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Adeus à mesa de jantar: a nova tendência internacional que a substitui definitivamente nas casas.

Casal a jantar num balcão de cozinha com salada, pão e vinho; ambiente acolhedor e iluminado.

A mesa de jantar continua lá, a meio da sala, mas está lentamente a transformar-se num depósito. Duas encomendas da Amazon, um portátil, o correio de ontem, uma nave Lego esquecida. À hora do jantar, toda a gente empurra a confusão para a beira, encolhe-se num canto, come meio virado para a televisão ou para o telemóvel. Dez minutos depois, os pratos ficam abandonados e as pessoas regressam ao sofá.

Se olharmos com atenção, a “mesa de família” em muitas casas tornou-se mais símbolo do que realidade.

E, em alguns países, as pessoas decidiram simplesmente passar sem ela.

O desaparecimento silencioso da mesa de jantar

Entre num apartamento novo em Copenhaga, Seul ou Melbourne e verá, muitas vezes, a mesma coisa: uma bancada de cozinha comprida com dois bancos altos, um sofá generoso, talvez uma mesa de centro que sobe até à altura de um portátil. Mas nenhuma mesa grande de jantar para seis.

O coração da casa está a afastar-se daquela peça de mobiliário grande e pesada em torno da qual crescemos. Está a deslocar-se para a ilha da cozinha, para o sofá e, por vezes, para a cama.

Em Tóquio, um jovem casal que conheci tinha substituído a mesa de jantar por uma mesa baixa e dobrável que deslizavam para debaixo do sofá depois de cada refeição. “Nós simplesmente não precisamos de uma mesa grande”, encolheram os ombros. “Comemos juntos aqui”, disseram, batendo no sofá, “e quando vêm amigos, sentamo-nos em almofadas.”

Um inquérito recente no Reino Unido concluiu que quase um em cada três jovens entre os 25 e os 34 anos já não tem uma mesa de jantar tradicional. Comem no sofá, de pé na bancada, ou numa superfície pequena e móvel. Não é uma rebelião consciente. É apenas a forma como vivem as suas casas.

Porquê esta mudança? As habitações estão a encolher. As rendas estão a subir. O trabalho está a invadir a sala. Uma mesa grande e fixa passa, de repente, a parecer um luxo que ocupa metros quadrados para uma actividade que dura 20 minutos por dia.

O mobiliário que não se adapta é o primeiro a ir embora.

E, por trás disto, há uma história mais profunda: a nossa relação com as refeições, com o tempo em família, com a ideia de “sentarmo-nos juntos” está a mudar de forma, em silêncio.

O que substitui a mesa de jantar em casas reais

A nova “mesa” é, na maioria das vezes, uma ilha de cozinha com dois ou três bancos. É ali que se cortam legumes, se respondem a e-mails, se ajuda nos trabalhos de casa e se come uma taça rápida de massa. Tudo acontece ali, depressa.

Algumas pessoas escolhem uma mesa de centro elevatória à frente do sofá. Sobe para as refeições, desce para a Netflix e, quando não é precisa, desaparece visualmente. Uma pequena mesa de parede rebatível também pode ser uma aliada séria em apartamentos minúsculos. Está lá quando é preciso, desaparece quando não é.

Uma família parisiense que visitei deu um passo radical. Venderam o grande conjunto de jantar em carvalho e usaram o espaço para um cantinho de leitura e um tapete grande onde as crianças brincavam. Refeições? Uma bancada alta ao longo da janela com quatro bancos, todos em fila como num balcão de café.

Ao início, os avós ficaram horrorizados. “E onde nos vamos sentar para o almoço de domingo?”, perguntaram. A resposta foi simples: mesas dobráveis na cave, trazidas cá para cima duas vezes por ano. No resto do tempo, a sala sente-se aberta, calma e muito mais alinhada com a vida do dia-a-dia.

Há também um alívio psicológico em não centrar todo o espaço de estar numa única mesa “respeitável”. Sem pressão para a pôr impecável, sem vergonha quando metade está coberta de roupa para dobrar.

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias.

Ao adoptarem superfícies modulares e mais leves, as casas ajustam-se ao ritmo desarrumado da vida real: num dia é uma bancada de bricolage, no seguinte um restaurante improvisado para dois, no dia a seguir uma estação de trabalhos manuais coberta de cola e purpurina.

Como viver bem sem mesa de jantar (sem sentir culpa)

Se a ideia o tenta, comece pequeno. Em vez de arrastar a sua mesa pesada para o passeio, experimente “encolhê-la”. Substitua-a por uma consola estreita ou por um balcão ao longo de uma parede ou janela. Acrescente dois bancos confortáveis com encosto - não aqueles instrumentos de tortura onde nos empoleiramos três minutos antes de a coluna gritar.

