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A psicologia diz que certos hábitos dos avós criam laços duradouros com os netos, sem esforço.

Mulher idosa sentada numa poltrona, enquanto uma criança lhe oferece um lanche em ambiente de sala acolhedora.

A melhor história sobre avós raramente começa com: “Eles ensinaram-me tanto sobre a vida.”

Normalmente começa com algo mais pequeno: uma certa lata de bolachas, o ranger do portão do jardim, aquele velho cadeirão que nos engolia por completo durante os desenhos animados de domingo. Lembramo-nos do cheiro da casa deles, de como cantarolavam enquanto lavavam a loiça, do facto de saberem sempre onde estava a fita-cola. Nada disto parece impressionante no papel, mas, anos depois, é a isto que nos agarramos quando a vida fica um pouco afiada demais.

Os psicólogos têm uma obsessão discreta por estes momentos pequeninos e repetidos. Não pelos grandes discursos de aniversário ou pelas viagens cuidadosamente planeadas, mas pelo casual “Entra, meu amor” e pelo “Queres ajudar-me com isto?” que acontecem cem vezes. Porque a proximidade, ao que parece, raramente se constrói com grandes gestos. Constrói-se com hábitos tão suaves que quase nem parecem esforço. E é aí que os avós, muitas vezes sem se aperceberem, são verdadeiros especialistas.

A magia de simplesmente estar presente (e não ir a correr embora)

Pergunte a adultos o que mais recordam dos avós e ouvirá a mesma frase, repetida vezes sem conta: “Eles estavam sempre lá.” Não de forma pegajosa. Mais como uma peça de mobiliário reconfortante no fundo da infância: sólida e fiável. Os psicólogos chamam a isto disponibilidade emocional e mostram que as crianças que sentem que há por perto um adulto calmo e previsível crescem com um sentido de segurança mais forte.

Os avós conseguem isto quase por acaso. Saíram do tapete rolante da carreira; não estão a tentar esmagar mil prazos enquanto respondem a WhatsApps e limpam iogurte entornado. Conseguem mesmo sentar-se. Ficar. Deixar uma conversa respirar. A criança sente-o de imediato: esta é uma pessoa que não está, na cabeça, a meio caminho da porta.

Todos já vivemos aquele momento em que uma criança tenta contar uma história e o adulto vai acenando, mas os olhos saltam constantemente para o telemóvel ou para o relógio. Os avós, estatisticamente, estão menos distraídos com esse ruído. Quando um avô ou uma avó levanta os olhos e ouve de facto a história do dragão que vive debaixo do sofá, a criança não se sente apenas escutada. Sente-se digna de tempo. Essa presença lenta e sem pressas “liga” o cérebro para esperar relações que não são apressadas nem condicionais.

A ciência da cadeira familiar

Há também algo discretamente poderoso na familiaridade. A mesma cadeira, a mesma caneca, as mesmas bolachas, o mesmo horário do assado de domingo. A repetição, dizem os psicólogos, diz ao corpo: “Aqui estás seguro.” O cérebro adora padrões. Cada visita repetida à casa da avó é mais um tijolo colocado num caminho mental: aqui não acontece nada de mau; aqui podes expirar.

Nada disto parece grandioso. É só o clique da chaleira mesmo antes de a porta das traseiras bater e alguém gritar: “Então liga lá a televisão.” E, no entanto, anos depois, quando a vida é caos, esse som vive no fundo da tua mente como um rádio baixinho, a zumbir tranquilidade. A proximidade muitas vezes parece menos fogo-de-artifício e mais uma zona gasta no tapete onde toda a gente se põe sempre.

Os rituais estranhos e pequeninos que se tornam âncoras para a vida

Toda a história de proximidade entre avós e netos tem um ritual. Cortar juntos a primeira fatia do bolo. Ver o mesmo programa de concursos todas as noites. Contar carros vermelhos no caminho para a escola. Isto não soa dramático até percebermos que os rituais são a forma como o cérebro marca experiências como “nossas”. Na investigação sobre relações, os rituais partilhados são como cola.

Os psicólogos falam de “rituais relacionais” como pequenos padrões repetidos que se tornam símbolos de ligação. Pode ser tão simples como uma frase: “Até logo, jacaré”, respondida sempre com: “Daqui a bocado, crocodilo.” Quando isto acontece em cada visita, passa a ser mais do que uma piada. É uma porta privada de volta à relação, um lembrete de “nós” mesmo quando tudo o resto muda.

Porque é que tradições pequenas e tontas funcionam melhor do que grandes planos perfeitos

Aqui vai o momento verdade: as crianças raramente se importam se o passeio foi lindamente organizado. Importam-se se parecia “nós os dois, juntos, a fazer a nossa coisa”. Os avós não precisam de criar experiências dignas de Instagram; só precisam de um ou dois hábitos simbólicos. Panquecas ao sábado. Desenhar um coração no saco da sandes. Acender a mesma vela quando a criança dorme lá.

