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Quem anda depressa não é ambicioso, apenas está stressado e a fugir de si próprio.

Pessoa de olhos fechados com saco de pano e folha verde, a caminhar numa rua movimentada.

Cabeça ligeiramente inclinada para a frente, mala encostada ao lado, olhos já fixos vinte metros à frente. Os pés batem no passeio com uma urgência nervosa, como se o chão estivesse demasiado quente para ali ficar mais de um segundo. As pessoas desviam-se do seu caminho sem saber bem porquê. Quem anda depressa não olha para as montras, não abranda junto ao cheiro a café, não repara no pôr do sol preso nos vidros das torres de escritórios. O corpo está aqui, mas a mente já vai três reuniões à frente, a ensaiar argumentos, a repetir o fracasso de ontem, a temer o e-mail de amanhã.

Chamamos-lhes eficientes, ambiciosos, “em missão”. Eles chamam-se a si mesmos “só ocupados”. Mas, se andares ao lado deles tempo suficiente, reparas noutra coisa: este ritmo não é apenas sobre ir para algum lado. É sobre não ficar onde estão.

Porque andamos como se estivéssemos atrasados para uma vida de que nem sequer gostamos

Observa qualquer passeio de cidade às 8:45 e vais ver: uma competição silenciosa de passadas. As pessoas não estão apenas a caminhar para o trabalho - estão a apressar-se através de um túnel de pressão invisível. Quem anda depressa parece ter a vida organizada. Auriculares nos ouvidos, telemóvel na mão, maxilar tenso. Os passos dizem: eu importo, precisam de mim, vou para algum sítio importante.

Por baixo, o corpo está a transmitir outra coisa: ombros enrijecidos, respiração curta, punhos ligeiramente cerrados. Não é só produtividade. É fuga. Quanto mais depressa se movem, menos têm de sentir o peso sentado no peito. Andar devagar obrigaria a notá-lo.

Um gestor que conheci em Londres gabava-se de conseguir atravessar toda a Oxford Street em oito minutos “se as pessoas simplesmente saíssem da frente”. Usava um smartwatch que vibrava de poucos em poucos minutos com notificações. O calendário dele era uma colcha de retalhos de chamadas sobrepostas. Quando lhe perguntei quando foi a última vez que caminhou sem destino, fez uma pausa tão longa que acabámos os dois a rir. Depois admitiu que só conseguia andar devagar se levasse um café para fora na mão, como se o copo fosse uma espécie de permissão social para descansar. Sem esse “adereço”, sentia culpa por não estar a acelerar. A velocidade no passeio correspondia à velocidade dos pensamentos.

Estudos sobre o ritmo de caminhada associam muitas vezes quem anda depressa a maior produtividade ou até a maior esperança de vida. Esses títulos circulam bem nas redes sociais. Mas falham o subtexto emocional. Muitos “andarilhos rápidos” não avançam com confiança para um objetivo - estão a correr para longe do desconforto. Ansiedade. Solidão. A pergunta silenciosa: “É mesmo esta a vida que eu quero?” Mover-se depressa mantém essas perguntas fora de alcance.

A nossa cultura recompensa mais o movimento do que o significado. Uma passada rápida parece ambição, por isso interiorizamos a ideia de que abrandar é perder. Transformamos a rua num placar, medindo o nosso valor em segundos poupados no percurso. Na realidade, o corpo não sabe distinguir entre correr atrás do teu sonho e correr de ti próprio. Só regista “correr”. Ritmo cardíaco elevado, cortisol a subir, sistema nervoso preso em modo de alerta. Não és ambicioso - estás exausto.

Como abrandar o corpo quando o cérebro ainda está a sprintar

Há uma experiência simples que soa estranhamente rebelde: na tua próxima caminhada, reduz intencionalmente o ritmo em 20%. Não é um passeio em câmara lenta. Apenas um pouco mais lento do que o teu piloto automático. Deixa uma pessoa ultrapassar-te. Depois outra. Repara na pequena picada de vergonha ou pânico que surge quando alguém passa por ti. É o stress a falar, não o teu verdadeiro eu.

