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“Hidrogénio branco” em França: a diferença entre uma descoberta promissora e uma fonte de energia utilizável

Homem analisa rochas numa vinha, com mapa e portátil, ao pôr do sol.

On a todos já vivemos aquele momento em que um anúncio científico incendeia as manchetes e depois desaparece sem deixar rasto na vida real.

Em França, o «hidrogénio branco» desempenha exatamente esse papel de herói potencial, preso entre a promessa geológica e a realidade energética. Sob as colinas tranquilas do Maciço Central, em rochas que ninguém tinha realmente olhado como uma mina de futuro, cientistas detetaram bolsas de hidrogénio natural, prontas a ser extraídas - pelo menos, em teoria.

Nos corredores dos ministérios, tal como nos cortes geológicos, a mesma pergunta repete-se: estamos perante um novo ouro branco ou apenas mais uma miragem na longa história das energias milagrosas? O entusiasmo é real; as incógnitas também. E por detrás dos mapas coloridos e dos números em percentagem, esconde-se uma fratura simples: a diferença entre um jazigo bonito… e um recurso que se consegue, de facto, usar.

Das encostas tranquilas de França às manchetes globais

Numa terça-feira de manhã de setembro, perto de Lussat, na Creuse, a cena não tem nada do cliché high-tech. Um campo, uma carrinha branca, alguns geólogos inclinados sobre uma perfuração e um cheiro mineral que sobe do subsolo. Nada de drones, nada de robôs brilhantes - apenas uma sonda que mede concentrações de hidrogénio num furo de várias centenas de metros. À superfície, a paisagem permanece perfeitamente banal. Debaixo das botas, porém, o mapa energético de França redesenha-se em silêncio.

Desde a descoberta espetacular de Bourakébougou, no Mali - uma aldeia alimentada por hidrogénio natural que jorra do solo - os geólogos franceses olham para as suas rochas com outros olhos. E se o mesmo fenómeno existisse, escondido, debaixo dos nossos pés? Esta ideia levou o Bureau de Recherches Géologiques et Minières (BRGM), startups e algumas grandes empresas de energia a partir à procura. O Maciço Central, os Vosgos, os Pirenéus: zonas que se julgavam bem conhecidas tornam-se, de repente, territórios de exploração, com o hidrogénio natural na mira.

A pequena revolução cabe num número: em certas perfurações, os sensores mostram mais de 10, 15, por vezes 20% de hidrogénio nos gases que sobem do subsolo. No papel, é enorme. Os mapas enchem-se de manchas coloridas, os modelos sugerem volumes promissores, os responsáveis políticos falam numa «fileira estratégica». Ainda assim, entre uma medição pontual num furo e um recurso que se consegue produzir durante anos a um custo aceitável, há um abismo. É precisamente nesse espaço que se joga a história do hidrogénio branco em França.

O que distingue uma “descoberta promissora” de um verdadeiro recurso energético?

Na linguagem geológica, um «show» de hidrogénio - uma boa concentração medida num furo de sondagem - basta para fazer brilhar os olhos. Para o transformar num recurso, é preciso muito mais do que um número sedutor num ecrã. É necessário um reservatório suficientemente vasto, uma recarga natural (ou um volume inicial grande), uma geologia que permita perfurar sem arruinar o projeto e uma composição gasosa que não exija uma fábrica química em cada poço. Uma boa descoberta é a faísca. Um recurso é o fogo que se mantém ao longo do tempo.

Os geólogos distinguem três grandes etapas mentais. Primeiro, a «prova de existência»: sim, há hidrogénio nessas rochas. Depois, o «potencial»: estimam-se volumes teóricos, por vezes gigantescos, frequentemente mergulhados em incerteza. Por fim, o «recurso explorável»: aquele que tem em conta custos, tecnologia, direito e aceitação local. Entre o segundo e o terceiro degrau, muitas promessas energéticas já caíram. O hidrogénio branco em França está exatamente nesse ponto frágil do enredo.

