Des escadas suspensas no vazio, estradas fraturadas, diques remendados com betão. Durante décadas, a resposta foi simples: construir muros, erguer blocos, manter o mar à distância como se fosse um inimigo. Depois, alguns litorais tentaram outra coisa. Retiraram as defesas. Deixaram a costa nua. Exposta. Quase vulnerável.
Numa manhã de inverno, numa praia do norte de Inglaterra, vi essa aposta a olho nu. Onde antes se erguia uma longa fila de quebra-mares enferrujados, restavam apenas sombras de estacas na areia. Os habitantes tinham-me avisado: “A praia mudou completamente.” A areia parecia mais larga, as dunas mais altas. O mar, esse, fazia o seu trabalho sem pedir licença. Uma pergunta ficava a ecoar.
Quando o betão desaparece, a costa volta a respirar
À primeira vista, uma praia sem defesas parece quase um esquecimento. Sem blocos de betão, sem muros cinzentos, sem uma barreira nítida entre a terra e o mar. Apenas uma frente móvel, um pouco indisciplinada. Os cientistas falam de renaturalização da linha de costa (coastline rewilding), mas no terreno parece sobretudo uma praia que, finalmente, volta a respirar.
Sem estruturas rígidas para quebrar as ondas, os sedimentos voltam a circular. A areia espalha-se, recua, regressa. As barras de areia voltam a formar-se. As arribas desfazem-se em alguns pontos, enquanto noutros se reconstroem. O conjunto não é “limpo” nem perfeitamente estável. É vivo. E os habitantes oscilam entre o alívio e a inquietação.
Na costa neerlandesa, o projeto Sand Motor tornou-se uma espécie de laboratório ao ar livre. Os engenheiros despejaram uma enorme língua de areia no mar e depois deixaram as correntes e as ondas redistribuírem esse material ao longo do litoral. Sem acrescentar muros, sem acrescentar diques. Dez anos depois, a praia mudou de forma várias vezes, alargando em alguns locais a faixa costeira em dezenas de metros.
No Reino Unido, em certas baías de Yorkshire e de Norfolk, retiraram-se filas de quebra-mares que se tinham tornado perigosas. As estatísticas locais surpreenderam toda a gente. Onde se temia um recuo rápido da praia, observou-se por vezes um reequilíbrio - e até um ganho temporário de areia. Não de forma uniforme, nem perfeita. Mas suficiente para mostrar que o litoral ainda sabe auto-organizar-se quando lhe damos margem.
Do ponto de vista físico, a explicação é quase elegante. As estruturas rígidas concentram a energia das ondas em pontos específicos, amplificando a erosão nas suas extremidades. Quando esses obstáculos são removidos, a energia distribui-se de forma mais ampla. As ondas esculpem novas inclinações de praia, mais suaves, onde a areia se pode depositar em vez de ser arrancada. E as dunas, quando deixamos de as pisotear ou de as “aparar”, começam a crescer, captando a areia transportada pelo vento.
Os engenheiros costeiros falam de “sistemas dinâmicos”. Nada fica fixo. Um inverno de tempestades pode roer vários metros de praia e, depois, um verão calmo pode repor uma parte. Longe de ser um fracasso, esta mobilidade torna-se a base de uma nova estratégia: trabalhar com o mar, não contra ele. Deixar a forma da praia mudar torna-se então uma escolha, não uma desistência.
Deixar a natureza fazer o trabalho pesado (com alguma orientação)
No terreno, “retirar as defesas” não significa abandonar tudo. As equipas começam por mapear com precisão os fluxos de sedimentos, as zonas de fragilidade e os habitats. Identificam onde a remoção das estruturas é suportável e onde é preciso manter uma proteção direcionada à volta de estradas, aldeias ou infraestruturas críticas.
O método assenta muitas vezes em etapas sucessivas. Primeiro, deixar envelhecer certas obras sem as reforçar. Depois, retirar uma parte. Depois, por vezes, recuar a estrada ou o estacionamento em vez de insistir, custe o que custar, na linha atual. Onde a praia tem espaço, favorecem-se dunas naturais; plantam-se gramíneas que estabilizam a areia, em vez de muros de betão. O gesto parece simples: aceitar que a praia se desloque.
O que surpreende é até que ponto os erros do passado regressam nas conversas locais. Há quem conte histórias de muros construídos demasiado perto da água, de parques de campismo colocados sobre dunas que depois foram arrasadas. No fundo, sabe-se que muitas vezes se construiu em terrenos “emprestados” ao mar.
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias - vigiar centímetro a centímetro a linha de costa. Preocupamo-nos quando uma tempestade parte uma estrada ou inunda um café de praia. Os presidentes de câmara recebem as queixas, os pais fotografam os estragos, os comerciantes fazem contas. É aí que surge a tensão: aceitar um litoral mais móvel é aceitar também mudar hábitos e, por vezes, desapegar-nos de certos lugares.
Os engenheiros costeiros repetem que o erro mais frequente é exigir uma praia “fixa”, como a borda de uma piscina. Outro erro clássico: acreditar que mais betão traz automaticamente mais segurança. Em alguns troços, a acumulação de defesas agravou a erosão logo ao lado - como um penso que infeta a pele vizinha. As novas abordagens defendem proteções flexíveis e reversíveis, que acompanhem os movimentos naturais em vez de os negar.
