibilidade para as suas relações

Previsibilidade não significa tornar-se robótico. Significa escolher alguns comportamentos pequenos e repeti-los tantas vezes que os outros conseguem relaxar à sua volta. Comece de forma embaraçosamente simples.

Responda às mensagens quando diz que vai responder. Se é “mau a responder”, assuma-o e defina uma regra clara: “Normalmente respondo à noite.” E cumpra. Diga a que horas vai chegar a casa e respeite a sua palavra como um contrato.

Escolha um ou dois rituais e proteja-os. Caminhadas ao domingo de manhã. Balanços à sexta à noite. Uma chamada de dois minutos depois do trabalho. Estes momentos pequenos e repetidos dizem ao sistema nervoso: “Podes contar com isto.”

Onde as pessoas se atrapalham é em tentar mudar tudo de uma vez. Decidem, de um dia para o outro, ser hiperdisponíveis, sempre pontuais, profundamente comunicativas. Dura uns quatro dias. Depois a vida real acontece, e a queda é pior do que onde começaram.

Comece por uma área. Talvez seja o seu tom: nada mais de silêncio gelado depois de um conflito, apenas “preciso de uma hora e depois volto para falarmos”. Talvez seja a sua presença: quando está com alguém, o telemóvel fica virado para baixo. Talvez seja a sua honestidade: se não pode ir, diz cedo, não em cima da hora.

Ao nível humano, as pessoas não precisam de perfeição da sua parte. Precisam de saber que versão de si é que vão ter, na maior parte do tempo.

“A consistência é uma linguagem de amor que raramente é citada no Instagram, e no entanto é aquilo que impede as relações de se esvaírem silenciosamente.”

  • Escolha um hábito previsível na forma como comunica.
  • Repita-o até as pessoas começarem a contar com isso em si.
  • Proteja-o, especialmente em dias atarefados ou stressantes.
  • Diga em voz alta com o que os outros podem contar da sua parte.
  • Quando falhar, diga-o rapidamente: “Quebrei o nosso padrão; eis como vou corrigir.”

Armadilhas comuns quando tenta “ser mais consistente”

Existe hoje uma pressão silenciosa para se tornar uma espécie de pessoa ultra-regulada e sempre centrada. Respire, escreva no diário, responda a horas, nunca levante a voz, durma oito horas, hidrate-se. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias.

O perigo é perseguir uma imagem de previsibilidade perfeita que não tem nada de humana. Depois, na primeira vez que se irrita, chora ou cancela planos, entra a vergonha. Sente que estragou todo o progresso, quando o que importa mais é o que faz a seguir.

Previsibilidade não é nunca vacilar. É ser fiável na reparação.

A outra armadilha é achar que segurança emocional significa nunca surpreender ninguém. Não é isso. Viagens espontâneas, elogios ao acaso, flores de última hora - essas são surpresas assentes numa base de estabilidade. A questão mais profunda é: quando a vida fica confusa, as pessoas à sua volta têm de adivinhar se se vai aproximar delas ou afastar-se?

Algumas das pessoas mais imprevisíveis não são as barulhentas e dramáticas. São as que se retraem em silêncio. As que desaparecem emocionalmente quando estão sob stress. O parceiro que fica educado mas distante. O gestor que deixa de dar feedback sem aviso.

A solução não é fingir que está tudo bem. É narrar o seu mundo interior só um bocadinho mais do que parece confortável. “Hoje estou sobrecarregado, por isso vou estar mais calado, mas não estou zangado contigo.” Essa frase pode salvar um fim-de-semana inteiro de entrar em espiral.

Num nível mais profundo, muitos de nós crescemos em casas onde os humores mudavam depressa, as regras variavam, o afecto era conquistado, não dado. O nosso corpo aprendeu que amor é igual a suspense. A previsibilidade, quando finalmente a encontramos, pode parecer errada - até insegura.

É aqui que o trabalho se torna mais delicado. Pode dar por si a provocar discussões com o parceiro estável, a testar o amigo leal, a perturbar a calma porque o seu sistema nervoso ainda não confia na paz. Isto não é auto-sabotagem no sentido dramático. É o seu cérebro a tentar voltar ao que conhece.

Num nível colectivo, vivemos tempos instáveis: clima, política, trabalho. A segurança emocional nas relações próximas não é um extra de luxo. É um dos últimos lugares onde o nosso corpo pode descansar.

Num nível pessoal, isso começa com micro-escolhas. Enviar a mensagem que disse que ia enviar. Pedir desculpa sem um intervalo de três dias. Dizer “eu continuo aqui” - não só com palavras, mas com um padrão.

Há algo silenciosamente radical em relações um pouco mais previsíveis e muito menos dramáticas. Nem sempre dão as melhores histórias. Mas tendem a durar.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
O corpo gosta de rotinas O nosso sistema nervoso acalma quando os comportamentos são estáveis Compreender porque é que algumas relações tranquilizam e outras esgotam
A segurança emocional é um padrão São os gestos repetidos, não os grandes discursos, que criam confiança Saber onde agir de forma concreta no dia-a-dia
A reparação conta mais do que a perfeição Os erros não destroem a segurança se voltarmos depressa e com clareza Aliviar a pressão de ser “perfeito” e atrever-se a ser mais autêntico

FAQ

  • A previsibilidade não é aborrecida numa relação? A previsibilidade na forma como cuida - não no que faz - é o que cria segurança. Pode ser extremamente criativo nas actividades e, ainda assim, profundamente consistente na sua fiabilidade.
  • E se eu cresci numa família caótica e a calma me deixa desconfortável? Comece pequeno. Passe tempo com pessoas estáveis em doses curtas e repare nas reacções do seu corpo. Nomear “isto é estranho, mas seguro” pode, aos poucos, reeducar o seu sistema nervoso.
  • Como posso ser mais previsível sem parecer falso? Escolha hábitos que combinem com quem já é quando está na sua melhor versão e depois repita-os. Não está a inventar uma nova personagem; está a dar mais espaço à sua versão preferida.
  • E se a pessoa imprevisível for o meu parceiro ou o meu chefe? Descreva os padrões sem acusar: “Quando os planos mudam em cima da hora, fico em alerta.” Peça uma pequena mudança e veja se o comportamento se torna mais consistente ao longo do tempo.
  • É possível ter segurança emocional e, ainda assim, discutir frequentemente? Sim, se as discussões seguirem um padrão conhecido de reparação. As pessoas sentem-se seguras quando confiam que o conflito não significa abandono ou castigo, apenas um momento difícil que vão atravessar juntos.

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