Investigadores que estudam a coesão familiar descobriram que crianças em casas com rituais regulares e previsíveis - por mais simples que sejam - dizem sentir-se mais ligadas e menos ansiosas. Os avós estão perfeitamente colocados para oferecer essa previsibilidade suave. O truque é que tem de ser leve, não forçado. “Fazemos sempre isto porque é divertido”, não “Temos de fazer isto porque é tradição.” As crianças cheiram o dever a quilómetros, e isso mata a magia.

Por isso, quando a avó te deixa sempre lamber a colher, ou o avô finge sempre que o comando não funciona até dizeres a palavra mágica, isso não é apenas parvoíce. É ligação, disfarçada de brincadeira. São hábitos cómicos que dizem baixinho à criança: esta relação tem a sua própria linguagem secreta.

Ouvir como quem não está a tentar consertar nada

Uma das coisas mais reconfortantes num bom avô ou numa boa avó é que, normalmente, não são os principais disciplinadores. Não são eles que estão a verificar os trabalhos de casa, a gerir o tempo de ecrã ou a impor brócolos. Isso significa que as crianças muitas vezes contam aos avós coisas que hesitariam em partilhar com pais stressados. Estudos em psicologia confirmam: as crianças referem frequentemente sentir-se “menos julgadas” pelos avós.

Isso abre a porta para algo poderoso: uma escuta profunda, de baixa pressão. Quando um avô ou uma avó ouve sem entrar a matar com uma palestra, o cérebro da criança guarda isso como: “Posso ser honesto e continuar a ser amado.” Isso vale ouro. Claro que nem todos os avós conseguem isto; alguns são campeões mundiais da crítica. Mas os que dizem baixinho “Isso parece difícil, meu amor. Conta-me mais” constroem uma ponte emocional que dura décadas.

A arte de não tentar resolver

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Até o avô mais paciente já se passou, deu conselhos não solicitados ou disse: “Oh, não sejas tonto(a), estás bem.” Ainda assim, o tom geral importa mais do que o deslize ocasional. Psicólogos infantis falam de escuta “suficientemente boa”. Não tens de ser um santo; tens apenas de mostrar, na maior parte do tempo, que o mundo interior deles importa para ti.

Quando um adolescente resmunga sobre uma zanga com um amigo e o avô não se apressa a culpar ou ralhar, mas pergunta “O que é que te apetece fazer?”, isso é uma lição subtil de autoconfiança. Diz: “Os teus sentimentos e escolhas valem a pena ser explorados.” Ao longo dos anos, isso molda a forma como o jovem se relaciona consigo próprio. Interioriza a voz estável e pouco alarmista do avô, e ela passa a fazer parte da sua.

Ser ouvido quando se é pequeno tem este efeito estranho no futuro: crescemos com um tipo mais silencioso de solidão. Claro que podemos continuar a sentir-nos sós, mas, algures ao fundo, fica a memória vivida de que houve uma pessoa que queria mesmo ouvir-te falar daquele dragão estúpido debaixo do sofá.

A linguagem corporal calma e lenta que as crianças nunca esquecem

Há uma razão para tantas memórias de infância com avós envolverem colos, braços e casacos de malha que cheiravam levemente a detergente e rebuçados de hortelã. O toque e a linguagem corporal são mais antigos do que as palavras no cérebro humano. A investigação sobre vinculação mostra que o toque gentil e previsível é um dos maiores contribuintes para a sensação de segurança nas crianças. Os avós, com o seu ritmo mais lento, oferecem-no muitas vezes sem pensar.

Um avô ou uma avó que bate no sofá e diz “Vem sentar-te ao pé de mim” está a fazer mais do que oferecer um lugar. Está a fazer um convite pequeno mas claro: tu pertences aqui, perto de mim. A forma como segura um livro para os dois verem, como aproxima as bolachas sem alarido, como pousa levemente a mão no teu ombro durante um jantar de família barulhento. Tudo sinais subtis que dizem: “Não estás sozinho nesta sala.”

Adultos regulados fazem crianças reguladas

Hoje em dia, os psicólogos falam muito de “corregulação” - a ideia de que as crianças aprendem a acalmar o seu sistema nervoso ao “emprestar” a calma de um adulto por perto. Os avós, depois de décadas de drama, costumam ficar menos abanados com o caos quotidiano das crianças. Sumo entornado não é desastre; é um pano e um encolher de ombros. Do ponto de vista de uma criança, isso é enorme.

