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Equipas de psicologia identificam três preferências de cor associadas a baixa autoconfiança.

Mulher analisa amostras de tecido perto de uma paleta de cores em uma mesa.

No metro, esta mulher vestida inteiramente de preto - casaco, mala, telemóvel - evita o seu reflexo no vidro. Este jovem com um hoodie oversize azul elétrico, ténis a condizer, franze o sobrolho sempre que o ecrã se acende. No escritório, a colega que repinta os seus slides de rosa muito claro sempre que tem de apresentar morde o lábio à espera das perguntas.

Achamos que escolhemos uma cor porque “gostamos”. Na realidade, essa escolha é muitas vezes uma pequena armadura invisível, uma estratégia discreta para manter o mundo à distância ou para dar nas vistas sem admitir que precisamos disso. Algumas equipas de psicologia que trabalham a imagem de si próprio constataram-no vezes sem conta.

Três preferências de cor repetem-se entre pessoas cuja confiança vacila. E o mais surpreendente é aquilo que essas tonalidades dizem sobre o que não ousamos admitir em voz alta.

Quando as cores falam mais alto do que nós

Os psicólogos que acompanham pacientes ao longo do tempo reparam na mesma cena a repetir-se. Uma pessoa chega à terapia convencida de que “só precisa de um pouco de organização”. Usa sempre os mesmos tons: preto profundo, azul berrante ou rosa ultra-suave. Ao longo das sessões, essas cores saem da roupa e invadem o telemóvel, a decoração, até à escolha da caneta.

Não é apenas uma questão de moda. É uma espécie de linguagem emocional silenciosa. Preto para se misturar, azul choque para existir a qualquer custo, rosa suave para parecer inofensivo. Muitas vezes, estas cores ganham mais espaço quando a voz interior se torna mais dura. Não se diz nada, mas vestimo-nos e rodeamo-nos de coisas como se estivéssemos a responder a um ataque que ainda nem chegou.

Todos já vivemos aquele momento em que escolhemos uma roupa a pensar: “Assim, pelo menos, não vão falar de mim.” Ou o inverso: “Se eu usar esta cor, só vão ver isto, não os meus defeitos.” Uma pequena negociação ansiosa com o espelho, que revela muito mais do que se esperava.

Um estudo interno realizado num centro de terapia cognitivo-comportamental em Londres observou 120 pacientes durante seis meses. Os terapeutas registavam discretamente as cores dominantes da roupa e dos objetos pessoais visíveis (capas de telemóvel, cadernos, malas). Entre os que declaravam um baixo nível de confiança, destacavam-se claramente três grupos.

O primeiro grupo usava preto pelo menos quatro dias em cinco, mesmo fora do contexto profissional. O segundo voltava constantemente a um azul muito saturado, quase fluorescente, muitas vezes combinado com acessórios vistosos. O terceiro apostava no rosa “pó”, blush, mala, fundo de ecrã, camisola, até criar à sua volta uma bolha pastel.

As cores não chegam para fazer um diagnóstico, claro. Mas as entrevistas revelavam um padrão. O “tudo preto” estava muitas vezes associado à sensação de não merecer ser visto. O azul berrante escondia um medo pânico de ser insignificante. O rosa suave cobria o receio de desagradar ou incomodar. As tonalidades tornavam-se muletas emocionais, usadas nem sempre com consciência.

Do ponto de vista psicológico, estas preferências repetitivas parecem guiões de proteção. O preto funciona como camuflagem social: reduz contrastes, chama menos a atenção, dá uma impressão de seriedade. Para alguém que duvida do seu valor, é reconfortante fundir-se no cenário. O problema é que esta invisibilidade mantida acaba por confirmar a vozinha que diz “não tens nada de interessante”.

O azul muito vivo cumpre a função oposta. Projeta presença, quase autoridade, mesmo quando por dentro se está frágil. É como aumentar o volume visual para compensar uma voz interior demasiado baixa. Também aqui a armadilha é subtil: quanto mais se depende dessa cor para “ser alguém”, mais nu se fica sem ela.

O rosa pó remete para códigos de doçura, cuidado, ausência de ameaça. Algumas pessoas que detestam conflito rodeiam-se dele, inconscientemente, para enviar uma mensagem: “Sou simpática, não sejas duro comigo.” Este reflexo acalma no momento, mas às vezes alimenta a ideia de que é preciso parecer adorável para merecer o seu lugar.

Aprender a ouvir o que as suas cores estão a tentar dizer

A primeira coisa concreta a fazer não é deitar fora a roupa. É conduzir uma pequena investigação honesta sobre os seus hábitos cromáticos. Durante sete dias, anote num caderno ou numa nota do telemóvel as cores dominantes da sua roupa, dos acessórios e daquilo que o rodeia na secretária ou na sala.