Pense em camadas: uma superfície para comer (um balcão, uma mesa de centro elevatória), uma zona mais macia para relaxar (um sofá com um tabuleiro estável ou mini-mesas laterais) e, talvez, um ponto flexível como uma secretária de parede rebatível que possa servir de canto para o pequeno-almoço a solo.

O grande medo quando as pessoas dispensam a mesa é: “Nunca mais vamos ter refeições a sério em família.” Essa ansiedade é muito real. Todos conhecemos aquele momento em que a única altura em que toda a gente está no mesmo sítio é quando os pratos batem na mesa.

O truque não é o mobiliário. É o ritual. Decida que uma vez por dia, de dois em dois dias, ou até apenas aos domingos, vão comer juntos no mesmo local, com os ecrãs de lado, mesmo que esse local seja uma bancada ou a mesa de centro. O erro é pensar que só uma mesa retangular enorme consegue criar ligação.

“As pessoas pedem-me desculpa o tempo todo por comerem no sofá”, ri-se Clara, designer de interiores em Berlim. “Mas o que importa não é a peça de madeira. É a forma como se sentam, conversam e prestam atenção uns aos outros. Um tabuleiro barato no sofá com velas pode sentir-se mais partilhado do que uma mesa de 2.000 euros onde toda a gente está no telemóvel.”

  • Escolha uma “zona de refeição” e ilumine-a bem, mesmo que seja minúscula.
  • Opte por mobiliário que dobre, role ou suba/baixe para que a divisão mude de função rapidamente.
  • Mantenha pratos, talheres e copos ao alcance de um braço dessa zona.
  • Invista no conforto: almofadas, encostos e uma altura adequada para os joelhos.
  • Permita que um espaço permaneça imperfeito e vivido, sem pedir desculpa por isso.

Uma nova forma de partilhar refeições, para lá da mesa grande

Quando apagamos a ideia de que “uma casa a sério precisa de uma mesa de jantar a sério”, podem surgir coisas surpreendentemente ternas. Adolescentes que realmente falam porque estão lado a lado em bancos, e não frente a frente como num interrogatório. Casais que partilham um jantar espontâneo no parapeito da varanda. Amigos apertados em volta de uma mesa de centro, joelhos a tocar, pratos equilibrados, a rir demasiado alto.

O espaço deixa de ditar o comportamento. Começa a moldar o espaço para caber na vida que realmente tem - não na vida das fotos de catálogo.

Para alguns, a mesa de jantar será sempre sagrada, e tudo bem. Para outros, vai desaparecer discretamente do cenário, substituída por uma mistura de balcões, sofás, tabuleiros e peças multifunções. Nenhum dos lados é mais “autêntico” do que o outro.

O que está a emergir lá fora é uma ideia simples, ligeiramente subversiva: o centro da casa não é uma peça de mobiliário. É qualquer lugar onde abrandamos o suficiente para estarmos mesmo uns com os outros. Talvez seja em volta de uma mesa sólida de carvalho. Ou talvez seja sentados no chão, de pernas cruzadas, a partilhar comida para levar de uma caixa de cartão, com o mesmo calor de um assado de domingo.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Zonas de refeição flexíveis Balcões, mesas de centro elevatórias, secretárias de parede rebatíveis Adapta-se a espaços pequenos e a rotinas em mudança
Ritual acima do mobiliário Foco nos momentos partilhados, não em ter uma mesa grande Reduz a culpa e preserva a ligação familiar
Mobiliário multifunções Peças que dobram, rolam ou se transformam em segundos Liberta espaço e faz as divisões parecerem maiores e mais calmas

FAQ:

  • Preciso mesmo de uma mesa de jantar para ter uma casa “a sério”? Não necessariamente. Muitas pessoas lá fora vivem felizes com balcões, mesas de centro ou soluções rebatíveis como principal local para comer.
  • Comer no sofá faz mal à postura? Pode fazer, se se curvar todos os dias. Use almofadas firmes, um tabuleiro estável e sente-se direito, ou alterne com uma superfície mais alta.
  • E se eu gostar de receber grandes jantares? Pode manter uma mesa dobrável e cadeiras empilháveis num armário ou na cave, e trazê-las só quando há convidados.
  • Como mantenho as refeições em família significativas sem uma mesa grande? Escolha uma hora e um local regulares, mesmo que seja uma bancada ou a mesa de centro, e mantenha os ecrãs afastados nesse curto momento partilhado.
  • Esta tendência vai durar ou é só uma moda? Com casas mais pequenas e estilos de vida mais flexíveis, é provável que os espaços de refeição adaptáveis se mantenham e se espalhem, sobretudo nas cidades.

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