Na Creuse ou na Lorena, os primeiros números fizeram nascer um entusiasmo quase imediato. Fala-se de um gás limpo na combustão, produzido pela própria Terra, sem eletrólise, sem importações longínquas, sem dependência de metais críticos necessários aos painéis solares ou às baterias. As comparações com o «petróleo do século XXI» multiplicam-se. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias - verificar se a natureza não está a preparar gratuitamente aquilo que as nossas fábricas custam a produzir. Mas a história industrial mostra que o entusiasmo inicial tem rapidamente de dar lugar a uma série de perguntas muito concretas, por vezes brutais.

Descer à realidade: geologia, custos e vida local

O primeiro truque para perceber se um jazigo de hidrogénio branco tem pernas para andar é olhar para a geologia como um canalizador olha para a canalização. De onde vem o gás? Por onde circula? Onde fica retido? Em França, muitos cenários assentam na serpentinização (uma reação entre a água e certas rochas ricas em ferro) ou na radiólise (a água “partida” pela radioatividade natural). Se estas reações continuarem hoje, o reservatório pode recarregar-se. Se aconteceram sobretudo no passado, fala-se de um stock, não de uma fonte contínua. Para a energia, esta nuance muda tudo.

Outro exercício mental útil: imaginar o custo de cada quilograma de hidrogénio que sairá do poço. Perfurações profundas, separação do hidrogénio de outros gases, gestão da água, infraestruturas de transporte… cada etapa vai corroendo o sonho do «gás gratuito vindo do solo». Um local pouco profundo, com gás relativamente puro, perto de uma zona industrial com procura de hidrogénio, não tem nada a ver com um reservatório isolado na montanha, misturado com metano ou azoto. A promessa torna-se recurso quando a equação económica fecha sem subsídio permanente.

Os erros frequentes nascem muitas vezes de uma mistura de pressa e encantamento. Confunde-se um volume potencial, calculado num mapa, com uma produção efetiva, ano após ano. Esquece-se que o hidrogénio, sendo muito leve, escapa facilmente, tornando por vezes as armadilhas geológicas menos eficazes do que no petróleo. Subestima-se também a reação dos habitantes: perfurar a 1000 metros de profundidade sob uma aldeia não tem, de todo, a mesma carga emocional do que instalar algumas eólicas num campo. A transição energética não se decide apenas nos laboratórios; decide-se também nas reuniões de câmara, numa terça à noite, perante habitantes preocupados.

«A verdadeira pergunta não é apenas: “Quanto hidrogénio se pode encontrar?”, mas: “Quanto hidrogénio se pode produzir, a que preço e durante quanto tempo, sem perder a confiança das pessoas que vivem mesmo por cima?”», confidenciou-me recentemente um geólogo envolvido num dos projetos-piloto franceses.

Para manter as ideias claras, alguns pontos de referência simples ajudam a filtrar a informação:

  • Teor de hidrogénio medido: abaixo de alguns pontos percentuais, o interesse cai rapidamente.
  • Profundidade do reservatório: quanto mais profundo, mais a fatura sobe.
  • Estabilidade ao longo do tempo: uma medição pontual não basta; é preciso acompanhar o fluxo no tempo.
  • Qualidade do gás: hidrogénio puro ou um cocktail complexo a tratar?
  • Ambiente e vizinhança: zona industrial ou aldeia rural tranquila?

Lei, estratégia e o longo caminho da descoberta à vida quotidiana

França ainda está na fase de afinação entre ciência, direito e estratégia. Até há pouco tempo, o hidrogénio natural praticamente não existia no código mineiro. As licenças focavam-se sobretudo no petróleo, no gás convencional e na geotermia. Foi necessário adaptar textos, clarificar quem tem direito a explorar, quem decide os usos e como partilhar valor com os territórios envolvidos. Não é muito sedutor no papel, mas é este alicerce que transforma uma boa descoberta local numa potencial fileira industrial.

O governo já encaixa o hidrogénio branco no seu discurso de soberania energética. A ideia é simples: se França conseguir produzir parte do seu hidrogénio no próprio território, reduz simultaneamente emissões e dependência de importações de gás ou de hidrogénio «azul» vindo de fora. Nos planos estratégicos, estes recursos naturais viriam complementar os grandes eletrolisadores alimentados pelo nuclear e pelas renováveis. Nada garante que os volumes sejam suficientes, mas a perspetiva basta para desencadear uma corrida discreta entre regiões, institutos públicos e indústria.