O tom de voz, um pouco mais suave e mais lento, funciona quase como uma canção de embalar para um cérebro sobrecarregado. O tilintar constante de uma colher numa caneca, o raspar ritmado da faca a barrar torradas - estes pequenos detalhes sensoriais ficam associados a “está tudo bem”. Não é místico. São sistemas nervosos a sincronizarem-se. Com o tempo, a criança “faz download” dessa estabilidade como modelo interior.

Por isso, quando os psicólogos dizem que os avós podem amortecer o stress das crianças simplesmente por serem calmos, isso não é só uma ideia bonita. É biologia. E muitas vezes parece nada mais notável do que um avô a dizer “Nós resolvemos isso” - e a dizer a sério.

A forma como contam a história da família (e fazem de ti personagem principal)

Os melhores avós são arquivistas naturais. Contam as mesmas histórias antigas - como o teu pai um dia pôs doce dentro do VHS, como nasceste numa terça-feira de tempestade, como a tia quase perdeu o casamento por causa de um sapato desaparecido. A repetição pode aborrecer os adultos, mas para as crianças essas histórias são combustível de identidade. Não és só uma pessoa ao acaso; fazes parte de um conto maior, em andamento.

Psicólogos do desenvolvimento dizem que crianças que conhecem as histórias da sua família - boas, más e ridículas - tendem a ter maior resiliência. Dá-lhes um sentido de continuidade: outras pessoas nesta família já erraram, lutaram, riram, sobreviveram. Os avós são, muitas vezes, os únicos com tempo e distância para contar as histórias como deve ser, sem adoçar tudo, mas também sem fatalismo.

Fazer a criança sentir que pertence a algo

Quando um avô ou uma avó aponta para uma fotografia antiga e diz “Tens os olhos do teu avô”, está a tecer discretamente a criança no tecido da família. De repente, não é apenas “eu existo”. É “eu venho de algum lado”. Há uma grande diferença psicológica aí. Esse sentido de linhagem pode ser especialmente poderoso para crianças que se sentem deslocadas na escola ou no mundo à sua volta.

Ser escrito na história da família é uma das formas mais simples de os avós criarem uma proximidade inabalável. A criança não está apenas a visitar um adulto; está a visitar uma biblioteca viva que insiste: “Tu importas aqui. Sempre importaste.” Isso não exige memória perfeita nem álbuns sofisticados. Só disponibilidade para contar a mesma história outra vez, e outra vez, com o mesmo brilho no fim.

Essas histórias tornam-se velcro emocional. Mesmo quando o avô ou a avó já cá não está, a criança que se tornou adulta ainda consegue ouvir a voz deles a narrar de onde veio. É difícil sentirmo-nos completamente perdidos quando ainda conseguimos imaginar aquele dedo enrugado a tocar numa fotografia antiga a preto e branco, a dizer: “Isto somos nós.”

A aceitação silenciosa que parece uma manta quentinha

Nem todos os avós acertam nisto, e alguns falham redondamente. Mas os que acertam fazem algo muito simples: deixam a criança ser quem é. Barulhenta, tímida, estranha, intensa, louca por futebol, obcecada por dinossauros. Desde que ninguém se magoe, deixam estar. Uma aceitação assim é um nutriente psicológico poderoso. Diz à criança: “Não tens de atuar para mim.”

A investigação sobre vinculação aponta consistentemente para esta ideia: sentimo-nos mais próximos de quem nos julga menos. Os avós estão muitas vezes um passo afastados das pressões diárias de criar um filho “como deve ser”. Estão menos investidos em rankings escolares ou em fardas impecáveis. Quando dizem “Estás bem, estás” e é genuíno, isso entra fundo.

Às vezes, a proximidade parece deixar a criança escolher o programa de televisão, mesmo que seja repetitivo até dar sono. Às vezes é comprar discretamente o cereal que os pais proibiram e depois empurrá-lo pela mesa com um sorriso conspiratório. Essa pequena rebeldia pode ser problemática em algumas famílias, sim, mas para a criança muitas vezes lê-se como: “Há alguém do meu lado.” Lealdade, mesmo em doses minúsculas, liga as pessoas para a vida.

A ironia é que os avós que não estão a esforçar-se demais acabam muitas vezes por fazer exatamente o que a psicologia recomenda. Aparecem com regularidade. Repetem rituais pequenos e parvos. Ouvem mais do que pregam. Mantêm-se relativamente calmos. Contam as histórias antigas. Aceitam a criança como ela é em qualquer terça-feira. Nada vistoso. Nada digno de folheto.

E, no entanto, se perguntarmos a adultos, anos depois, quais foram as relações que mais os fizeram sentir em casa na sua própria pele, os avós aparecem uma e outra vez. Não porque fossem perfeitos, ou infinitamente sábios, ou animadores incansáveis. Mas porque estavam lá, de uma forma que parecia fácil. E o nosso sistema nervoso nunca esquece bem as pessoas que fizeram a vida parecer suavemente - quase aborrecidamente - segura.

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