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Psicólogos debatem se ver TV à noite em excesso é um hábito inofensivo ou sinal de problemas psicológicos mais profundos.

Mulher sentada no sofá assistindo TV com expressão preocupada, segurando comando. Mesa com chá, agenda e telemóvel.

m. e o brilho azul da televisão é a única luz que resta no apartamento. Um homem na casa dos trinta promete a si próprio que vai parar depois deste episódio. Talvez do próximo. No sofá, uma taça com molho de massa já coalhado inclina-se perigosamente para a borda, esquecida há horas.

O telemóvel vibra com um e-mail do trabalho a que ele não vai responder até de manhã. Outra notificação: “Ainda estás a ver?” pergunta a Netflix, naquele tom meio reprovador, meio tentador. Ele carrega em “Continuar” sem pensar. Os olhos ardem-lhe, mas a história no ecrã parece mais segura do que os pensamentos à espera no quarto escuro.

Do outro lado da cidade, um estudante vê sitcoms antigas sem som, deixando-as correr como uma espécie de papel de parede em movimento. Um novo semestre começou, a ansiedade está a subir, e dormir parece algo que se tem de merecer. A noite alonga-se. Os genéricos passam. Algo mais fundo mexe-se, em silêncio.

Porque é que as maratonas de TV nocturnas estão a dividir os psicólogos

Fale com cinco psicólogos sobre maratonas de televisão à noite e ouvirá cinco veredictos diferentes. Alguns descrevem-nas como o novo “copo de vinho” ao fim do dia: uma pequena escapadinha gerível que ajuda as pessoas a descomprimir. Outros vêem um padrão crescente de pacientes exaustos que dizem que “não conseguem parar de ver”, mesmo quando estão miseráveis, atrasados e esgotados.

No centro do debate está uma pergunta simples: onde fica a linha entre um ritual inofensivo e um sinal de que algo não está bem. As plataformas de streaming reportam que os seus picos de visualização empurram muitas vezes para lá da meia-noite em dias úteis, mesmo entre adultos trabalhadores. Já não são apenas adolescentes aborrecidos. São professores, enfermeiros, estafetas. Pessoas que precisam de estar de pé às sete, mas carregam em “Próximo episódio” à uma.

Para alguns clínicos, isto é apenas um sinal de a vida moderna estar a remodelar as nossas noites. Para outros, estas horas de olhos pesados sugerem forças mais profundas: ansiedade por tratar, humor em baixo, PHDA, ou a clássica “procrastinação de vingança à hora de deitar”, em que as pessoas roubam tempo ao sono porque é a única altura que sentem como sua. O mesmo comportamento, duas histórias radicalmente diferentes no consultório.

Num plano puramente prático, os números são difíceis de ignorar. Investigadores da Universidade de Michigan, analisando mais de 400 adultos, descobriram que os “maratonistas” intensivos tinham uma probabilidade significativamente maior de ter pior qualidade de sono e mais fadiga durante o dia. As pessoas que viam três ou mais episódios seguidos pelo menos algumas vezes por semana eram as mais propensas a relatar voltas na cama, pensamentos acelerados e dificuldade em acordar.

Num estudo neerlandês sobre maratonas e sono, quase 80% dos participantes tinham feito pelo menos uma maratona no último mês. Entre os maratonistas frequentes, a “activação mental pré-sono” era maior: o cérebro a zunir, sem desacelerar. Uma jovem entrevistada para um acompanhamento descreveu ficar na cama a rever reviravoltas do enredo em vez de relaxar: “É como se a minha cabeça ainda estivesse dentro da série.” Só essa frase já foi citada em mais do que um consultório.

As histórias dos clínicos ecoam os dados. Uma psicóloga em Londres descreve um cliente que via dramas policiais até às 3 da manhã todas as noites e depois castigava-se por estar exausto no trabalho. Outro terapeuta em Toronto fala de um pai que não conseguia encarar ir para a cama porque o silêncio fazia a ansiedade rugir. No papel, ambos eram “maratonas de TV”. Na realidade, eram duas respostas diferentes à dor.

Profissionais que tentam dar sentido a esta tendência voltam frequentemente ao contexto. Perguntam: o que é que esta maratona está a fazer por esta pessoa? Se é um momento de leveza depois de um dia longo, é uma coisa. Se é a única coisa entre ela e um ataque de pânico, é outra. A TV à noite não é neutra quando se torna a principal ferramenta de coping para tudo, desde solidão até medo financeiro.

Alguns psicólogos argumentam que chamar-lhe “um sinal de alerta” arrisca patologizar um prazer normal. Os humanos sempre gostaram de se perder em histórias, de romances em folhetim a radionovelas. A mudança agora está na intensidade e na acessibilidade: já não há um suspense no fim do episódio que o obrigue a esperar uma semana, e nenhum canal anuncia “por hoje é tudo”. Pode ver quarenta horas num fim-de-semana e ninguém o impede.

Outros dizem que ignorar o ângulo da saúde mental é ingénuo. Se alguém fica repetidamente acordado até às 3 da manhã, aparece no trabalho destruído, e ainda assim não resiste a carregar no play, começa a parecer menos um hobby e mais uma compulsão. Alguns psiquiatras comparam-no à alimentação emocional: não é mau por si só, mas torna-se revelador quando é usado para anestesiar, evitar ou preencher um vazio. É aí que está o verdadeiro debate.

Quando o hábito do “só mais um episódio” se torna um sinal de aviso

Um truque prático que os psicólogos usam é um teste de três perguntas. Primeiro: como é o seu estado de espírito antes e depois de uma maratona? Se se sente um pouco mais relaxado e depois vai para a cama, isso inclina para o inofensivo. Se se sente mais vazio, acelerado ou envergonhado, é outra história. Segundo: com que frequência está a sacrificar necessidades básicas pelos seus programas - sono, refeições, planos sociais.

Terceiro: está a escolher a série, ou parece que a série o está a escolher a si? Isto não é apenas poético. Pessoas que dizem “posso parar quando quiser” e de facto param tendem a estar na zona verde. As que ficam ali a pensar “odeio estar a fazer isto” enquanto clicam em “Próximo”, noite após noite, estão em águas mais turvas. O impulso em si não é o problema - é a perda de liberdade em torno dele.

Os psicólogos também observam o que se passa no resto da vida. O apetite mudou? Está mais irritável ou retraído? Está a perder interesse por coisas de que antes gostava? Numa noite má, pode ver cinco episódios. Num mês mau, começa a evitar amigos porque “só quer ficar em casa a ver alguma coisa”. É aí que as preocupações com a saúde mental passam da teoria à realidade.

A nível humano, isto costuma começar pequeno. Um pai ou uma mãe solteira deita as crianças, abre uma app de streaming e finalmente sente que tem uma pausa de decisões constantes. Um episódio vira três, mas volta a rir - e isso parece precioso. Claro que se agarra a isso. O problema começa quando as noites tardias se acumulam e as manhãs ficam pesadas, mas as noites ainda parecem ser a única altura em que está “autorizado” a existir.

Nas redes sociais, as pessoas publicam memes sobre acabar uma temporada inteira numa noite, meio a gabar-se, meio a implorar que alguém diga “igual”. Esse piscar de olho colectivo torna fácil ignorar os custos que se vão instalando. Alguns espectadores acordam com dores de cabeça fortes, olhos secos e uma vaga sensação de inquietação que não conseguem nomear. As avaliações no trabalho pioram, a paciência diminui, mas o próximo suspense está sempre a um clique.

Os psiquiatras assinalam que as maratonas nocturnas podem mascarar outros problemas. A ansiedade aparece muitas vezes como inquietação e necessidade de distracção constante. A depressão pode trazer uma energia amortecida de “tanto faz”, que encaixa perfeitamente numa visualização interminável e passiva. Cérebros com PHDA perseguem estimulação e novidade, tornando o auto-play numa armadilha perfeita. A TV não causa tudo isto, mas pode alimentar o ciclo em silêncio.

