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Aviso Atlântico Norte: orcas atacam navios comerciais em ações coordenadas, alertam especialistas.

Homens de capacete observam orcas nadando próximas ao barco em mar agitado e ensolarado.

O vento acalma, o radar zune suavemente, e a tripulação relaxa um pouco enquanto o navio de carga abre um rasto limpo na água. Depois, o primeiro estremecimento sobe da popa. Não é uma onda. Não é a ondulação. Um segundo impacto, mais seco, bate no leme, e alguém grita da ponte. No escuro, uma sombra preta e branca desliza sob o casco, seguida de outra, e outra. O motor continua a girar, mas o navio já não responde ao volante. O capitão percebe o pesadelo que tem tentado não nomear: orcas.

Não estão ali para fazer truques. Alinham-se, quase metódicas, investindo contra o leme, a testar ângulos, a trabalhar em sincronia. Os rádios crepitam em três línguas. No convés, toda a gente observa agora a água, tentando seguir formas na penumbra.

De repente, o oceano parece território de outra pessoa.

As orcas estão a mudar as regras do Atlântico Norte

Nos últimos anos, os relatos de comandantes no Atlântico Norte deixaram de soar a histórias de mar e passaram a parecer registos de incidentes. As orcas já não são apenas silhuetas distantes no horizonte. Aproximam-se dos cascos, empurram, e depois atacam, com uma precisão que dá um nó no estômago até aos capitães mais experientes. Muitos destes encontros concentram-se num único ponto fraco: o leme.

De Portugal à costa britânica, do Estreito de Gibraltar em direção à Baía da Biscaia, marinheiros descrevem a mesma coreografia inquietante. Um pequeno grupo de orcas aproxima-se, uma faz um círculo largo, outras mergulham fundo, e então começam os golpes. Não são embates aleatórios. São focados, repetidos, muitas vezes durando meia hora ou mais. Os navios derivam, com os motores ainda a trabalhar, mas na prática ficam cegos.

No ecrã do radar, nada parece diferente. Pela janela, o mar tem um novo predador - que não está a caçar peixe.

Pergunte em qualquer marina da costa atlântica ibérica e vai obter mais do que rumores. Vai ouvir datas, coordenadas e vozes que baixam um pouco em certas palavras. Desde cerca de 2020, marinheiros registaram dezenas de encontros em que orcas visaram deliberadamente os lemes. Algumas embarcações regressaram ao porto a custo. Outras tiveram de ser rebocadas. Algumas foram abandonadas e mais tarde afundaram.

Um skipper francês descreveu como três orcas se aproximaram ao pôr do sol, batendo repetidamente no seu veleiro de 12 metros enquanto ele pedia ajuda por rádio. Outro capitão, ao comando de um barco de pesca comercial, reparou na alteração do rasto na água antes de ouvir o embate. “Sabiam exatamente onde bater”, disse ele aos guardas costeiros. Em vários casos, as tripulações relataram juvenis a observar de perto enquanto orcas mais velhas atacavam, quase como uma sessão de formação em serviço.

Todos já vivemos aquele momento em que a rotina estala de repente e percebemos que o livro de regras mudou em silêncio. É isso que estes capitães estão a descrever.

Biólogos marinhos que acompanham este comportamento dizem que o padrão não é aleatório. As orcas vivem em grupos coesos e aprendem depressa. Quando um animal descobre um novo “truque”, isso pode espalhar-se como uma moda numa sala de aula. Alguns investigadores pensam que alguns indivíduos tiveram um encontro traumático com uma embarcação - uma colisão, um susto por pouco, talvez um contacto doloroso com uma linha de pesca ou uma hélice - e começaram depois a visar lemes.

Outros defendem que estamos a ver um comportamento de brincadeira que saiu do controlo. Um objeto gigante em movimento, com uma peça a girar atrás, pode ser irresistível para um animal que gosta de desafios e de força. Quando um grupo percebe que um ponto fraco pode incapacitar um navio inteiro, o “jogo” ganha outro peso. Não são ataques sem sentido, mesmo que ainda estejamos a adivinhar o motivo.

O que é claro é isto: os embates acontecem em grupo, são focados e parecem muito com estratégia.

Como navios e tripulações se estão a adaptar em tempo real

Na ponte de muitos navios comerciais, o briefing sobre orcas já é quase tão padrão como o simulacro de incêndio. Os capitães estudam mapas com encontros recentes, planeiam rotas que evitam zonas críticas conhecidas e ajustam velocidades em áreas de maior risco. Alguns navios abrandam para fazer menos ruído na água. Outros alteram o rumo alguns quilómetros cruciais para o largo, na esperança de passar fora das linhas habituais de “patrulha” dos animais.

Há também uma nova rotina no convés. As tripulações preparam cabos de emergência, verificam balsas salva-vidas e mantêm ferramentas prontas caso o leme encrave. Muitos transportam orientações impressas das autoridades marítimas: o que fazer, o que não fazer, a quem ligar. É uma mudança silenciosa e prática. Sem pânico - apenas o reconhecimento sóbrio de que o mar acrescentou uma nova “falha de equipamento” que não se resolve com uma chave inglesa.

Para embarcações mais pequenas e barcos de pesca, os ajustes vão ainda mais fundo. Alguns skippers evitam travessias noturnas a solo em águas com elevada presença de orcas. Outros escolhem rotas costeiras que consomem mais combustível, mas parecem mais seguras do que o troço em mar aberto onde os grupos surgem com frequência.

