À chegada à caixa, um homem de cabelo grisalho tira a carteira, volta a contar as notas e, depois, pousa discretamente um pacote de café. Usa um crachá de plástico: “Seasonal staff”. Tem 69 anos, trabalhou outrora num banco e encontra-se agora a passar as compras de vizinhos mais novos do que ele.
Esta cena repete-se um pouco por todo o lado. Nas lojas, nos aeroportos, nos correios, nas plataformas online. Reformados que achavam que já tinham “as contas feitas” regressam ao mundo do trabalho, não para se ocuparem, mas para conseguirem chegar ao fim do mês. Têm um nome: os “cumulantes”, estes seniores que acumulam pensão e atividade remunerada.
No papel, é uma liberdade. Na vida real, é muitas vezes uma necessidade. E é esse desfasamento que incomoda.
Um novo panorama: a reforma já não é uma linha de meta
Numa cadeia de cafés num bairro tranquilo nos arredores de Londres, três baristas têm menos de 25 anos e um tem 72. Brian, com o mesmo avental verde dos outros, limpa as mesas enquanto brinca dizendo que a música está “demasiado alta para o aparelho auditivo, não para a alma”. Reformou-se há cinco anos, depois de trabalhar em logística. O aumento das rendas e dos preços dos alimentos empurrou-o de volta para trás do balcão.
E ele não está sozinho. Em toda a Europa e na América do Norte, há mais seniores a “picar o ponto” do que em qualquer outro momento recente. O “estilo de vida cumulante” está a tornar-se uma norma social: trabalhar a tempo parcial depois da reforma, somar pequenos rendimentos, conciliar turnos com consultas médicas e com deveres de avós. Para alguns, é revitalizante. Para outros, parece correr uma corrida que julgavam já ter ganho.
No papel, a pensão de Brian parecia suficiente. Na realidade, os números mentiam um pouco. O futuro custa sempre mais do que as folhas de cálculo sugerem.
Olhe-se para os dados e os rostos começam a surgir por trás das percentagens. Nos EUA, a proporção de pessoas com mais de 65 anos a trabalhar quase duplicou nas últimas três décadas. No Reino Unido, mais de uma em cada dez pessoas entre os 65 e os 69 anos continua no mercado de trabalho. Em muitos países europeus, o número de “cumulantes” foi subindo discretamente ano após ano, sobretudo desde que a inflação disparou.
Veja-se Maria, 67 anos, em Madrid. Trabalhou toda a vida no retalho. A sua pensão, outrora indexada a uma economia mais calma, vai derretendo um pouco todos os anos face às contas de energia que não param de subir. Tentou cortar tudo o que fosse “não essencial”, até perceber que até o essencial se tinha tornado um luxo. Uma vizinha falou-lhe de um supermercado que estava a contratar seniores para atendimento ao cliente. Maria hesitou, com receio de olhares de pena. Um mês depois, estava a aprender a usar uma caixa com ecrã tátil.
Hoje, Maria trabalha três manhãs por semana. Chama-lhe o seu “oxigénio extra”. Não é um hobby. É apenas mais uma forma de respirar.
Por trás desta mudança está uma equação simples que deixou de bater certo. As pessoas vivem mais tempo, muitas vezes até bem dentro dos oitenta, enquanto os sistemas de pensões foram concebidos para vidas mais curtas e preços mais estáveis. Habitação, saúde, seguros, transportes, até pequenos prazeres como um café semanal - tudo subiu mais depressa do que a maioria dos rendimentos de reforma. As poupanças, antes consideradas sólidas, foram corroídas pela inflação, por choques de mercado ou por necessidades familiares inesperadas.
Ao mesmo tempo, os mercados de trabalho estão famintos. Muitos setores têm dificuldade em contratar e descobriram a mina de ouro silenciosa de seniores experientes e fiáveis. Contratos flexíveis, turnos curtos, trabalhos sazonais, microtarefas remotas: tudo encaixa perfeitamente no puzzle “cumulante”. O que parece uma escolha de estilo de vida em folhetos brilhantes é, para muitos, uma solução remendada para um desajuste estrutural.
O resultado é uma nova figura social: nem totalmente reformada, nem tradicionalmente empregada. Uma zona cinzenta, simultaneamente capacitadora e inquietante.
