Sac ao ombro, telemóvel na mão, maxilar cerrado, ela ziguezagueia entre carrinhos de bebé e turistas a um ritmo de corrida silenciosa. No papel, cumpre todos os requisitos da “caminhada rápida” elogiada pelas apps de saúde. Na vida real, tem os ombros encolhidos até às orelhas e fica sem fôlego ao mais pequeno semáforo vermelho.
Nos últimos anos, instalou-se uma ideia: caminhar depressa seria o sinal máximo de um corpo em forma, de uma vida bem gerida, de um coração de betão. Os vídeos motivacionais repetiram-no, os relógios inteligentes mediram-no, e muita gente começou a acelerar no passeio como se houvesse um pódio na meta. Todos já vivemos aquele momento em que damos por nós a andar rápido demais… sem verdadeira razão, apenas porque já não sabemos fazer de outra forma.
E se este ritmo desenfreado escondesse outra coisa para além de um bom cardio? E se, por trás da cadência, estivessem sobretudo pensamentos a galope, ansiedades que empurram e uma instabilidade interior que não ousamos encarar? Uma caminhada que impressiona. Mas que não tranquiliza realmente.
Caminhantes rápidos: corpos em forma ou mentes inquietas?
Nas ruas de Londres, Nova Iorque ou Paris, os caminheiros rápidos distinguem-se ao longe. Não só pela passada acelerada, mas pela forma como ocupam o espaço como se toda a gente estivesse atrasada com eles. O olhar dispara em frente, nunca para os lados. Com os auriculares enfiados, têm muitas vezes um passo entrecortado, quase nervoso.
Visto de fora, parecem pessoas eficazes, organizadas, em quem confiaríamos para fechar um dossier complicado. Por dentro, o filme é muitas vezes menos controlado. Muitos falam de uma sensação de corrida permanente, como se o corpo estivesse a tentar acompanhar pensamentos que não param quietos. É menos uma caminhada desportiva e mais um reflexo discreto de sobrevivência.
Por trás desta pressa, os estudos mostram um quadro mais matizado do que os slogans de saúde. Sim, algumas investigações associam uma velocidade de marcha mais elevada a um menor risco cardiovascular a longo prazo. Mas assim que olhamos para o que se passa na cabeça dos caminhantes rápidos, a história muda de tom. Trabalhos sobre o “walking pace” encontraram uma ligação com traços como impaciência, ansiedade social e dificuldade em permanecer no momento presente. Um passo rápido nem sempre é um passo sereno.
Conhecemos, por exemplo, a Élodie, 34 anos, consultora, que jura que “não sabe andar devagar”. Sai de casa como uma sprinter que perdeu o tiro de partida. Ultrapassa toda a gente no passeio, irrita-se com quem passeia, resmunga com cada abrandamento. Na app, o número de passos é impecável, as médias de velocidade também. No electrocardiograma emocional, é outra história.
Antes de cada reunião, o coração acelera muito antes do esforço físico. Ela anda depressa não pelo coração, mas para fugir ao silêncio que deixa o stress subir. A sua frequência cardíaca demora mais a acalmar depois do esforço. À noite, sente-se “esvaziada” sem perceber para onde foi a energia. O corpo cumpriu os itens do “healthy lifestyle”, mas a cabeça continua a trabalhar a alta rotação.
Investigadores em psicologia urbana começam a interessar-se por isto de perto. Quando se corrigem os dados para idade, meio social ou nível de atividade global, nota-se que a marcha muito rápida na cidade acompanha muitas vezes um perfil mais tenso: tendência para ruminar, dificuldade em relaxar, sono fragmentado. Quem diz “não suporto pessoas que andam devagar” não está apenas a defender um ritmo; está, inconscientemente, a defender a sua frágil sensação de controlo.
A marcha muito rápida torna-se então uma válvula de escape discreta para a ansiedade. Não se está a ter um ataque de pânico no passeio: “apenas vou depressa”. É socialmente aceite, até valorizado. No entanto, quando a passada é ditada pelo medo de perder tempo, de ser julgado, de não fazer o suficiente, o corpo absorve uma tensão surda. Acelerar não quer dizer estar melhor. Às vezes, só quer dizer fugir mais depressa.