Quando já abrandaste, muda a atenção do “chegar lá” para três âncoras físicas: a sensação dos pés a rolarem do calcanhar para a ponta, o balanço dos braços e um som à tua volta que normalmente ignoras. Um autocarro a expirar numa paragem. O estore de uma loja a tremer. Dois adolescentes a rir-se de algo parvo. Isto não é para te tornares um monge zen do passeio. É para provares ao teu sistema nervoso que nada de terrível acontece quando não és o primeiro a atravessar na passadeira.

Muitas pessoas que andam depressa contam a si mesmas uma história: “Se eu andar mais devagar, vou perder tempo, vou ficar ainda mais assoberbado.” O paradoxo é que o ritmo frenético muitas vezes torna-as menos focadas quando chegam. Entram no dia já em sobressalto. Um pequeno ritual pode interromper esse ciclo. Nos primeiros 100 metros de qualquer caminhada, mantém o telemóvel no bolso, com o ecrã virado para baixo. Nada de atualizar e-mails no semáforo. Nada de escrever meio texto enquanto atravessas a estrada. A tua tarefa nesses 100 metros é apenas: caminhar e reparar. Podes voltar a acelerar mais tarde, se quiseres mesmo. A maioria das pessoas não quer.

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. O objetivo não é a perfeição; é a interrupção. Pequenas quebras no padrão de fuga constante.

O ritmo acelerado não está só nas pernas - está no diálogo interior. Muitas pessoas que andam depressa carregam uma voz interna que as chicoteia para a frente: “Mex-te, estás atrasado, és preguiçoso, toda a gente está à espera, já devias estar mais avançado.” Abrandares por fora pode ser insuportável se essa voz continuar no volume máximo. Por isso, junta ao abrandamento físico uma pequena frase de resistência mental. Algo como: “Andar mais devagar não me torna menos valioso.” Ou: “Não consigo fugir dos meus sentimentos, mas posso caminhar com eles.” Ao início vai soar lamechas na tua cabeça. Diz na mesma. O sistema nervoso entende repetição, não ironia.

Uma terapeuta com quem falei disse-o sem rodeios:

“A maioria dos meus clientes em burnout não precisa de mais um truque de produtividade. Precisa de aprender a atravessar uma sala sem a tratar como um prazo.”

Há também uma camada social nisto. Quem anda depressa organiza muitas vezes o dia inteiro em “modo eficiência”: empilha compromissos uns em cima dos outros, transforma cada deslocação numa corrida, preenche cada silêncio com um podcast a 1,5x. Abrandares a caminhada significa encarar quão cheio - e quão vazio - o horário realmente é.

  • Experimenta uma caminhada “sem objetivo” de 10 minutos por semana, sem podcast, sem chamada, sem recado.
  • Repara numa vontade de acelerar e resiste-lhe deliberadamente durante 30 segundos.
  • Escolhe um percurso habitual e define um marco como a tua “zona lenta” sempre que lá passares.

Do que é que quem anda depressa está realmente a fugir - e o que acontece quando pára

Numa terça-feira chuvosa ao fim da tarde, segui o fluxo de pessoas a sair de uma estação de comboios cheia. Todos avançavam para a saída como água por um funil. No meio dessa corrente, uma mulher de casaco azul-marinho quase que cortava por entre as pessoas. Roçava em ombros, desviava-se de uma mala de viagem com o maxilar tenso, murmurava um pedido de desculpa sem abrandar. Quando ambos chegámos à passadeira cá fora, o trânsito obrigou-a a parar. Ela batia com o pé, olhava para o relógio, olhava para o telemóvel, soltava o ar com força.

Depois viu o seu reflexo na montra escurecida de uma loja. Algo na postura dela cedeu ligeiramente. Durante cinco segundos, ficou apenas ali, a respirar. Quando o sinal ficou verde, o primeiro passo ainda foi rápido, mas uma fração menos agressivo. Dava para sentir uma micro-mudança. Quase como se tivesse percebido que não estava atrasada para nada que realmente importasse.