No fim da semana, sublinhe tudo o que volta em ciclo. Não uma vez. Não duas. Mesmo em ciclo. Depois, pergunte a si próprio, para cada cor recorrente: “Que papel tem para mim? Esconde-me, protege-me, dá-me coragem, suaviza-me?” A ideia não é julgar, é apenas pôr palavras numa rotina que se tornou invisível.

Um exercício usado por algumas psicólogas consiste em testar um “dia sem muleta”. Depois de identificar a sua cor-refúgio, escolha um dia tranquilo, sem compromissos cruciais. Nesse dia, é proibido usá-la ou exibi-la. Em alternativa, escolha tons mais neutros ou moderados: azul-marinho em vez de preto profundo, azul-claro em vez de elétrico, bege ou terracota suave em vez de rosa pastel.

Observe o que acontece na sua cabeça ao longo do dia. Sente-se mais exposto? Mais autêntico? Há algum momento em que apetece voltar a casa para se trocar? Esse desconforto diz muito sobre quanta confiança está a depositar na cor, em vez de na sua presença real.

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Mas uma vez por mês basta para sentir o efeito. A maior parte das pessoas conta depois que o vazio deixado pela “cor-segurança” lhes permitiu ouvir, pela primeira vez, pensamentos muito automáticos: “Sem preto, vão ver que sou banal”, “Sem azul chamativo, vão ignorar-me”, “Sem rosa, vão achar-me dura”. É a partir daí que o trabalho pode começar.

Uma psicóloga especializada em autoestima dizia-me recentemente:

“Nunca peço aos meus pacientes para mudarem o estilo. Peço-lhes que compreendam até que ponto o estilo os protege. A mudança vem mais tarde, quase sozinha.”

Para não se perder em imposições absurdas do tipo “tem de usar amarelo para ser feliz”, pode ter em mente alguns pontos simples:

  • O preto não é seu inimigo, exceto quando se torna uma obrigação invisível.
  • O azul vivo pode ser um potenciador, mas não uma máscara permanente.
  • O rosa suave continua lindíssimo quando exprime uma escolha, não um medo de incomodar.
  • Introduzir uma cor nova, uma vez por semana, chega para testar outras facetas suas.
  • As suas cores preferidas não têm de desaparecer, apenas deixar de reinar sozinhas.

Abrir a paleta sem se trair

O que muda verdadeiramente a relação com as cores não é um relooking, é o ritmo. Em vez de decidir brutalmente “vou deixar o preto”, pode instituir um ritual simples: um dia por semana sem a sua cor-refúgio. No resto do tempo, nada muda. A pequenez do gesto torna-o sustentável, sobretudo quando a confiança é frágil.

Outro método discreto: mudar primeiro os objetos, não a roupa. Se o seu telemóvel, o seu caderno e a sua caneca são todos rosa pó, comece por substituir apenas um desses elementos por um tom um pouco mais neutro ou um pouco mais quente. O objetivo não é ter uma decoração “Instagram”, mas mostrar ao seu cérebro que consegue existir sem esse código tranquilizador.

Para quem se sente quase prisioneiro do preto, uma dica é começar por pôr a cor no interior: forro de casaco colorido, meias, lingerie, lenço guardado na mala. Introduz-se uma nuance mais pessoal que não fica imediatamente exposta ao olhar dos outros. Com o tempo, alguns desses apontamentos acabam por vir para fora, naturalmente.

Se o seu refúgio é o azul berrante, pode jogar com as intensidades. Mantenha o azul, mas varie: marinho num dia, céu noutro, petróleo ao fim de semana. É uma forma suave de dizer à sua identidade: “Não desapareces se falares mais baixo.” Para o rosa pó, a ideia pode ser explorar os seus “primos”: coral, terracota suave, bege rosado. Mantém-se o calor, mas sai-se do papel único de “pessoa simpática e inofensiva”.

Muitos descobrem que, ao variar as tonalidades, recebem reações diferentes à sua volta: “Pareces mais descansado hoje”, “Fica-te bem esse tom”, “Vejo-te mais afirmado.” Estas frases, mesmo que pareçam superficiais, têm muito peso quando a autoestima vacila. Mostram que se pode ser visto como interessante sem ficar colado a uma única cor.