Transformar a velocidade ansiosa numa caminhada com presença
O primeiro passo não é abrandar a todo o custo. É reparar no que acontece no seu corpo quando anda depressa. No próximo percurso, observe a nuca, as mãos, o maxilar. Está tudo rígido ou relativamente solto? Respire duas vezes mais devagar do que os passos durante alguns metros, só para experimentar.
Um exercício simples: escolha uma referência visual a 50 metros, como um banco ou um semáforo. Caminhe ao seu ritmo habitual até lá, anotando mentalmente: “tensão 1 a 10”. Depois volte ao ponto de partida, desta vez abrandando voluntariamente 20%, sem cair numa lentidão extrema. Compare a tensão. Este mini-teste revela muitas vezes que a velocidade não é apenas uma escolha desportiva, mas uma resposta automática à agitação interior.
Para muitos caminhantes rápidos, o problema não é a marcha rápida em si; é a impossibilidade de variar o andamento. O corpo conhece a aceleração, nunca a modulação. A ideia é recuperar a escolha. Alternar 2 minutos de marcha viva e voluntária com 2 minutos de marcha mais calma, sentindo a diferença. Fazer uma vez o percurso casa-metro “em modo cronómetro”, e outra vez “em modo observação”. Não é coaching de marcha: é uma forma de verificar quem está realmente ao volante - você, ou a sua ansiedade.
Há também todas as micro-decisões invisíveis que transformam um passeio numa pista de atletismo: sair cinco minutos mais tarde porque esteve a fazer scroll no telemóvel; dizer que sim a uma chamada do outro lado da cidade com pouca margem; empilhar compromissos sem intervalos. No fim, a caminhada torna-se o último lugar onde o corpo ainda consegue compensar.
Sejamos honestos: ninguém faz realmente todos os dias aqueles famosos “10 000 passos conscientes”. Mas podemos inserir uma respiração diferente no que já fazemos. O erro frequente é dizer: “A partir de amanhã, abrandarei sempre.” Resultado: ao primeiro pico de stress, voltamos ao mesmo ritmo de sempre - e ainda por cima com a culpa de ter “falhado” em ser zen.
Outra armadilha é usar a marcha rápida como álibi: “Eu caminho muito, logo estou bem.” Quando o verdadeiro barómetro é: consigo, quando preciso, andar devagar sem sentir pânico, irritação ou urgência? Se a resposta for não, não é uma tragédia. É apenas um indicador. Como uma bateria emocional a piscar.
“Percebi que não era ‘desportista’, era apenas ansioso de pé”, conta Thomas, 41 anos, gestor na área tecnológica, que descobriu em terapia que os seus 12 000 passos diários pareciam mais uma fuga permanente do que uma rotina de bem-estar.
Para sair deste modo de “fuga em frente no passeio”, alguns gestos concretos ajudam:
- Manter um percurso no dia em que decide antecipadamente: “Aqui, não estou a tentar ganhar tempo.”
- Guardar o telemóvel no fundo do saco nesse percurso, só para cortar uma fonte de tensão.
- Identificar três referências visuais familiares (uma árvore, uma montra, um portão) como “checkpoints” para relaxar os ombros.
- Prever uma margem real de 5 a 7 minutos entre dois compromissos presenciais - não só no calendário, mas na cabeça.
Não são “dicas de bem-estar” mágicas, mas pequenas fissuras no muro da velocidade automática. Cada uma lembra uma coisa simples: caminhar é um gesto básico, não um teste permanente.
O que os caminhantes rápidos podem mudar sem perder a vantagem
É possível manter uma passada rápida quando é útil, sem que toda a vida se ajuste a isso. O objetivo não é tornar-se um adepto de slow life de vestido de linho; é recuperar a liberdade de andamento. Um caminhante rápido e sereno existe: anda depressa para não perder o comboio e abranda logo a seguir, sem se sentir culpado nem em perigo.