Raramente admitimos de que é que estamos, de facto, a fugir. Às vezes é um trabalho que odiamos em segredo, mas que não conseguimos imaginar deixar. Às vezes é um apartamento que está sempre vazio quando chegamos a casa. Às vezes é um luto que pesa mais nos momentos de silêncio. Numa rua cheia, andar depressa é uma forma socialmente aceitável de evitar a dor. Ninguém questiona a pessoa que parece “ocupada”. Questionam a que se atreve a passear.

A armadilha é que a pressa constante dá um pico temporário. O corpo serve-te adrenalina. A mente ganha uma sensação de controlo. Sentes que estás “em cima do assunto”. Mas esse pico tem ressaca. Quando finalmente paras - na secretária, no sofá, na cama - estás demasiado drenado para olhar realmente para a tua vida. Então fazes scroll, petiscas, prometes que “amanhã vou pensar a sério no que quero”. E amanhã andas ainda mais depressa.

Sair deste ciclo não exige reiniciar a vida de um dia para o outro. Começa com os atos mais pequenos de desafio à tua própria urgência. Deixar alguém ultrapassar-te sem transformar isso numa corrida secreta. Escolher uma vez por semana o caminho mais longo através de um parque em vez do beco apertado ao lado do escritório. Dizer a um amigo: “Percebi que ando sempre a passo acelerado e nem sei porquê”, e ver que conversa isso abre.

Todos já tivemos aquele momento em que umas férias ou uma manhã de domingo nos abrandam tanto que o nosso ritmo habitual passa a parecer ligeiramente ridículo. Apanhas-te a andar em passo apressado até à padaria e pensas: “Espera, porque é que estou a avançar como se estivesse atrasado para uma crise? É só pão.” Esse lampejo de consciência é ouro. É um vislumbre de quem és sem o stress a conduzir-te as pernas. A partir daí, cada passo consciente - literalmente - torna-se um ato silencioso de escolheres a ti, em vez do teu pânico.

Quem anda depressa não está “avariado” nem errado. Apenas carrega demasiado, move-se depressa demais para notar o peso. A verdadeira ambição não é atravessar a cidade em tempo recorde. É construir uma vida em que não sintas necessidade de fugir dos teus próprios pensamentos sempre que sais à rua.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
Andar depressa como fuga Muitas pessoas apressam-se não em direção a objetivos, mas para longe do desconforto e da ansiedade. Ajuda-te a ver o teu ritmo como um sinal emocional, não apenas um hábito.
Micro-abrandamentos Pequenas caminhadas deliberadamente mais lentas e momentos sem tecnologia acalmam o sistema nervoso. Oferece ferramentas realistas para te sentires menos “ligado à corrente” sem mudares a vida toda.
Redefinir a ambição A verdadeira ambição inclui a coragem de abrandar e encarar as tuas necessidades reais. Convida-te a medir o sucesso pela paz interior, não pela velocidade a andar.

FAQ:

  • Andar depressa significa sempre que estou stressado? Nem sempre. Algumas pessoas têm naturalmente um passo mais rápido ou horários apertados. A questão-chave é se a tua velocidade se sente livre e energizante, ou tensa e pressionada.
  • Como posso perceber se estou a “fugir de mim” quando caminho? Se abrandar mesmo que ligeiramente te deixa invulgarmente irritado, ansioso ou culpado, normalmente está a acontecer algo mais do que simples eficiência.
  • Andar mais devagar vai tornar-me menos produtivo? Em muitos casos acontece o contrário. Chegar mais calmo permite-te pensar com mais clareza, cometer menos erros e deixar de confundir stress com eficácia.
  • Isto é só mais uma forma de dizer que eu devia ser mais mindful? É menos sobre adotar um estilo de vida e mais sobre reparar nas histórias que o teu corpo está a contar. Não precisas de incenso nem de mantras para fazer uma caminhada honesta, sem pressa.
  • E se o meu ambiente me obrigar a andar à pressa? Pode ser que não controles o teu percurso ou a carga de trabalho, mas ainda assim podes reclamar pequenos bolsos de tempo: o primeiro minuto depois de saíres do prédio, um troço de passeio, o caminho até à casa de banho. Pequenas zonas lentas podem mudar o teu dia inteiro.

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