A notificação chegou numa manhã húmida de terça‑feira, enfiada a meio por baixo da porta, como um panfleto de comida para levar. Maria, 74 anos, apanhou-a com o gesto lento e cuidadoso de quem aprendeu que os envelopes raramente trazem boas notícias. Letras pretas grandes: “A partir de 8 de janeiro, recálculo da pensão – certificado em falta obrigatório.” As mãos dela pararam na palavra “obrigatório”. Não tem impressora. Não tem endereço de e‑mail. A coisa mais parecida com “acesso online” no seu apartamento é o sinal de Wi‑Fi do vizinho, que aparece e desaparece no seu velho smartphone como um fantasma provocador.
Ficou a olhar para a frase sobre carregar documentos num portal de que nunca tinha ouvido falar.
E, naquele momento, um pensamento simples atravessou-lhe a cabeça.
“Eles sabem que nós não temos acesso à internet.”
As pensões sobem… mas só para quem consegue seguir o labirinto
A partir de 8 de janeiro, as pensões supostamente vão subir. Não uma fortuna, mas o suficiente para pagar uma conta de eletricidade no inverno, comprar fruta fresca um pouco mais vezes, ou apanhar o autocarro para ver os netos. Na televisão, o anúncio soa alegre, quase triunfante.
Depois vem o texto em letras pequenas.
Este aumento “automático” só se aplica a pessoas cujos processos estejam perfeitamente atualizados - e isso exclui, de repente, milhares de reformados a quem falta um simples certificado. A sobrevivência passa a depender de um formulário.
Veja-se o caso de Georges, 79 anos, viúvo, a viver numa aldeia pequena onde o último balcão bancário fechou há dois anos. Recebeu a carta sobre o ajuste da pensão e o certificado em falta a meio de dezembro. Para enviar, diz a carta, tem de entrar na sua conta online, descarregar um formulário, digitalizar o documento e, depois, carregá-lo novamente antes de um prazo pouco claro.
O seu telemóvel de tampa nem sequer tem câmara. O autocarro para a vila passa duas vezes por dia. O computador público na biblioteca? Reservado durante dias.
Então Georges fez o que muitos fazem: dobrou a carta, suspirou e pô-la debaixo de uma pilha de outras. Uma forma silenciosa de dizer: “Isto é demasiado para mim.”
Por trás destas pequenas tragédias pessoais há uma lógica muito fria. Os sistemas administrativos foram construídos como se cada reformado vivesse com internet de alta velocidade, uma impressora, um scanner e os reflexos de um funcionário de escritório de 30 anos. Esse mundo de fantasia encontra uma realidade dura: milhões de idosos estão digitalmente excluídos.
Alguns não têm computador. Alguns nunca aprenderam a navegar em portais e códigos enviados por SMS. Alguns não conseguem ler letras minúsculas num ecrã de smartphone.
O resultado é simples e brutal: quem mais precisa do aumento é precisamente quem tem maior probabilidade de o perder. Um certificado em falta basta para congelar a subida. Um silêncio no sistema. Uma linha numa folha de cálculo.
Como pedir o aumento quando não vive “online”
Ainda há um caminho através do labirinto, mesmo sem internet. O primeiro passo é básico, mas poderoso: pegar no telefone. Ligue para o seu serviço de pensões e diga claramente: “Recebi uma carta sobre um certificado em falta e não consigo enviá-lo online.” Peça uma solução por correio, não digital.
A maioria dos serviços é obrigada a oferecer uma alternativa: enviar o formulário por correio, receber cópias por via postal, ou marcar um atendimento numa delegação local. É mais lento, sim. Mas cria um rasto humano. Um nome. Uma data. Uma nota no seu processo a dizer: esta pessoa tentou.
A linha de apoio seguinte está muito mais perto do que a maioria das pessoas pensa: família, vizinhos, até o farmacêutico ou a junta/câmara local. Muitas cidades têm agora “balcões de apoio digital” onde voluntários ou funcionários municipais se sentam com idosos para abrir contas, preencher formulários online, digitalizar certificados. Muitas vezes é gratuito, ou custa apenas alguns euros.
A maior armadilha é esperar “até depois das festas” ou “quando isto acalmar”. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. As cartas acabam em gavetas. Os prazos passam sem alarido. E o sistema raramente liga de volta a dizer: “Faltou-lhe qualquer coisa.” Simplesmente não aumenta a sua pensão.
“Na televisão dizem que as pensões vão subir para toda a gente”, suspira Rosa, 72 anos. “Depois chega a carta e eu sinto que estão a testar quem consegue saltar mais obstáculos. Eu nem consigo abrir metade destes sites. E quando peço ajuda, dizem-me para ir outra vez para o online.”
Guarde todos os envelopes relacionados com a sua pensão
Não deite nada fora “para depois”. Ponha todas as cartas de fundos de pensões, finanças e serviços sociais na mesma pasta ou caixa.Anote datas e nomes no envelope
Cada vez que ligar ou for a um balcão, escreva o dia, a hora e o nome da pessoa que falou consigo diretamente na carta. Transforma a confusão numa linha do tempo.Peça “opções em papel” todas as vezes
Diga com calma: “Eu não uso internet, quero uma solução em papel.” Muitos atendentes só o referem se insistir.
Entre a desconfiança e o cansaço: o que este momento realmente revela
O aumento da pensão de 8 de janeiro tornou-se uma espécie de teste silencioso ao nosso contrato social. De um lado, há reformados que trabalharam 40 anos e agora se veem excluídos por falta de um código digital. Do outro, há administrações a empurrar com força a desmaterialização de tudo, para cortar filas, poupar tempo e dinheiro.
Entre os dois, existe essa zona suave e perigosa em que as pessoas simplesmente desistem. Não por preguiça, mas por exaustão. Pela sensação de que o mundo se mudou para um lugar onde elas não foram convidadas.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| Verifique o correio | Procure qualquer carta que mencione “certificado em falta”, “ajuste da pensão” ou “8 de janeiro” e mantenha-a visível | Reduz o risco de perder o direito ao aumento por simples distração |
| Peça soluções offline | Ligue para o seu serviço de pensões e solicite formulários por correio ou marcação presencial em vez de carregamentos online | Torna o processo acessível mesmo sem internet ou computador |
| Procure ajuda local | Recorra à família, vizinhos, câmaras/juntas, bibliotecas ou oficinas de apoio digital | Transforma uma tarefa impossível a sós num passo partilhado e gerível |
FAQ:
- Pergunta 1 Quem, exatamente, corre o risco de perder o aumento da pensão a partir de 8 de janeiro?
- Pergunta 2 Que tipo de “certificado em falta” costumam pedir?
- Pergunta 3 Ainda posso enviar documentos por correio se a carta só falar de um portal online?
- Pergunta 4 E se eu não tiver ninguém que me ajude com a internet ou com os formulários?
- Pergunta 5 Como posso evitar este tipo de problema em futuras alterações da pensão?
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