Partilhar esta realidade com outras pessoas também muda a forma como nos vemos. Dizer a um amigo: “Acho que ando depressa porque estou tenso ultimamente” quebra a pequena lenda pessoal do “eu super-eficiente”. E, estranhamente, alivia. Passa-se de uma performance para um sinal. Abre-se a porta a ajustes mínimos: recusar um compromisso a mais; voltar a pé, mas mudando o percurso para não associar sempre a mesma rua ao mesmo sprint.
A caminhada continuará durante muito tempo a ser um marcador social: julgamos os outros pelo ritmo, pela forma como abrem caminho. Mas e se os caminhantes rápidos começassem a olhar para si próprios com um pouco mais de curiosidade do que com orgulho ou vergonha? Beliscar a ideia de que não são necessariamente “mais em forma”; às vezes, apenas mais no limite. Isso já seria um bom passo - rápido ou não - em direção a uma estabilidade que não se mede em quilómetros por hora.
| Ponto-chave | Detalhes | Porque é importante para os leitores |
|---|---|---|
| Caminhar depressa pode mascarar stress crónico | Pessoas que andam sempre a topo de velocidade descrevem frequentemente noites fragmentadas, ruminações e dificuldade em “desligar” à noite, mesmo com bons indicadores físicos. | Reconhecer que o seu ritmo esconde stress não é ser frágil; é finalmente ter uma alavanca concreta sobre o que o esgota em silêncio. |
| Aprender a variar o ritmo é mais saudável do que andar sempre depressa | Alternar marcha viva e marcha mais lenta treina o coração de forma eficaz, ao mesmo tempo que dá ao sistema nervoso janelas de recuperação ao longo do dia. | Um ritmo modulável protege a energia a longo prazo e reduz aqueles finais de dia em que chega a casa de rastos sem saber porquê. |
| Pequenos ajustes de planeamento reduzem a pressa ansiosa | Acrescentar 5 minutos de margem entre compromissos, recusar um trajecto irrealista ou guardar um bloco “sem chamadas” evita transformar cada deslocação num sprint forçado. | Estes mini-ajustes mudam concretamente a sensação no passeio: menos empurrões, menos irritação, mais controlo. |
FAQ
- Caminhar depressa é sempre sinal de ansiedade? Nem sempre. Algumas pessoas andam depressa porque têm boa condição física ou uma agenda cheia, sem serem particularmente ansiosas. A pergunta a fazer é: consigo abrandar sem me sentir em perigo, culpado ou fora de controlo? Se a resposta for não, provavelmente há uma componente de ansiedade na equação.
- Caminhar depressa ainda pode ser bom para a minha saúde? Sim, uma caminhada sustentada melhora o coração, a circulação e o humor. O problema começa quando a velocidade é ditada pelo pânico e não por uma escolha. O ideal é usar esse ritmo rápido como uma ferramenta entre outras, não como o único modo possível de se deslocar.
- Como sei se o meu ritmo de marcha é “demasiado rápido”? Se chega muitas vezes ofegante a compromissos calmos, se se irrita assim que alguém abranda à sua frente, ou se o corpo permanece tenso vários minutos depois de parar, é provável que o ritmo esteja a ser conduzido por algo para além do simples gosto pelo exercício.
- Preciso de abrandar em todas as minhas caminhadas? Não. A ideia não é tornar-se lento por princípio. O objetivo é ter pelo menos um ou dois percursos por dia em que escolhe conscientemente andar a um ritmo neutro - nem sprint, nem passeio - para devolver ao seu sistema nervoso um ponto de apoio mais estável.
- Devo procurar um terapeuta se não consigo andar devagar? Não é obrigatório, mas se a impossibilidade de abrandar vier acompanhada de angústia, perturbações do sono ou um mal-estar difuso, falar com um profissional pode ajudar a desemaranhar o que está por trás desta necessidade de velocidade permanente.
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