Ponto-chave Detalhes Porque é que importa para os leitores
“Preto todos os dias” pode esconder o medo de ser visto Usar preto quatro ou cinco dias por semana, incluindo em contextos descontraídos, está muitas vezes ligado a uma vontade de desaparecer um pouco no cenário. Muitas pessoas descrevem esta escolha como “mais simples”, mas depois reconhecem que temem os olhares quando saem desse registo escuro. Se se revê nisto, pode explicar porque recusa convites, evita fotografias ou fica no fundo da sala. Identificar este padrão abre a porta a pequenas experiências de visibilidade escolhida, menos ansiogénicas.
Azul elétrico como “altifalante” para baixa autoestima Peças de azul muito vivo, repetidas (hoodies, ténis, mala, fundo de ecrã), servem por vezes de megafone visual quando se tem medo de ser transparente. Sem estes apontamentos berrantes, algumas pessoas sentem-se “apagadas”, como se a sua presença já não bastasse. Compreender este mecanismo ajuda a trabalhar a confiança na forma de falar, mover-se e impor limites, em vez de apostar tudo no impacto do que se veste. A cor volta a ser uma escolha estética, não uma boia de salvação.
Rosa suave pode sinalizar a necessidade de ser percebido como inofensivo Um ambiente saturado de rosa pálido (roupa, decoração, papelaria) pode traduzir um medo profundo do conflito ou de um julgamento severo. Procura-se então, inconscientemente, enviar uma mensagem de doçura permanente para evitar críticas. Se vive neste “casulo” pastel, pode explicar porque tem dificuldade em dizer não ou em expressar discordância. Reparar nesta ligação ajuda a introduzir cores mais afirmadas em paralelo com tomadas de posição mais claras.

O que fascina nestas histórias de cores é que nada é fixo. A mesma tonalidade pode ser um gesto de fuga aos 20 e um gesto de poder aos 40. Um preto escolhido conscientemente pela sobriedade não conta a mesma história que um preto usado por reflexo, todos os dias, para não ocupar espaço.

Os psicólogos que exploram estas ligações não procuram prender as pessoas em rótulos cromáticos. Observam tendências, cenários que se repetem, “pequenas manias” que se tornam paredes mestras da identidade. E por trás do preto, do azul choque, do rosa pó, encontram muitas vezes as mesmas frases: “Tenho medo de não ser suficiente”, “Tenho medo de ser esquecido”, “Tenho medo de desiludir”.

O interesse, no fim, não é decifrar os outros no metro. É olhar para si próprio com alguma curiosidade. Porque é que esta cor volta tantas vezes? Em que momento ganhou este lugar? Ainda diz algo de verdadeiro sobre mim ou é apenas um hábito que me prende?

Por vezes, basta uma camisola de outro tom, uma parede pintada de forma diferente, um fundo de ecrã menos “seguro”, para desencadear uma conversa consigo mesmo que estava em suspenso há anos. As cores tornam-se então menos uma prisão silenciosa e mais um terreno de jogo. E, nesse jogo, a confiança não se mede pela intensidade de um azul ou pela suavidade de um rosa, mas pela liberdade que temos de mudar.

FAQ

  • O facto de gostar de preto significa obrigatoriamente que tenho baixa autoestima? Não. O preto pode ser uma escolha de estilo muito assumida, ligada ao gosto, à cultura, à profissão ou à praticidade. A questão coloca-se quando essa cor se torna um “passo obrigatório”, ao ponto de gerar stress se tiver de sair dela. Não é a cor em si que é o problema, mas o grau de dependência emocional que lhe atribuimos.
  • Como saber se uma cor se tornou a minha “muleta” psicológica? Pergunte a si próprio o que sentiria se tivesse de passar um dia inteiro sem a usar nem a ver. Se a simples ideia provocar ansiedade, sensação de vulnerabilidade ou medo de ser “menos você”, é muitas vezes sinal de que a cor está a cumprir uma função de proteção psicológica mais do que estética.
  • Os estudos sobre cores e confiança são mesmo científicos? Existem trabalhos sólidos sobre o impacto das cores no humor, na perceção social e no comportamento. No entanto, as relações são probabilísticas, não absolutas. As equipas de psicologia usam preferências cromáticas como um indício entre outros, nunca como uma verdade isolada ou uma ferramenta de diagnóstico.
  • Mudar de cores pode chegar para melhorar a minha confiança? Mudar as cores, por si só, não resolve um problema de autoestima, mas pode apoiar um trabalho mais profundo. É uma alavanca simbólica: ao variar a sua paleta, experimenta maneiras diferentes de ser visto e de existir, o que pode alimentar tomadas de consciência e reforçar um sentimento de agência.
  • Devo evitar o azul vivo ou o rosa pó se me reconheço nestas descrições? Não necessariamente. O objetivo não é banir uma cor, mas devolver-lhe o estatuto de simples opção. Pode começar por limitar a presença dessas tonalidades em certos dias, introduzir outras em paralelo e observar o que surge em termos de emoções ou pensamentos. O equilíbrio vem mais da diversidade do que da proibição.

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