Fazer resultar: como os “cumulantes” constroem uma segunda vida de trabalho
Os seniores que parecem lidar melhor com esta nova realidade raramente “caem” em qualquer trabalho. Tratam o trabalho pós-reforma quase como uma microempresa. O primeiro passo é frequentemente surpreendentemente prático: sentar-se à mesa da cozinha com um caderno e perguntar: “O que é que eu quero mesmo fazer… e o que é que me recuso absolutamente a voltar a fazer?”
Alguns listam as suas competências antigas: contabilidade, ensino, carpintaria, enfermagem, administração. Outros listam o que agora lhes dá prazer: jardinagem, conversar com pessoas, conduzir, mexer em computadores. Depois cruzam isso com os limites físicos e a vida familiar. Uma ex-enfermeira pode escolher uma linha telefónica de aconselhamento em saúde em regime remoto em vez de turnos noturnos. Um motorista de autocarro reformado pode fazer transporte escolar algumas manhãs por semana. Este pequeno ato de escolher, em vez de aceitar a primeira oferta, muda muitas vezes toda a experiência.
As plataformas online tornaram-se discretamente o novo mercado dos “cumulantes”. Mas podem ser tanto uma dádiva como uma armadilha. Muitos seniores começam com pequenos biscates: explicações a crianças por videochamada, revisão de textos, trabalho freelance como tradutores, apoio ao cliente a partir de casa. Estas opções deixam espaço para consultas médicas, para cuidar de um cônjuge ou simplesmente para desfrutar de uma tarde tranquila no jardim.
Veja-se Jules, 70 anos, que vive sozinho numa cidade de média dimensão. Foi professor de História. A sua pensão é modesta; a renda não. Um amigo ajudou-o a criar um perfil numa plataforma online de explicações. No início, cobrava muito pouco, sem confiança no seu valor. Os pais adoraram a sua voz calma e as histórias de História “da vida real”. Em menos de um ano, tinha uma pequena lista de espera e um segundo rendimento fiável. Continua a cansar-se, mas sente-se útil, não espremido até ao fim.
Há um lado emocional escondido em tudo isto. Alguns “cumulantes” sentem uma vergonha profunda por regressarem ao trabalho, como se a sua reforma fosse prova de falhanço. Outros sentem-se julgados por colegas mais jovens que assumem que estão a “tirar lugares”. E muitos sentem uma raiva silenciosa perante um contrato social que parece ter mudado debaixo dos seus pés sem aviso. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias, esse cálculo perfeito entre dignidade, fadiga, necessidades e vontades.
É aí que está o verdadeiro “método”: aprender a negociar, a dizer não, a pedir uma cadeira em vez de estar de pé o dia todo, a exigir turnos mais curtos ou a preferir manhãs cedo a noites tardias. Estas microfronteiras não são um luxo; são estratégias de sobrevivência num corpo que já não recupera como aos quarenta.
O que mais ajuda os “cumulantes” a manterem-se à tona é uma combinação de informação, solidariedade e honestidade simples. Conhecer os seus direitos legais sobre acumular pensão e salário. Perceber os limiares fiscais. Falar abertamente com a família sobre dinheiro em vez de encaixar silenciosamente mais turnos. E, tão importante quanto isso, recusar trabalhos que vão roendo a saúde por mais algumas notas.
Um mecânico reformado, que agora trabalha alguns dias por semana numa loja de bricolage, resumiu assim:
“Não voltei ao trabalho para destruir os anos que me restam. Voltei para poder vivê-los sem contar cada colher de açúcar.”
Redes de apoio, online ou offline, podem fazer uma enorme diferença. Centros comunitários locais, associações de seniores, ou mesmo grupos informais de café oferecem mais do que companhia. Partilham dicas sobre empregadores justos, alertam para burlas, explicam regras burocráticas e lembram-se mutuamente de que precisar de rendimento extra não é uma falha moral. O estigma encolhe quando as histórias são partilhadas.
- Verifique quanto pode ganhar sem reduzir a sua pensão.
- Fale com o seu médico antes de começar trabalhos fisicamente exigentes.