O instinto é defender o barco: fazer barulho, gritar, bater em metal. Muitas tripulações já tentaram. Martelos no casco, correntes lançadas à água, até reproduções sonoras altas através de altifalantes subaquáticos. Sejamos honestos: ninguém mantém esses comportamentos “de boas práticas” de forma perfeita num convés a balançar às 3 da manhã.

Os cientistas aconselham agora algo que parece completamente contraintuitivo no mar: desligar o motor se as orcas estiverem a bater ativamente no leme. Uma hélice parada é menos perigosa para os animais e, por vezes, parece fazê-los perder interesse mais depressa. As tripulações são instruídas a não atirar coisas às orcas, a não usar very lights na água e a não tentar “afugentá-las” de forma agressiva. Isso pode escalar o encontro e, além disso, é ilegal em muitas jurisdições.

Há aqui uma tensão humana básica. Quando um predador de três toneladas investe contra o sistema de governação, os nervos não querem saber de regulamentos. Só quer que os golpes parem.

Nos bastidores, as autoridades marítimas tentam transformar relatos assustados em conhecimento útil. Isso significa normalizar reportes, recolher coordenadas GPS e partilhar mapas de incidentes verificados com empresas de navegação quase em tempo real. Biólogos embarcam em alguns navios, registando cada avistamento e cada embate, tentando detetar padrões que os humanos podem não ver.

“Estamos a ver uma cultura a emergir em tempo real”, diz um especialista em orcas com base na Galiza. “A questão é se conseguimos adaptar-nos mais depressa do que elas, sem transformar isto numa guerra que ninguém ganha.”

Para tripulações - e para quem acompanha isto a partir de terra - alguns sinais simples ajudam a manter a perspetiva:

  • O contexto importa - A maioria dos encontros com orcas continua a ser apenas avistamentos, não ataques.
  • Os embates no leme concentram-se - Acontecem em regiões e épocas específicas.
  • Os humanos definem o tom - Respostas em pânico no mar raramente acabam bem para alguém.

Esses pontos não vão acalmar um marinheiro agarrado ao corrimão enquanto o casco estremece. Mas mostram que preparação, comunicação e protocolos claros vencem a improvisação, sempre.

Uma nova relação com um vizinho muito antigo

O que está a acontecer no Atlântico Norte é maior do que uma série de vídeos assustadores e lemes danificados. É um teste em direto a como um sistema global de transporte marítimo, de alta tecnologia, reage quando uma espécie selvagem e inteligente reescreve parte do livro de regras. Rotas de cargueiros, regatas de iates, até épocas de pesca podem começar a adaptar-se aos movimentos de alguns grupos de orcas que aprenderam um novo truque.

Ao mesmo tempo, estes encontros forçam uma pergunta mais difícil: que tipo de presença somos nós, afinal, no oceano delas? Navios de carga cruzam rotas migratórias. Arrastões esgotam zonas de alimentação. O ruído de motores e sonar enche a coluna de água. Quer os embates no leme sejam vingança, brincadeira ou algo para o qual ainda não temos palavras, estão a lembrar-nos que estes animais não são cenário passivo de fundo para as nossas rotas comerciais.

Há algo discretamente radical na ideia de que um grupo de baleias consegue imobilizar um gigante de aço com alguns golpes bem colocados. Isso perturba a hierarquia habitual. E também abre espaço para um novo tipo de conversa entre navegação, ciência e comunidades costeiras. Não uma conversa arrumada. Uma conversa necessária.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
Orcas visam os lemes Golpes coordenados focam-se em inutilizar a governação, em vez de simples toques aleatórios Ajuda a perceber porque é que estes incidentes parecem tão estratégicos e alarmantes
O comportamento está a espalhar-se Grupos específicos no Atlântico Norte parecem estar a aprender e a copiar esta tática Mostra que não é um caso isolado, mas uma tendência em evolução a acompanhar
A resposta marítima está a evoluir Surgem novas rotas, protocolos e investigação para gerir o risco Dá uma visão de como armadores, marinheiros e cientistas se estão a adaptar

FAQ:

  • As orcas estão mesmo a “atacar” navios, ou é apenas brincadeira? Muitos especialistas pensam que o comportamento pode ter começado como brincadeira ou como reação a uma má experiência e depois se ter disseminado por aprendizagem social. Os impactos são graves em qualquer dos casos, especialmente quando o leme é danificado.
  • Houve feridos ou mortos nestes incidentes no Atlântico Norte? Até agora, os relatos descrevem danos nas embarcações e muito medo a bordo, mas não ataques físicos diretos a humanos na água. A maioria das tripulações permanece na embarcação e pede assistência.
  • Os navios podem fazer algo para se protegerem sem prejudicar as orcas? As orientações atuais focam-se em abrandar ou parar os motores, evitar ações agressivas e reportar encontros para que rotas e avisos sejam atualizados. Ainda não existe um dissuasor fiável e não nocivo.
  • Este comportamento está ligado às alterações climáticas ou ao declínio das populações de peixe? Os investigadores estão a explorar essas hipóteses, mas não há uma causa única comprovada. Alterações na distribuição das presas, ruído e tráfego marítimo podem fazer parte do quadro.
  • Os turistas e velejadores recreativos devem evitar o Atlântico Norte agora? Não necessariamente, mas precisam de melhor informação e formação. Consultar mapas recentes de incidentes, seguir conselhos locais e saber como agir num encontro pode reduzir significativamente o risco.

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