Inside, as salas de reunião já não falam de capas coloridas ou toques polifónicos. Falam de 5G, automação, cibersegurança e IA a “auto-recuperar” redes. Cá fora, muita gente ainda pensa no 3310 ou no N95.
A distância entre memória e realidade nunca foi tão grande: a Nokia de hoje vive menos no seu bolso e mais na infraestrutura que faz o seu telemóvel funcionar.
A pergunta mantém-se: isto é um segundo ato arrojado - ou apenas a prova de que certos gigantes mudam de pele, mas não desaparecem?
A Nokia está de volta - só que não onde a deixou
Entre num laboratório moderno da Nokia e, em vez de filas de smartphones, verá racks de rede, painéis de monitorização e equipas a ler tráfego em tempo real. A marca que antes era produto de consumo agora é, sobretudo, “canalização” digital.
O foco atual: software e IA para ajudar operadores (pense em MEO, NOS, Vodafone e equivalentes lá fora) a gerir redes como sistemas vivos:
- prever sobrecargas em células rádio e reencaminhar tráfego antes de haver quebras;
- reduzir “ruído” de alarmes (muitos sinais, poucos problemas reais);
- detetar padrões de ataque ou anomalias antes de virarem incidentes.
Isto não é glamoroso - mas decide se o streaming aguenta, se o MB Way autoriza, ou se uma chamada crítica (por exemplo para o 112) cai no pior momento.
O logótipo é o mesmo. O campo de batalha não.
Em números, a viragem faz sentido: o negócio de telemóveis colapsou no início dos anos 2010, mas redes e software voltaram a empurrar as receitas para a casa dos 20 mil milhões de euros nos últimos anos. E, para operadores, ferramentas de automação/IA estão a deixar de ser “extra” para serem parte do funcionamento básico.
Sobre energia: a Nokia já afirmou poupanças até 30% com funcionalidades baseadas em IA. Na prática, estes “até” dependem muito do cenário (tráfego, densidade urbana, hardware, configuração). Ainda assim, mesmo melhorias pequenas (2–10% numa rede grande) podem ser materialmente relevantes, porque energia é um dos custos operacionais que mais dói - e em Portugal isso sente-se especialmente com sites distribuídos e climatização.
E há um ponto-chave desta nova fase: quando a IA evita uma falha, quase ninguém sabe. Um operador deteta anomalias cedo, corrige, o público segue a vida. Esta é a nova Nokia: impacto alto, visibilidade baixa.
A lógica por trás da mudança é simples:
- telemóveis = margens apertadas e competição emocional;
- redes = infraestrutura, contratos longos, integração “pegajosa”.
Ter a camada de IA que monitoriza, protege e otimiza redes significa receitas recorrentes e menos exposição ao ciclo de moda do consumo. Software que melhora com dados e afinação contínua tende a ser mais difícil de substituir do que hardware indiferenciado.
Também reduz o “holofote”: aqui o público não é o Instagram - são CTOs, equipas de operações, reguladores e compras, obcecados com latência, disponibilidade e segurança.
Como a Nokia está a tecer IA na canalização digital do mundo
O manual é pragmático: colocar IA onde há complexidade, repetição e custo. Centros de operações de rede (NOC) costumavam ser pessoas a reagir a milhares de alarmes. Agora, o objetivo é a IA fazer triagem e automatizar a primeira resposta.
Em vez de 10.000 alertas, o engenheiro recebe poucas “histórias” com contexto provável:
- “corte de fibra” (correlação de falhas em cascata),
- “latência anómala” (degradação progressiva antes de quebrar),
- “tráfego suspeito” (padrões típicos de botnets/DDoS).
O ganho real costuma vir de duas coisas: menos tempo até identificar a causa e menos intervenções humanas repetitivas às 3 da manhã. Mas há limites: automação mal afinada pode criar falsos positivos, desligar capacidade cedo demais ou mascarar problemas estruturais. Por isso, em muitos operadores, a regra é “automatizar com guardrails”: thresholds, validação e possibilidade de reversão rápida.
Um exemplo recorrente: plataformas como a AVA (IA, analítica e automação) são usadas para prever congestionamento e ajustar recursos. Em eventos (concertos, futebol), a ideia não é adivinhar o futuro “perfeito”, mas melhorar a preparação com base em histórico e padrões de mobilidade, para reduzir quedas e picos de latência.
Outro uso típico é mapear onde a rede bate no limite (4G/5G), o que ajuda a priorizar investimento. Aqui há um lado menos óbvio: estes dados podem influenciar decisões locais sobre cobertura, capacidade e inclusão - mas na UE entram também obrigações de privacidade e governação de dados (GDPR). Em termos práticos: dados sensíveis tendem a ser agregados/anonimizados, e a partilha/armazenamento tem de ser cuidadosamente controlada.
A jogada mais profunda vai além de “torres e antenas”. Ao juntar IA com redes rádio, fibra, segurança e 5G privado, a Nokia tenta ser a empresa que entende o “tudo em rede”:
- fábricas com robôs e sensores exigem ligações fiáveis e latência na ordem de poucos milissegundos;
- portos e logística precisam de conectividade previsível para automação e segurança;
- energia e utilities valorizam deteção precoce de anomalias para evitar falhas em cadeia.
