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Ao desviar fluxos de lava e arrefecer rocha derretida, a Islândia já salvou várias cidades de erupções vulcânicas.

Trabalhadores em roupas de segurança controlando vapor em solo vulcânico, com casas coloridas ao fundo.

Um tapete luminoso e rastejante a avançar suavemente sobre o chão escuro. Mas toda a gente na Islândia sabe que isto é uma ilusão. Quando uma escoada muda de direção apenas alguns graus, pode significar a diferença entre uma vila piscatória poupada e uma rua principal soterrada.

Numa noite ventosa perto de Grindavík, neste inverno, famílias viram a luz laranja tremeluzir nos tetos das salas. Carros já carregados, motores prontos, crianças de pijama. Na periferia da vila, holofotes rasgavam o vapor enquanto engenheiros, soldados e voluntários discutiam mapas e novas imagens de satélite.

Não estavam a tentar parar o vulcão. Isso é impossível. Estavam a tentar algo muito mais humano: empurrar suavemente um rio de rocha para longe das casas das pessoas. Um bulldozer de cada vez.

A estranha arte de “conduzir” um vulcão

Vistas do ar, as barreiras de lava da Islândia não parecem heroicas. Parecem linhas apressadas desenhadas por uma mão cansada, a fazer laços e zigue-zagues numa paisagem negra. No terreno, são cristas ásperas e cinzentas de terra empurrada por bulldozers e rocha partida, por vezes mais altas do que uma casa de dois andares.

Estas barreiras são a resposta discreta da Islândia a um planeta barulhento. Enquanto o mundo vê erupções espetaculares nas redes sociais, as equipas locais ocupam-se de algo bem menos cinematográfico: calcular para onde a lava poderá ir a seguir - e para onde não pode, de forma alguma, ir. Alguns metros de diferença de altura, uma pequena vala, um dique construído à pressa - são estes “empurrões” que podem desviar um rio de rocha fundida para longe de uma vila.

A ideia soa quase arrogante: redirecionar lava. No entanto, nesta ilha, tornou-se uma arte pragmática, aprendida à força - erro após erro, erupção após erupção.

A prova mais famosa está em Heimaey, uma pequena ilha ao largo da costa sul da Islândia. Em janeiro de 1973, abriu-se uma fenda mesmo fora da única vila, cuspindo lava em direção ao porto - a linha de vida da comunidade. Barcos de pesca fugiram por entre cinzas e escórias a cair. Na primavera, o porto estava quase bloqueado.

Foi então que locais e engenheiros tentaram algo que ninguém tinha feito àquela escala: transformaram o Atlântico Norte num enorme extintor. Navios bombearam água do mar para as frentes da lava, 24 horas por dia. Milhares de toneladas. Dia após dia. A rocha fundida chiava, estalava e endurecia em blocos ásperos e cinzentos.

Ao arrefecer e engrossar a escoada, abrandaram o avanço e empurraram-na para longe da entrada do porto. Quando a erupção parou, a vila estava marcada, mas o porto continuava a funcionar. Melhor ainda: a lava arrefecida formou um novo quebra-mar natural, melhorando o abrigo para a frota pesqueira. Do desastre, um porto mais forte.

A ciência por trás disto parece enganadoramente simples no papel. A lava, como qualquer fluido, segue a gravidade. O terreno mais baixo vence. Isso dá aos engenheiros uma ferramenta básica: alterar a paisagem apenas o suficiente para que “a descer” signifique “para longe de nós”. Um muro de terra com cinco metros de altura pode desviar uma escoada basáltica lenta e viscosa. Contra um rio de lava rápido e rico em gases, seria preciso algo muito maior - ou uma tática diferente.

Arrefecer a lava é a segunda ferramenta. Quando se pulveriza água sobre rocha fundida, a superfície solidifica numa crosta. Por baixo, a lava continua a mover-se, mas mais devagar e num canal mais estreito. Com o tempo, essa crosta engrossa e a escoada pode estagnar ou desviar-se lateralmente, como um engarrafamento que transborda para outra faixa.