Um clínico chama-lhe “evitamento suave”: não está obviamente a auto-destruir-se, está apenas cronicamente a não enfrentar a sua vida. As contas continuam por abrir. A conversa difícil continua por acontecer. A mudança de carreira com que sonha vive num separador em que nunca clica. No ecrã, as pessoas mudam, decidem, crescem. Fora do ecrã, fica preso ao sofá, noite após noite, a dizer a si próprio que está cansado demais para fazer outra coisa.

Como evitar que a sua TV nocturna se transforme numa armadilha para a saúde mental

Psicólogos que não são anti-maratona de todo sugerem tratar a visualização nocturna como a cafeína: óptima na dose certa, dolorosa quando manda na sua agenda. Um método prático é uma “janela de corte” em vez de uma hora de deitar rígida. Decide, por exemplo, que os ecrãs se desligam 45 minutos antes de dormir, seja qual for a hora. Esse intervalo permite ao cérebro passar do modo-história para o modo-descanso.

Outro ajuste pequeno mas poderoso é mudar a forma como termina a noite. Em vez de deixar o auto-play arrastá-lo, escolhe o fim. Pare a meio de um episódio em que não está a acontecer nada dramático. Assim o cérebro não fica a vibrar com suspenses enquanto está na cama. Parece contra-intuitivo, mas muitas pessoas descobrem que adormecem mais depressa assim.

Alguns terapeutas até transformam isto num micro-ritual: quando desliga a TV, faz sempre a mesma sequência mínima - um copo de água, alongar, casa de banho, cama. Nada de scroll “por dois minutos”. Nada de ver e-mails “rapidinho”. A previsibilidade ajuda o sistema nervoso a aprender o que vem a seguir. Ao fim de algumas semanas, essa sequência começa a chamar a sonolência por si só.

Muitas pessoas que lutam com maratonas nocturnas já tentaram regras rígidas como “Nada de ecrãs depois das 22h” e aguentaram uns três dias. Sejamos honestos: ninguém faz mesmo isso todos os dias. É por isso que os psicólogos falam de “limites suaves” em vez de proibições rígidas. Parece mais adulto, menos como castigar-se por gostar de TV.

Uma sugestão comum é planear de propósito as noites de maratona. Talvez a sexta-feira seja a sua noite sem regras, em que se permite ficar acordado até tarde com uma série nova. Nas outras noites, escolhe conteúdos mais curtos ou um único episódio. Ao calendarizar as noites “selvagens”, deixam de ser um segredo culposo e passam a ser uma escolha consciente.

Quando o hábito parece pegajoso, os terapeutas convidam as pessoas a ficar curiosas em vez de duras. O que é que estava a tentar não sentir quando carregou no play? Sentia-se sozinho? Ansioso? Aborrecido? Zangado com o chefe? Não tem de resolver essas emoções já. Só repará-las pode reduzir lentamente o aperto da visualização automática. A curiosidade é muitas vezes mais eficaz do que a auto-culpa.

“Se alguém me diz que está a fazer maratonas até às 2 da manhã, raramente me interesso pelas séries”, diz a Dra. Lena Ortiz, psicóloga clínica em Madrid. “Quero saber como é que as 2 da manhã se sentem para essa pessoa, e como seriam as 2 da manhã sem o ecrã.”

Para tornar isto mais concreto, aqui ficam alguns indicadores suaves a que prestar atenção:

  • Vê rotineiramente até já não conseguir manter os olhos abertos, e depois acorda drenado e em baixo.
  • Sente um pico de receio quando o episódio acaba e apressa-se a começar o próximo.
  • Amigos ou parceiros referem que têm saudades de passar as noites consigo, e você fica na defensiva.
  • A mente parece enevoada na maioria dos dias, mas só se entusiasma quando fala do próximo episódio.
  • Já tentou reduzir várias vezes e acaba por fazer maratonas ainda maiores depois de algumas noites “boas”.
Ponto-chave Detalhes Porque é importante para os leitores
Verifique o seu “humor da maratona” antes e depois Repare como se sente mesmo antes de carregar no play, e novamente quando finalmente pára. Anote algumas palavras nas notas do telemóvel durante uma semana. Padrões como “stress → entorpecido → vergonha” sugerem que a TV está a tapar sofrimento mais fundo, não apenas a entreter.
Defina um intervalo sem ecrã, não uma hora rígida de deitar Escolha um mínimo de 30–60 minutos entre o último episódio e ir dormir, e preencha-o com rotinas de baixa estimulação. Um intervalo suave protege a qualidade do sono sem o obrigar a regras “tudo ou nada” de “sem TV”, que raramente duram.
Use as noites de maratona como sinal de saúde mental Se de repente começa a fazer maratonas muito mais longas, trate isso como dados: verifique mudanças no stress, humor, trabalho, relações ou saúde. Detectar um pico cedo pode ajudá-lo a procurar apoio antes que o burnout, a depressão ou a ansiedade se instalem por completo.