A realidade: integrar IA em redes reais é mais “engenharia e processos” do que magia. Pode exigir meses de afinação, acesso a dados de qualidade e convivência com equipamento legado. E há um trade-off inevitável: quanto mais uma operação depende da automação de um fornecedor, maior o risco de dependência (vendor lock-in) - algo que operadores tentam mitigar com standards, APIs e arquitetura modular.
O que a viragem da Nokia para a IA diz sobre gigantes tecnológicos, sobrevivência e segundos atos
A lição prática é menos romântica do que parece: marcas grandes raramente morrem de vez; mudam para salas que o público não vê. Quando uma empresa tem patentes, peso em standards e confiança técnica, consegue recuar e reaparecer onde há margens melhores.
A Nokia que perdeu os smartphones não é a mesma Nokia que vende software para manter redes de pé.
O padrão de sobrevivência costuma ser este:
1) aceitar que o “produto-herói” não volta;
2) seguir ativos reais (engenharia, relações, know-how), não nostalgia;
3) transformar isso em serviços recorrentes e difíceis de substituir.
Por trás de muitas manchetes sobre “morte de marca”, há frequentemente uma metamorfose silenciosa em datacenters, operações e contratos de longo prazo.
Também desfaz um mito: tecnologia não é só disrupção rápida. Há inovação lenta e teimosa - limpar legado, adaptar infraestrutura, renegociar país a país, cumprir requisitos de segurança e auditoria. É aí que se ganha a guerra que quase ninguém vê.
“Na tecnologia, a extinção é rara. O que se vê mais frequentemente é metamorfose - o logótipo fica, a alma migra.”
O padrão repete-se (IBM, Microsoft, e outros): menos palco, mais infraestrutura. E para o utilizador comum, o impacto é invisível mas real: menos falhas, melhor estabilidade, e recuperações mais rápidas quando algo corre mal.
- Marcas legadas com papel forte em infraestrutura tendem a ressurgir em B2B e IA, mesmo após perderem o brilho no consumo.
- A IA permite monetizar forças antigas: dados operacionais, experiência de rede, confiança e standards.
- O benefício para quem usa a internet é indireto: fiabilidade, latência mais consistente e menos interrupções.
A narrativa pública demora a acompanhar. As pessoas lembram-se dos telemóveis. As empresas já estão em tabelas de encaminhamento, automação e gestão energética.
| Ponto-chave | Detalhes | Porque importa em Portugal |
|---|---|---|
| IA por trás da conectividade do dia a dia | IA/automação a prever congestionamentos e a acelerar resolução de falhas em 4G/5G | Menos chamadas interrompidas, menos “quebras” em apps de transporte, pagamentos e trabalho remoto |
| Poupança de energia em redes móveis com IA | Ajuste de capacidade em horas de baixa procura (com limites para não degradar cobertura) | Energia pesa nos custos; mesmo ganhos modestos ajudam a libertar orçamento para melhorar rede |
| 5G privado + IA para indústria | Redes dedicadas para fábricas, portos, campus, com foco em previsibilidade e segurança | Afeta produtividade, automação e segurança em ambientes industriais e logísticos |
Pensar no segundo ato da Nokia - e nos nossos
A história levanta uma pergunta útil: quantas marcas descartamos cedo demais só porque saíram da montra? O mesmo logótipo que estava no seu primeiro telemóvel pode hoje estar em bastidores - a apoiar comunicações de emergência, redes empresariais ou a estabilidade do 5G.
Há também um lado pessoal: competências que pareciam presas a uma função podem ter valor noutro contexto. A Nokia não “apagou” o passado; reaproveitou-o: engenharia de rádio virou treino de modelos, operações viraram automação, hardware virou serviço.
A IA é muitas vezes vendida como futuro abstrato e ameaçador. Aqui, a versão real é mais concreta: menos heroísmo, mais manutenção, mais processos, mais responsabilidade. E uma ideia simples - mas exigente - de continuidade: cair, adaptar, reconfigurar, e voltar a ser relevante sem precisar de aplausos.
Da próxima vez que vir o logótipo azul num armário à beira da estrada, num equipamento de rede ou num contexto industrial, vale a pena lembrar: a era dos toques passou. A era da IA está ligada. E, entre as duas, há um mapa sobre como se sobrevive quando ninguém está a olhar.
FAQ
A Nokia ainda faz smartphones? Existem (ou existiram) smartphones com a marca Nokia via licenciamento - durante anos associados à HMD Global. A Nokia “mãe” está hoje focada sobretudo em redes, software e IA para operadores e empresas.
O que é que a Nokia está exatamente a fazer com IA hoje? Usa IA/analítica/automação (por exemplo em plataformas como a AVA) para prever falhas, reduzir alarmes, otimizar energia, reforçar segurança e apoiar operações de 4G/5G e 5G privado.
Porque é que a Nokia se afastou dos telemóveis para redes e IA? Redes são infraestrutura com contratos longos e necessidade constante de otimização. A IA permite transformar experiência acumulada em serviços recorrentes - e fugir à competição brutal e de margens baixas do consumo.
A IA da Nokia afeta diretamente os utilizadores comuns de internet? Normalmente não verá “Nokia” no seu ecrã, mas pode sentir efeitos como mais estabilidade, menos quebras e recuperação mais rápida quando há incidentes.
A Nokia é um concorrente sério dos grandes players de cloud e IA? Em geral, não tenta ser uma “nova Google/Microsoft”. Tende a trabalhar em parceria e a concentrar-se nas camadas telecom e industrial, onde tem histórico, integração e relações de longo prazo.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário