A casa de banho era perfeitamente digna de Instagram, àquela maneira familiar dos anos 2020: microcimento cinzento e sedoso do chão ao teto, um lavatório que parecia talhado numa nuvem e um duche sem juntas visíveis.
A proprietária estava orgulhosa. Dois anos antes, aquele acabamento gritava “hotel boutique” e “aprovado por arquitetos”. Agora, com a luz da tarde a bater nas paredes, fissuras finíssimas desenhavam linhas silenciosas junto aos cantos, como pequenas rugas a aparecerem num rosto demasiado liso.
Ela passou a mão pela superfície. Fria. Mate. Ligeiramente poeirenta ao toque, apesar da limpeza semanal. No parapeito da janela, um pequeno ponto escurecera onde a água se tinha acumulado. O empreiteiro encolheu os ombros: “É microcimento. Envelhece.”
Mais abaixo na rua, noutra remodelação, outra casa de banho estava a ganhar forma. O mesmo espírito minimalista, a mesma paleta calma. Mas o acabamento não era microcimento. Era o material em que cada vez mais designers estão a apostar em silêncio. E tudo indica que veio para ficar.
A queda silenciosa do microcimento - e a ascensão de um novo “sólido macio”
Durante algum tempo, o microcimento pareceu ser a resposta para tudo. Envolvia pavimentos, paredes, bancadas e duches numa pele perfeita e sem emendas que fazia as casas parecerem galerias de arte. Parecia limpo, puro, caro. Depois a vida quotidiana entrou: toalhas molhadas, frascos de champô a cair, luz solar, trotinetes das crianças a raspar no corredor.
Pouco a pouco, começaram a aparecer as fissuras - literais e metafóricas. As pessoas começaram a sussurrar em fóruns sobre cantos de microcimento a lascar em ilhas de cozinha. Sobre duches que manchavam onde o champô ficava demasiado tempo. Sobre o aspeto “sempre ligeiramente poeirento” que nenhuma esfregona parecia resolver. A estética continuava deslumbrante no Pinterest. Em casas reais, o romance arrefeceu.
É aí que se começa a ouvir outra palavra em visitas de obra e em conversas de grupo de arquitetos: microtopping. Soa a primo do microcimento - e, de certa forma, é. Mas esta geração mais recente de revestimentos cimentícios ultrafinos modificados com polímeros comporta-se de forma diferente no dia a dia. Aderência mais forte, camadas mais flexíveis, selantes mais inteligentes. A mesma vibe minimalista. Menos drama.
Veja-se o caso da Anna e do James, um casal na casa dos trinta que remodelou no ano passado uma pequena moradia em banda em Londres. Estavam decididos a usar microcimento na minúscula casa de banho. O moodboard estava cheio de caixas cinzento-pálidas com juntas invisíveis. O construtor, que acabara de regressar de reparar um pavimento de microcimento a descascar noutro sítio, sugeriu antes um sistema de microtopping.
Hesitaram. Parecia técnico, pouco glamoroso. Mas foram ver uma obra concluída: uma casa de família com crianças, cães e uma entrada permanentemente molhada. O pavimento com microtopping parecia… tranquilo. Ligeiramente mosqueado, suave ao olhar, sem danos visíveis. A casa de banho dessa casa tinha o mesmo aspeto monolítico que a Anna queria, mas a superfície parecia mais uma pedra lisa do que um estuque poeirento.
Agora, um ano depois, as paredes da casa de banho deles continuam a parecer recém-feitas. Sem microfissuras tipo teia em redor do nicho do duche. Sem escurecimentos estranhos onde os transbordos da banheira bateram. Quando os amigos visitam, assumem que é microcimento. E a Anna gosta de dizer, discretamente: “É um sistema mais recente - mais flexível, mais durável.” Essa pequena frase resume uma mudança que se sente em projetos de remodelação pela Europa e pelos EUA.
Por baixo da superfície, a explicação é quase aborrecidamente prática. O microcimento clássico é, essencialmente, um revestimento muito fino à base de cimento. Bonito, mas rígido. As casas mexem. Vigas de madeira fletam. As temperaturas mudam. É aí que surgem microfissuras numa pele quebradiça. Já os sistemas de microtopping misturam cimento com polímeros desenhados para “esticar” ligeiramente com o edifício.
Além disso, costumam vir com construções em várias camadas: uma base reforçada, uma ou duas camadas finas para textura e, depois, selantes de alto desempenho escolhidos para cada divisão. Bancadas de cozinha recebem acabamentos resistentes a manchas. Duches recebem fórmulas que lidam com humidade constante. Salas recebem selantes macios sob os pés descalços. O resultado: mantém-se o visual contínuo e escultórico que tornou o microcimento famoso, mas com um acabamento que se comporta mais como um “sólido macio” resiliente do que como uma concha calcária.
Como passar do microcimento para a nova geração - sem perder o visual
O primeiro passo prático é simples: deixe de pedir “microcimento” e comece a pedir “revestimentos minerais contínuos” ou “sistemas de microtopping”. As palavras importam. Abrem a porta para que os empreiteiros sugiram produtos com aspeto semelhante, mas melhor desempenho. Mostre fotografias do que quer - o lavatório monolítico, o duche envolvente, o pavimento que continua até ao terraço - e depois pergunte que sistema usariam para chegar lá em 2026, não em 2016.
Depois, aprofunde um nível: onde é que a água vai ficar parada, onde é que o sol vai bater, o que é que vai levar pancadas no dia a dia? Marque esses pontos literalmente na planta. É aqui que o aplicador pode acrescentar rede de reforço, uma espessura um pouco maior ou um selante mais resistente. Uma boa reunião em obra nesta fase poupa meses de pequenas frustrações mais tarde.