Para o leitor, a verdadeira viragem acontece quando esta história sai dos PowerPoints e chega ao quotidiano. Uma siderurgia que substitui parte do gás natural por hidrogénio natural produzido localmente. Uma frota de autocarros regionais alimentada por uma mistura de hidrogénio verde e branco. Uma antiga bacia mineira onde se reabrem poços - já não para carvão, mas para um gás invisível produzido pela Terra. Estas cenas ainda não chegaram, não realmente. Existem sob a forma de cenários, projetos-piloto, discussões intensas. Entre a promessa de um jazigo e um recurso plenamente utilizado, o caminho é longo, por vezes frustrante, muitas vezes fascinante de acompanhar.

O hidrogénio branco em França, em 2026, parece um romance de que só lemos os três primeiros capítulos. Sabemos que o cenário se sustenta: uma geologia favorável, uma necessidade maciça de hidrogénio para descarbonizar a indústria, uma vontade política de avançar. Adivinham-se também os conflitos futuros: sobre o uso do subsolo, sobre a repartição dos benefícios, sobre o ritmo aceitável da exploração. Cada um projeta as suas esperanças: alguns veem aqui uma escapatória à dura realidade dos esforços de sobriedade; outros, um complemento elegante - não uma solução milagrosa.

A diferença entre promessa e recurso vai jogar-se em detalhes que não o são assim tanto: alguns euros por quilograma, alguns pontos percentuais a mais ou a menos de pureza, algumas decisões regulamentares. E, como tantas vezes na energia, na capacidade de contar uma história que una ciência, economia e a vida das pessoas. Talvez um dia, ao passar por uma pequena instalação discreta à saída de uma cidade média, se pense: «Ah pois, é aquele famoso hidrogénio branco de que se falava em todo o lado há dez anos.» Até lá, o subsolo francês continuará a “cozinhar” lentamente as suas rochas, enquanto nós, à superfície, decidimos o que queremos realmente fazer com isso.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
Diferença promessa / recurso Um «show» de hidrogénio não basta; é preciso produção duradoura e rentável Perceber porque uma descoberta mediática nem sempre se traduz numa fileira real
Papel da geologia Reações em profundidade, reservatórios, recarga natural, profundidade dos poços Entender o que faz a solidez (ou a fragilidade) de um jazigo de hidrogénio branco
Desafios económicos e sociais Custos de extração, enquadramento legal, aceitação local, usos industriais Ver como este recurso poderia, concretamente, impactar o quotidiano e os territórios

FAQ:

  • O hidrogénio branco em França é mesmo transformador para o clima? Pode tornar-se uma peça interessante do puzzle, sobretudo para a indústria pesada, mas os dados atuais sugerem que é mais provável ser um complemento forte do que uma solução milagrosa. O impacto real dependerá dos volumes, dos custos e da rapidez com que os projetos passem da exploração para a produção.
  • Em que é que o hidrogénio branco difere do hidrogénio verde? O hidrogénio branco é produzido naturalmente no subsolo e extraído através de poços, enquanto o hidrogénio verde é fabricado à superfície usando eletricidade (idealmente renovável ou de baixo carbono) para separar a água. Um é um recurso geológico; o outro é um produto tecnológico.
  • Onde em França foi encontrado hidrogénio branco até agora? Sinais iniciais surgiram em regiões como o Maciço Central, partes do leste de França e antigas zonas mineiras, mas a maioria ainda está em fase de exploração ou investigação, não em produção comercial.
  • O hidrogénio branco poderia substituir o aquecimento a gás nas casas francesas? Não em nenhum cenário realista de curto prazo. Se vier a confirmar-se como recurso, o hidrogénio branco deverá visar primeiro usos industriais, onde o hidrogénio já tem função e alto valor, em vez de sistemas domésticos de aquecimento.
  • Quando poderemos ver os primeiros projetos comerciais de hidrogénio branco em França? Cronogramas otimistas falam em produção-piloto dentro de alguns anos, mas projetos comerciais em larga escala e estáveis serão mais provavelmente uma história da década de 2030, dependendo da geologia, da regulamentação e da aceitação pública.

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