Equipas islandesas usam modelos, registos históricos e imagens de drones em tempo real para decidir onde construir barreiras e onde arrefecer. Se errarem, podem prender a lava exatamente no lugar onde não a queriam. Se acertarem, não “param” a erupção - apenas a persuadem a descarregar a sua fúria em campos vazios em vez de cozinhas.

Como a Islândia o faz, de facto, no terreno

Num “dia de lava” típico na Islândia, o herói é muitas vezes um condutor de bulldozer com um casaco laranja, e não um cientista de bata branca. As equipas correm à frente da escoada para juntar pedra-pomes solta, cinza e rocha antiga em muros rudimentares, chamados diques ou taludes. O objetivo é brutalmente simples: construir uma crista, obrigar a um desvio.

Trabalhar perto de lava ativa não é limpo nem organizado. O calor deforma o metal. A visibilidade passa de cristalina a zero quando o vento muda e as nuvens de vapor entram. Os condutores dependem de vigias, rádios e puro instinto. Por vezes, a decisão é tão simples quanto: “Temos três horas antes de esta frente atingir aquela estrada. Construímos aqui.”

Durante as erupções recentes na península de Reykjanes, estes trabalhos de terra foram feitos a uma velocidade recorde. Novas imagens de satélite apareciam num ecrã dentro de um contentor de comando improvisado. Geólogos traçavam com o dedo as linhas prováveis de escoamento. Depois, as escavadoras começavam a mexer-se.

Os erros neste tipo de trabalho de crise raramente são técnicos. São humanos. As pessoas agarram-se à ideia de que a erupção pode simplesmente parar. Que talvez a lava vire sozinha. Ou que desta vez não chegará à periferia. Numa noite húmida e ventosa às 3 da manhã, quem quer ser a pessoa a dizer: “Temos de bulldozar aquele campo agora”?

Nas Ilhas Vestmann, em 1973, houve discussões sobre quando começar a bombear água do mar. Alguns temiam que o equipamento falhasse. Outros receavam que fazer “demais” fosse desperdiçar dinheiro e esforço se a erupção terminasse depressa. A realidade não quis saber. A lava continuou a avançar até tocar na água fria e começar a abrandar.

Há também um tipo mais silencioso de erro: acreditar que soluções antigas servem para todas as novas erupções. Um muro alto que funcionou contra uma escoada espessa e lenta num vale pode ruir instantaneamente sob uma escoada mais quente e rápida noutro lugar. O sucesso da Islândia vem de lembrar que cada vulcão, cada crista, cada vila é diferente - e mesmo assim agir depressa.

Um engenheiro islandês resumiu assim durante a erupção de Fagradalsfjall em 2021:

“Nós não controlamos o vulcão. Negociamos com ele. Às vezes, se nos mexermos depressa e pensarmos com clareza, ele aceita os nossos termos.”

Esses termos são escritos em terra, pedra e gelo. As equipas rodam frequentemente para evitar exaustão. A polícia local gere curiosos que querem aproximar-se mais um pouco para uma melhor fotografia. Voluntários trazem café, sopa, luvas secas. O combustível emocional conta tanto como o gasóleo.

  • Construir alto, mas também com inteligência - Um muro alto ajuda, mas a sua posição em relação a vales e canais laterais importa mais do que o tamanho em si.
  • Arrefecer as frentes certas - Pulverizar água na parte errada de uma escoada pode, sem querer, criar uma “represa” que envia lava diretamente para as casas.
  • Respeitar os mapas antigos de lava
  • Falar cedo, falar muitas vezes - Presidentes de câmara, agricultores, engenheiros e moradores precisam da mesma imagem, mesmo que seja desconfortável.

