Saltar para o conteúdo

Adeus à casa de banho tradicional: a crescente tendência dos duches abertos no meio do quarto está a dividir opiniões nas famílias.

Mulher ajusta chuveiro dourado em casa moderna, homem observa, quarto com cama, planta e decoração minimalista.

A primeira vez que a Emma mostrou aos pais a nova “casa de banho”, eles limitaram-se a olhar fixamente.
O duche estava ali, no meio do quarto principal, enquadrado por um círculo de luz suave e um degrau baixo de mármore. Sem parede. Sem cortina. Só vidro e a cama, a três metros de distância. A mãe resmungou qualquer coisa sobre “perder completamente o sentido de limites”. O pai perguntou onde é que tinha ido a verdadeira casa de banho. A Emma riu, o companheiro ficou desconfortável, e o arquiteto sorriu como se isto acontecesse todas as semanas.

Nas redes sociais, os comentários foram ainda mais extremos: “Que sexy!” mesmo ao lado de “absolutamente horrível”.
O que antes era o espaço mais privado da casa é agora um palco.

E os casais estão a descobrir, da forma mais difícil, o que isso realmente significa.

Do tabu à peça de afirmação: porque é que os duches estão a entrar no quarto

Nos hotéis de luxo, o duche com paredes de vidro ao lado da cama começou como uma pequena provocação.
Uma forma de sugerir intimidade, de sentir que estava numa suite moderna e arrojada, em Berlim ou em Bali.

Agora, essa mesma ideia está a passar para casas comuns.
Arquitetos desenham duches abertos mesmo ao lado da cabeceira, influencers filmam visitas “duche-com-vista”, e agentes imobiliários falam em “suites spa” em vez de casas de banho.

O que antes ficava escondido atrás de uma porta está a tornar-se o ponto visual da divisão.
Uma espécie de teatro doméstico onde a água, o vapor e a pele substituem o velho espelho do lavatório e o toalheiro.

Percorra feeds de design de interiores e vai começar a ver a mesma cena repetida.
Uma cama king-size, roupa de cama ligeiramente amarrotada. Uma banheira independente ou um quadrado de vidro com chuveiro de efeito chuva, a poucos passos.

Em Paris e Milão, designers de interiores referem que até 30% das novas suites principais que projetam já incluem algum tipo de conceito de duche aberto ou semiaberto.
Em São Paulo e em Los Angeles, empreendimentos de luxo mostram renderizações onde não há uma linha clara entre onde se dorme e onde se toma banho.

A lógica é sempre a mesma: luz natural, sensação de espaço, casais “sem nada a esconder”.
Até que uma das partes do casal percebe que afinal gostava mesmo de ter uma porta.

Parte da explicação é simples: a habitação está a mudar.
Os apartamentos nas cidades estão a ficar mais pequenos, os preços estão a disparar, e cada metro quadrado tem de render mais.

Remover paredes poupa espaço e dinheiro, mas também muda a forma como as divisões se sentem.
Os designers gostam de falar em “fluxos de bem-estar” e “rituais” em vez de duches e lavatórios. A casa de banho torna-se uma zona spa, o quarto torna-se um lounge, tudo se funde num único recreio adulto.

Também há um forte ego de design em ação.
Um duche aberto no meio da divisão grita: somos modernos, somos abertos, não somos como os nossos pais.

Fica incrível no Instagram.
Viver com isso todos os dias é outra história.

Como viver com um duche aberto sem odiar o seu parceiro

Se a ideia o tenta, comece por uma pergunta concreta: quando é que eu tomo banho, na prática?
De manhã? Tarde da noite? Enquanto a outra pessoa está na cama, a ler ou a fazer doomscrolling?

A partir daí, desenhe a casa para a realidade, não para a fantasia.
Uma caixa central de vidro pode parecer um hotel boutique, mas um layout semiaberto funciona muitas vezes melhor no dia a dia: paredes a meia altura, vidro texturado, um ligeiro afastamento da cama.

Pense no percurso: levanta-se da cama, vai até ao duche - para onde vão os pés molhados?
Onde fica a toalha? Onde põe os frascos de champô para que o quarto não pareça uma prateleira de supermercado?

Romance é bonito.
Escorregar num chão molhado às 6:45 da manhã não é.

O erro mais comum não é o vidro nem os azulejos.
É nunca falar sobre limites.

Um arquiteto em Berlim contou-me sobre um casal que jurou que estava “super tranquilo” com um duche aberto quando aprovou as plantas.
Seis meses depois de se mudarem, discutiam todos os dias porque um deles passou a sentir-se exposto, sobretudo nas manhãs de semana, ainda meio ensonado e antes do café.

Falem sobre as partes desagradáveis e banais: fazer a barba, dias de menstruação, gastroenterites.
Pergunte-se com honestidade: quero que o meu parceiro veja tudo isso, todas as vezes?

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias como nos anúncios de gel de banho, sempre a sorrir debaixo de uma chuva perfeita.
A vida real é confusa. O design também tem de deixar espaço para isso.