- Comece com um período experimental em vez de um compromisso longo.
- Mantenha um dia por semana totalmente livre: sem trabalho, sem biscate.
Para lá do dinheiro: o que esta tendência diz sobre todos nós
Quando se começa a reparar nos “cumulantes”, vêem-se por todo o lado. O engenheiro reformado que conduz uma carrinha de shuttle no aeroporto ao amanhecer. A antiga bibliotecária que volta a arrumar livros ao fim da tarde. A ex-secretária que responde a e-mails de clientes a partir de uma pequena mesa de cozinha. Alguns irradiam um novo sentido de propósito. Outros movem-se com gestos lentos e precisos, como quem raciona a energia.
Esta tendência de estilo de vida é, obviamente, sobre dinheiro. Mas também revela o que as sociedades valorizam - e o que ignoram silenciosamente. Uma geração que construiu grande parte da prosperidade atual encontra-se agora a desvalorizar o seu tempo, experiência e saúde apenas para se manter à tona. Os mais novos observam atentamente, perguntando-se como será a sua própria “reforma”. Vão alguma vez deixar de trabalhar? A própria palavra continuará a significar alguma coisa?
Para alguns leitores, este fenómeno está muito perto. Um pai, um tio, um vizinho que de repente “dá uma ajuda” algures alguns dias por semana. Para outros, é um futuro distante, abstrato demais para tocar. Ainda assim, a pergunta paira no fundo de cada fatura que sobe e de cada alerta noticioso sobre reformas: quanto tempo vamos trabalhar e em que condições?
Não há um final arrumado. A ascensão dos “cumulantes” é, ao mesmo tempo, um aviso e um laboratório. Um aviso de que o velho modelo de reforma está a estalar. Um laboratório de novas formas de misturar trabalho pago, descanso, cuidados e sentido depois dos 60. Uns chamar-lhe-ão resiliência; outros chamar-lhe-ão sobrevivência. A maioria vai vivê-lo como uma mistura confusa de ambos.
Talvez seja por isso que estas histórias prendem tantos leitores aos telemóveis à noite. Falam menos “daqueles seniores” e mais de uma linha invisível para a qual todos caminhamos. Uma linha em que o calendário diz que acabou, mas a conta bancária - e, às vezes, o coração - responde em silêncio: ainda não.
| Ponto-chave | Detalhe | Interesse para o leitor |
|---|---|---|
| A reforma já não é um ponto final claro | Mais seniores trabalham depois da idade da reforma, muitas vezes por necessidade, criando um novo “estilo de vida cumulante”. | Ajuda-o a antecipar como os seus próprios anos mais tarde poderão ser, de forma realista. |
| Escolhas estratégicas aliviam a pressão | Selecionar trabalhos flexíveis e realistas, alinhados com saúde e competências, pode transformar o trabalho pós-reforma de fardo em ferramenta. | Dá ideias para construir rendimento sem esgotamento. |
| Informação e apoio são cruciais | Compreender as regras, partilhar experiências e definir limites protege tanto as finanças como a dignidade. | Mostra como evitar armadilhas comuns e manter algum controlo. |
FAQ:
- O que é exatamente um “cumulante”? Um “cumulante” é um reformado que combina uma pensão com trabalho remunerado, seja a tempo parcial ou ocasional, para complementar o rendimento.
- Os seniores trabalham depois da reforma principalmente por dinheiro? O dinheiro é um fator-chave, sobretudo com o aumento do custo de vida, mas muitos referem também contacto social, rotina e um sentido de propósito.
- Trabalhar depois da reforma faz mal à saúde? Depende totalmente do trabalho e da pessoa. Trabalho leve e flexível pode ser estimulante; funções fisicamente pesadas ou stressantes podem ser prejudiciais.
- Há trabalhos mais adequados para “cumulantes”? Sim: explicações, consultoria, apoio ao cliente, receção, retalho ligeiro, condução ou tarefas freelance online tendem a oferecer mais flexibilidade.
- Como podem as famílias apoiar um reformado que trabalha? Falando abertamente sobre dinheiro, ajudando com burocracia ou tecnologia, respeitando o cansaço e evitando julgamentos sobre a escolha - ou necessidade - de continuar a trabalhar.
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