Viver com o brilho: o que os nossos ecrãs nocturnos estão realmente a dizer

Todos já tivemos aquele momento em que o apartamento está silencioso, o dia pareceu curto demais, e a única coisa que promete alívio é o tremeluzir suave de uma série que já viu duas vezes. Há algo de terno nessas horas. São desarrumadas, improdutivas e estranhamente honestas. Não está a tentar impressionar ninguém. Está apenas a tentar sentir-se um pouco menos sozinho antes de dormir.

É por isso que o choque entre psicólogos neste tema é tão intenso. Não é realmente sobre TV. É sobre como lidamos com vidas que se sentem sobrelotadas e subnutridas ao mesmo tempo. Uns dizem: deixem as pessoas ter as suas séries; outros temem que estejamos a perder a oportunidade de ouvir o que o cérebro tenta dizer no silêncio depois da meia-noite.

Talvez a verdadeira pergunta não seja “Isto faz-me mal?”, mas “Como seriam as minhas noites se eu me sentisse bem?”. Continuaria a carregar no play à uma da manhã, ou estaria a mandar mensagem a um amigo, a ler uma página, a olhar pela janela no escuro, estranhamente calmo. Para alguns, uma maratona nocturna é apenas um ritual reconfortante. Para outros, é um pedido de ajuda silencioso embrulhado em cores brilhantes e escrita inteligente.

Não precisa de se diagnosticar para começar a escutar. Pode simplesmente observar os seus padrões com um pouco de honestidade gentil. Pode falar sobre isso com um parceiro, um amigo, um terapeuta. Pode experimentar terminar mais cedo ou criar outros rituais nocturnos e ver o que muda no corpo e na mente. Pode surpreender-se com o que aparece quando passam os genéricos e não carrega em “Próximo”.

FAQ

  • Fazer maratonas à noite é sempre sinal de um problema de saúde mental? Nem sempre. Para muitas pessoas, uma maratona tardia é uma forma ocasional de descontrair, como ficar acordado até tarde para acabar um romance. Torna-se mais preocupante quando é frequente, prejudica o sono ou o trabalho, e sente que não consegue parar mesmo quando quer.
  • Quantos episódios contam como “maratona” do ponto de vista psicológico? Os investigadores definem muitas vezes uma maratona como três ou mais episódios de seguida, mas os terapeutas preocupam-se menos com o número e mais com o impacto. Se a sua visualização o empurra regularmente para lá da sua hora habitual de deitar e o deixa exausto ou em baixo, corresponde ao espírito de “maratona”.
  • As minhas maratonas nocturnas podem estar ligadas a ansiedade ou depressão? Podem. Muitas pessoas usam streaming constante para evitar pensamentos acelerados, preocupações ou uma sensação de vazio. Se notar que as maratonas aumentam quando o humor desce ou a ansiedade dispara, vale a pena falar disso com um profissional.
  • Qual é um primeiro passo realista se eu quiser reduzir? Comece por escolher uma ou duas noites “sem maratona” por semana, em vez de tentar mudar todas as noites. Nessas noites, escolha um único episódio e comprometa-se a desligar a TV logo a seguir, mesmo que ainda não mude mais nada.
  • Quando devo considerar falar com um terapeuta sobre os meus hábitos de visualização? Se ver TV até tarde está a prejudicar o sono, o trabalho, as relações ou a auto-estima - e se sente que está preso - é um bom momento para procurar ajuda. Um terapeuta não vai julgar o seu gosto por TV; vai ajudar a explorar o que está a conduzir o padrão e o que poderia saber melhor.

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