“Sempre que removemos um muro rígido, não estamos a desistir - estamos a dar à costa uma oportunidade de se curar a si própria”, confidenciou-me um geomorfólogo enquanto subia uma praia marcada por cicatrizes de betão. “A parte mais difícil não é a engenharia. É ajudar as pessoas a confiar naquilo que não conseguem controlar totalmente.”
Para os visitantes, estas praias em transição contam outra história do litoral. Ainda se veem os vestígios das antigas defesas: blocos partidos, estacas roídas, escadas suspensas. Ao lado, as dunas voltam a crescer, zonas húmidas reconstituem-se atrás da praia, as aves limícolas regressam. O importante não é que tudo se torne idílico, mas que a narrativa mude.
- Observar a praia na maré alta e na maré baixa: a forma nunca é a mesma.
- Identificar as antigas linhas de defesa: mostram onde o mar batia com mais força.
- Ver as dunas como um muro vivo, não como uma simples colina de areia.
- Aceitar que alguns troços recuem enquanto outros avançam.
- Compreender que a “segurança” por vezes vem de um recuo pensado, não de um muro mais alto.
A revolução silenciosa na orla da água
O que está em jogo nestas praias vai muito além da geografia das cartas marítimas. Ao retirar defesas, retiramos também uma parte da nossa ilusão de controlo total. Os habitantes veem o horizonte mudar, por vezes a casa ameaçada, a praia de infância remodelada. E, no entanto, nesse desequilíbrio, algo mais sólido se recompõe: uma relação mais lúcida com o mar e com o tempo longo.
Em alguns litorais, as escolas levam agora os alunos a observar a evolução da praia mês após mês. As crianças comparam perfis de dunas, seguem marcas de tempestades, registam o regresso de espécies que tinham desaparecido. Os pescadores adaptam as suas largadas ao novo desenho da costa. Os caminhantes contam que os pores do sol parecem mais vastos desde que os grandes muros deixaram de recortar o horizonte.
Nada disto é simples nem indolor. Há perdas reais: casas deslocadas, terrenos reclassificados como zonas de risco, vínculos afetivos abalados. Em contrapartida, há praias que se alargam em alguns pontos, sistemas costeiros que recuperam coerência, custos de manutenção que descem no longo prazo. E, sobretudo, uma verdade um pouco crua: as defesas mais eficazes nem sempre são as que se veem.
Nos próximos anos, cada tempestade será um teste a estas novas estratégias. Alguns projetos falharão; outros terão de ser corrigidos, deslocados, repensados. As praias continuarão a remodelar-se, por vezes mais depressa do que os nossos planos. Talvez aí esteja a verdadeira mudança: aceitar que a melhor “defesa” pode ser um litoral livre para se mover - desde que nós também aceitemos mover-nos um pouco com ele.
| Ponto-chave | Detalhe | Interesse para o leitor |
|---|---|---|
| Retirar algumas defesas | Permite que a areia e as dunas se reorganizem naturalmente | Compreender porque é que algumas praias se alargam depois do fim dos muros |
| Trabalhar com o mar | Estratégias flexíveis, dunas vivas, recuo planeado de infraestruturas | Descobrir abordagens que protegem sem betonar todo o litoral |
| Aceitar um litoral móvel | Observar a praia como um sistema vivo, não como uma linha fixa | Mudar o olhar sobre a erosão, as tempestades e o futuro das costas |
FAQ:
- Porque é que alguém haveria de remover defesas costeiras em plena crise climática?
Porque muitas estruturas rígidas deixam de funcionar à medida que o nível do mar sobe e as tempestades se intensificam. Deixar as praias remodelarem-se pode dispersar a energia das ondas, reconstruir dunas e criar amortecedores naturais mais resilientes do que muros de betão envelhecidos.- Remover defesas significa abandonar as comunidades costeiras?
Não. A ideia é proteger o que realmente precisa de proteção - casas, estradas, serviços essenciais - enquanto se libertam troços menos críticos para que possam mover-se e absorver energia das ondas, em vez de falharem de forma catastrófica.- A minha praia local vai ficar completamente diferente se forem removidas as defesas?
Com o tempo, sim: a forma provavelmente mudará. Pode ver áreas de areia mais largas, dunas mais altas ou mais irregulares e uma linha de maré alta variável. A transformação tende a ser gradual, não de um dia para o outro.- Isto é mais barato do que construir muros marítimos maiores e mais fortes?
Muitas vezes, sim, no longo prazo. Manter e reforçar defesas rígidas a cada poucas décadas é extremamente caro. Permitir que os processos naturais façam parte do trabalho pode reduzir custos de manutenção e reparações de emergência.- O turismo consegue sobreviver se a linha de costa for deixada a mover-se?
Muitos destinos mostram que sim. Os turistas vêm por praias vivas, não por muros rachados. Com um bom planeamento - deslocando parques de estacionamento, passadiços e cafés um pouco mais para o interior - o turismo pode adaptar-se a uma orla mais natural e dinâmica.
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