O que esta pequena ilha ensina ao resto de nós

As experiências discretas da Islândia com lava começam a ecoar muito para além do Atlântico Norte. Cidades no Havai, em Itália e até na República Democrática do Congo observam com atenção. Não porque esperem uma solução copiada a papel químico, mas porque a Islândia prova algo raro: os seres humanos podem, por vezes, viver com erupções - e não apenas fugir delas.

Cada desvio bem-sucedido na Islândia reescreve o que pensamos ser possível. Conduzir uma escoada de lava para salvar um porto. Arrefecer rocha fundida para manter uma central elétrica a funcionar. Construir barreiras tão depressa que um jardim de infância reabre enquanto a erupção ainda fumega ao longe. Isso abre uma brecha na velha narrativa de que a natureza atua e as pessoas apenas reagem.

Todos conhecemos aquele momento em que uma ameaça parece grande demais e abstrata demais para agir - alterações climáticas, subida do nível do mar, incêndios florestais. Ver a Islândia posicionar bulldozers e bombas é como ver essa hesitação estalar. Não podem reparar o vulcão. Podem mudar o desfecho numa rua, para uma família, numa noite.

Há uma verdade dura por baixo do romantismo de crateras incandescentes e auroras boreais. Viver com um vulcão significa viver com planeamento constante: simulacros de evacuação, mapas de risco presos em quadros na cozinha, mochilas de emergência que são realmente atualizadas. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Exceto em lugares onde a lava já levou uma casa ou uma estrada.

Os islandeses dir-lhe-ão que não são destemidos. Estão apenas habituados a conviver com o risco à beira da vila. Essa mistura de realismo e otimismo teimoso atravessa cada muralha de terra e cada mangueira de arrefecimento. Não se trata de vencer a natureza. Trata-se de recusar desistir de um porto, de um recreio ou de uma rua principal sem tentar tudo primeiro.

Com o tempo, estes esforços deixam presentes estranhos. Campos de lava endurecida onde turistas caminham, ainda quentes anos depois. Novas falésias para aves marinhas. Terra extra que não existia no mapa há uma geração. Uma vila que aponta com orgulho para uma crista negra e irregular e diz: “Foi ali que a desviámos.”

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
Desviar escoadas de lava Muros de terra, valas e modelos topográficos redirecionam a lava para zonas desabitadas Compreender como uma simples alteração do relevo pode salvar uma cidade inteira
Arrefecer rocha em fusão Bombagem massiva de água do mar para criar uma crosta sólida e abrandar a progressão Descobrir um método impressionante já usado com sucesso em grande escala
Cooperação em tempo real Engenheiros, habitantes e autoridades decidem com base em mapas, drones e observações no terreno Ver como uma comunidade se organiza na prática perante uma ameaça natural

FAQ:

  • A Islândia já salvou localidades ao redirecionar lava? Sim. O caso mais conhecido é Heimaey, em 1973, onde um arrefecimento maciço com água do mar e uma gestão cuidada da escoada ajudaram a salvar o porto e grande parte da vila.
  • É possível “parar” uma escoada de lava? Não. Pode abrandá-la, engrossá-la ou empurrá-la para um caminho diferente, mas parar completamente uma escoada poderosa está para além da engenharia atual.
  • Não é perigoso trabalhar tão perto de lava ativa? Extremamente. As equipas enfrentam calor intenso, gases tóxicos, terreno instável e fraca visibilidade, razão pela qual as operações são estreitamente coordenadas e constantemente monitorizadas.
  • Outros países podem copiar os métodos da Islândia? Em parte, sim. Cada vulcão e paisagem é diferente, mas as ideias centrais - barreiras topográficas, arrefecimento, monitorização em tempo real - já inspiram planos noutras regiões vulcânicas.
  • Isto torna “seguro” viver perto de um vulcão? Não totalmente. Estas medidas reduzem o risco; não o eliminam. Planos de evacuação, avisos precoces e decisões de ordenamento do território a longo prazo continuam a ser igualmente importantes.

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