O passo seguinte é menos glamoroso, mas crucial: honestidade na manutenção. Microtopping e sistemas semelhantes são vendidos como “fáceis de viver”, e na maioria das vezes são. Ainda assim, precisam de respeito. Lixívia agressiva, desentupidores concentrados, esfregões metálicos - tudo isto vai, silenciosamente, degradando qualquer selante protetor ao longo do tempo. Isso não significa ter de andar em bicos de pés na própria cozinha. Significa escolher detergentes suaves, de pH neutro, e limpar derrames que também manchariam mármore ou madeira.
Sejamos honestos: ninguém faz isto mesmo todos os dias. Por isso, aposte em hábitos realistas. Uma passagem semanal de esfregona com detergente neutro, um pano macio na casa de banho e a proibição de arrastar móveis pesados sem feltros. A boa notícia é que o microtopping tende a “assentar” com o uso, não a degradar-se de forma evidente; pequenas marcas finas fundem-se no movimento geral da superfície, em vez de gritarem para si como a aresta lascada de um azulejo.
Num projeto recente em Barcelona, um arquiteto resumiu a nova mentalidade assim:
“Costumávamos perseguir a perfeição com peles duras e frágeis: vidro, alto brilho, mármore afiado. Agora os clientes querem superfícies calmas, tolerantes. O microtopping dá-nos isso - aceita a vida.”
Essa ideia de “aceitar a vida” pode ajudar a orientar as escolhas no seu próprio projeto. Sempre que estiver a hesitar entre um acabamento impecável mas delicado e outro ligeiramente mais texturado e resistente, pergunte a si mesmo qual deles o deixará menos tenso daqui a cinco anos.
- O microtopping não é magia, mas é muito mais tolerante do que o microcimento clássico em suportes que mexem.
- Os melhores resultados vêm de aplicadores certificados que conhecem o sistema de produto por dentro e por fora.
- Pense nele como pensaria numa pedra natural: bonito, ligeiramente “vivo”, mais feliz com cuidados suaves do que com esfregas brutais.
O que esta mudança diz sobre as nossas casas - e o que vem a seguir
O fim do reinado do microcimento não significa que desapareça de um dia para o outro. Vai continuar a vê-lo em concept stores e hotéis topo de gama, onde equipas de manutenção podem mimá-lo. Em casas comuns, porém, algo está a mudar. As pessoas estão cansadas de acabamentos que as castigam por viverem normalmente. Continuam a querer aquele aspeto sereno, de galeria. Só não querem entrar em pânico sempre que um convidado deixa cair uma garrafa de vinho tinto.
É em parte por isso que o microtopping - e outras misturas flexíveis de cimento e resina - parecem tão certos neste momento. Têm a mesma atmosfera calma e contínua, mas permitem pequenas imperfeições, variações subtis, vontade de tocar. Um designer chamou-lhe a passagem de interiores “não toque” para interiores “entre, está tudo bem”. Num nível mais profundo, estes novos materiais combinam com a forma como muitos de nós vemos agora as nossas casas: não como cenários, mas como lugares que têm de ceder um pouco à vida real.
Todos conhecemos aquele momento em que finalmente deixamos de tratar um sofá ou um chão novo como peça de museu e começamos a viver nele. Superfícies como o microtopping aceleram essa transição - no bom sentido. A primeira marca leve não parece o fim do mundo. Parece o início da história. E, depois de experimentar esse minimalismo descontraído, a velha perfeição quebradiça do microcimento clássico começa a parecer estranhamente datada.
| Ponto-chave | Detalhe | Interesse para o leitor |
|---|---|---|
| O microcimento está a perder terreno | Fissuras, manchas e problemas de manutenção estão a empurrar proprietários e profissionais para alternativas. | Ajuda a evitar investir num acabamento que pode envelhecer mal no uso quotidiano. |
| Microtopping como substituto | Revestimentos cimentícios flexíveis modificados com polímeros oferecem o mesmo aspeto contínuo com maior durabilidade. | Permite manter a estética minimalista sem as dores de cabeça típicas do microcimento. |
| Mudança de mentalidade no projeto | Planear movimento, água e desgaste real leva a interiores mais calmos e tolerantes. | Torna a remodelação mais preparada para o futuro e menos stressante de viver. |
FAQ
- O microcimento “acabou” mesmo ou apenas está menos na moda? Não está a desaparecer, mas está a tornar-se mais de nicho, em espaços de elevada manutenção. Em casas comuns, muitos profissionais preferem hoje sistemas de microtopping mais recentes, que resolvem problemas frequentes de fissuração e manchas.
- Qual é a principal diferença entre microcimento e microtopping? O microtopping mistura normalmente cimento com polímeros avançados e é aplicado num sistema por camadas com selantes modernos. Essa combinação torna-o mais flexível, mais durável e mais fácil de manter do que o microcimento tradicional.
- Posso aplicar microtopping por cima dos azulejos ou do pavimento existente? Muitas vezes, sim - desde que o suporte esteja são, limpo e devidamente preparado. Os aplicadores podem adicionar um primário e uma rede de reforço. Um bom profissional deve sempre testar e confirmar no local antes de iniciar.
- É adequado para zonas húmidas como duches e casas de banho? Sim. Os sistemas certos de microtopping são concebidos para zonas húmidas, desde que aplicados sobre um suporte impermeabilizado e finalizados com um selante especificado para humidade constante.
- Quanta manutenção este novo material precisa realmente? Pense nele como numa pedra moderna e calma: detergentes suaves, limpeza rápida de manchas fortes e uma resselagem ocasional, dependendo do uso. Não é “zero esforço”, mas é muito menos frágil do que a primeira vaga de acabamentos em microcimento.
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