Designers especializados nestes layouts insistem em incluir pequenas “válvulas de escape” para privacidade.
Um carril de cortina escondido no teto que se puxa em segundos.
Um painel deslizante de vidro canelado que desfoca o corpo sem matar a luz.

Como me disse um arquiteto de interiores em Londres:

“Os melhores duches abertos são, na verdade, 70% abertos e 30% truque. Esses 30% salvam relações.”

Há alguns ajustes simples que mudam tudo:

  • Elevar ligeiramente o piso do duche para que a água não “passeie” para debaixo da cama.
  • Usar iluminação quente e regulável para que duches à meia-noite não iluminem o quarto inteiro.
  • Escolher vidro texturado ou fumado se um de vocês for tímido, mas ainda assim gostar da ideia.
  • Esconder ralos e tubagens para manter a vibe “spa”, e não “balneário”.
  • Planear uma sanita separada, totalmente fechável, algures perto. Não negociável.

O novo teste de intimidade escondido à vista de todos

Os duches abertos no quarto são mais do que uma tendência.
São um teste silencioso e quotidiano ao que a intimidade realmente significa entre duas pessoas.

Alguns casais dizem que isso os aproximou.
Conversam enquanto um toma banho e o outro se veste; sentem que já não há bastidores, que tudo é partilhado.

Outros dizem que se sentem observados em vez de vistos.
O que era suposto ser sensual transforma-se numa tensão diária de baixo nível: um quer as luzes acesas, o outro quer sombras.

Num nível mais profundo, esta configuração coloca uma pergunta que raramente dizemos em voz alta:
onde termina o meu corpo e começa o meu eu privado?

Todos já tivemos aquele momento em que trancamos a porta da casa de banho - não porque alguém vá entrar, mas porque o mundo foi demais e precisamos de três minutos a sós.
Tire essa porta e algo subtil muda.

Em casas com crianças, o duche aberto no quarto dos pais torna-se um símbolo.
Diz: esta é a zona dos adultos, o lugar onde as regras são diferentes, onde os corpos não se escondem da mesma forma. Isso pode ser libertador. Também pode parecer performativo, como se a idade adulta agora precisasse de uma caixa de vidro para se provar.

Os amigos que visitam vão ter opiniões, ditas ou não.
Uns vão delirar com o ambiente de hotel; outros vão voltar para casa e verificar, aliviados, as fechaduras da própria casa de banho.

A parte mais interessante talvez seja o que acontece depois.
Depois de viver alguns anos com um duche no meio do quarto, voltar a uma “cela” de azulejo ao fundo de um corredor pode parecer estranhamente antiquado.

Isto não significa que as paredes vão desaparecer de todas as casas.
Muita gente continua a desejar a dignidade tranquila de fechar uma porta sobre vapor e escovas de dentes.

O que está a mudar é a conversa.
As casas de banho eram apenas funcionais; agora estão a tornar-se território emocional, onde a arquitetura e a intimidade colidem à vista de todos.

As pessoas vão continuar a debater os duches abertos durante muito tempo.
A verdadeira história é o que essas discussões revelam sobre como vivemos juntos - e o que ainda queremos manter só para nós.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
Duche aberto = afirmação de design Leva o espaço de lavagem para o centro visual do quarto Ajuda a decidir se a tendência se ajusta ao seu estilo de vida ou apenas ao seu feed de Instagram
Necessidades de privacidade diferem Os casais reagem de forma muito diferente quando vivem sem porta na casa de banho Incentiva conversas honestas antes de pagar remodelações caras
Soluções híbridas funcionam melhor Paredes parciais, cortinas, vidro texturado, zona de sanita separada Mostra como ter o ambiente “suite spa” sem desconforto diário

FAQ:

  • Um duche aberto no quarto é prático para o dia a dia?
    Pode ser, se planear bem drenagem, ventilação, arrumação e horários de banho diferentes. Muitos arrependimentos vêm de o tratar como cenário fotográfico em vez de uma rotina diária.
  • Os duches abertos no quarto afetam o valor de revenda?
    Em alguns mercados urbanos ou de gama alta, são vistos como um plus; em zonas mais tradicionais, podem reduzir o leque de compradores. Um design que permita redividir facilmente é uma aposta mais segura.
  • E a humidade e o bolor perto da cama?
    Boa extração, aquecimento radiante e uma base de duche ligeiramente elevada e bem selada são essenciais. Ventilação fraca vai prejudicar têxteis e colchões.
  • Posso ter privacidade sem perder o aspeto aberto?
    Sim: use vidro canelado ou fumado, paredes parciais ou carris no teto para cortinas leves. Mantém a sensação de abertura, mas com uma fronteira mais suave e indulgente.
  • Esta tendência é só para corpos jovens ou “perfeitos”?
    Não necessariamente. Os projetos mais saudáveis surgem de pessoas de todas as idades que escolhem o layout por conforto e ligação, não por performance. O verdadeiro luxo é sentir-se à vontade, não estar em exposição.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário