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Quem deixa de perseguir a felicidade sente alívio antes da alegria, explicam psicólogos.

Mulher sorridente trabalha à mesa com chá, caderno, caneta e smartphone sob sol suave pela janela.

On a tous déjà vécu ce momento em que damos por nós a pensar: “Eu devia ser mais feliz do que isto.”

Novo trabalho, novo sofá, nova app de bem-estar… e continua aquela pequena sensação de inacabado. Um dia, algo cede. Deixamos de ir marcando as caixas da “vida bem-sucedida” como quem faz scroll num feed de Instagram sem fim. E, de repente, o que aparece não é um fogo de artifício de alegria. É outra coisa, mais discreta, quase banal: um grande suspiro. Um pouco de silêncio por dentro.

Num café barulhento de Londres, um homem na casa dos quarenta olha pela janela, com o telemóvel virado para baixo em cima da mesa. Não parece particularmente contente, nem particularmente triste. Mais como alguém que acabou de pousar um saco demasiado pesado. Conta que “abandonou a ideia de ser feliz o tempo todo” há alguns meses. A primeira coisa que sentiu, diz ele, não foi alegria. Foi alívio.

E a psicologia começa a mostrar que esta história se repete em todo o lado.

Porque é que o alívio aparece antes da alegria quando deixas de perseguir a felicidade

Quando as pessoas desistem da rotina de “tenho de ser feliz”, muitas vezes é o sistema nervoso que chega lá primeiro. A mente ainda está a negociar, mas o corpo já expirou. Terapeutas descrevem isto como um momento de válvula de pressão: anos de “devias”, “tens de”, “estás atrasado/a” dentro da cabeça ficam, de repente, mais silenciosos. O que vem ao de cima não são fogos de artifício. É uma sensação de espaço.

Investigadores da ciência afetiva falam disto como uma transição de emoções de alta ativação para emoções de baixa ativação. Em vez de perseguir o pico da excitação, o cérebro finalmente permite-se estados mais calmos: alívio, neutralidade, aquela sensação estranha de “nada de especial… e, estranhamente, está tudo bem”. Não tem glamour nenhum. E é precisamente aí que começa a maior parte da mudança real.

Num inquérito de 2022 sobre satisfação com a vida no Reino Unido, surgiu um padrão curioso. Pessoas que tinham “largado expectativas irrealistas sobre a felicidade” não relataram um aumento súbito de alegria. O que mencionaram, repetidamente, foi uma descida da ansiedade. Um participante escreveu: “Não acordo feliz. Acordo sem entrar em pânico. Isso é novo.” Outro descreveu as primeiras semanas após recuar da auto-otimização como “aborrecidas, mas de um modo gentil”.

Uma terapeuta em Manchester conta uma história semelhante sobre uma cliente que passou anos a devorar livros de autoajuda e truques de produtividade. O ponto de viragem dela não foi uma rotina matinal perfeita. Foi o dia em que decidiu parar de registar o humor numa app. A primeira coisa que notou não foi alegria, mas uma leveza estranha ao fim do dia, como se um pequeno juiz interno tivesse ido de folga. Alívio, não euforia.

A psicologia tem um nome para esta armadilha: “o paradoxo da felicidade”. Quanto mais se persegue obsessivamente a felicidade como objetivo, mais se nota a sua ausência. Estudos mostram que pessoas que atribuem um valor muito alto a “ser feliz” tendem a ser mais propensas a desilusão e ruminação. Quando largas a perseguição, o teu cérebro deixa de estar constantemente a fazer a comparação entre “como me sinto” e “como eu devia sentir-me”. Essa comparação mental é exaustiva. Quando finalmente abranda, a primeira atualização emocional costuma ser silenciosa: menos tensão, menos picos de vergonha, menos veredictos internos.

O alívio é, basicamente, o sistema a dizer: “A ameaça passou.” A “ameaça” aqui não é um perigo real, mas a sensação permanente de estar emocionalmente atrasado/a em relação ao calendário. Quando isso desaparece, o alarme interno deixa de tocar. Só depois desse silêncio é que outras emoções, incluindo a alegria, encontram espaço para aparecer nos seus próprios termos.

Formas práticas de parar de perseguir a felicidade (sem desistir da tua vida)

Uma mudança simples que muitos psicólogos recomendam é passar de “Como posso ser feliz?” para “O que pesa menos agora?”. Parece pequeno, quase pequeno demais. E, no entanto, esta alteração muda o alvo. Em vez de caçar um grande estado emocional, procuras pequenas reduções de pressão. Uma caminhada de cinco minutos longe dos ecrãs. Responder a um e-mail desconfortável em vez de a todos. Dizer “está suficientemente bom” numa tarefa em vez de a reescrever à meia-noite.

Isto não é desistir da tua vida; é mudar a métrica. Em vez de te perguntares se estás “realizado/a”, perguntas se os teus ombros estão um pouco menos tensos do que ontem. Deixas de avaliar cada dia numa escala de felicidade e começas a notar micro-momentos de facilidade. Ao longo de semanas, essa escolha repetida treina o teu cérebro para valorizar a calma tanto como os picos. É normalmente aí que o alívio, em silêncio, assume o lugar da frente.

Vejamos a Emma, 32 anos, que passou anos com uma folha de cálculo mental de objetivos de felicidade: promoções, férias, metas de fitness, o/a parceiro/a “certo/a” até aos 30. Cada item assinalado trazia um pico rápido, depois uma descida, depois o objetivo seguinte. O confinamento quebrou o sistema dela. A certa altura, meio por cansaço, largou a ideia de uma “linha temporal perfeita” para a vida. A nova regra era modesta: uma coisa por dia que fosse gentil para o “eu” do futuro.

Às vezes era cozinhar para vários dias. Outras, desligar o telemóvel às 21h. A primeira coisa que notou não foi alegria. Foi a ausência daquela angústia de domingo que a acompanhava há anos. “Ainda tenho dias maus”, diz ela, “mas já não tenho aquele zumbido constante de ‘estás atrasada, estás atrasada’ dentro da cabeça.” O alívio chegou como um colega de casa tranquilo, não como convidado de honra. Momentos de alegria vieram meses depois, quando percebeu que estava realmente a rir - e não a representar um riso para as fotografias.

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. A mente adora escorregar de volta para os antigos sistemas de pontuação. Paras de perseguir a felicidade e, de repente, a rotina matinal de um/a influencer aparece no teu feed e voltas a achar que as tuas 6 da manhã não estão suficientemente “otimizadas”. É por isso que psicólogos falam em “recaída para a exigência” como algo normal, não como falhanço.

O truque é reparar no regresso desse comentador interno: “Este momento devia ser diferente”, “As outras pessoas já são mais felizes”. Cada vez que o apanhas, rotulas-o gentilmente como um pensamento, não como uma verdade. Até podes dizer, meio divertido/a: “Ah, aqui está o meu Gestor da Felicidade outra vez.” Uma atitude leve ajuda. A autocrítica dura (“Porque é que ainda sou assim?”) só volta a prender o sistema na tensão e atrasa a fase do alívio.

Alguns terapeutas sugerem planear de propósito atividades “emocionalmente neutras”: dobrar roupa com música, ler algo moderadamente interessante, caminhar por um percurso familiar. Estes momentos funcionam como uma câmara de descompressão entre a luta por mais e o prazer genuíno. O alívio gosta de terreno neutro.

“Quando as pessoas deixam de perseguir a felicidade, não as vejo tornar-se alegres de um dia para o outro”, explica uma psicóloga clínica com quem falei. “Vejo primeiro os ombros a descerem. O alívio é a porta de entrada. A alegria usa a mesma porta mais tarde, quando há menos trânsito.”

Este processo não precisa de ser grandioso ou espiritual. Pode ser discretamente prático. Muitos leitores acham útil manter uma pequena lista no telemóvel com o título “Coisas que tornam a vida menos apertada”. Não coisas que os deixam em êxtase. Apenas menos apertada. Isso pode incluir beber água antes do café, sair à rua antes de abrir e-mails, ou enviar mensagem a um/a amigo/a honesto/a em vez de fazer doomscrolling. Isto não são “hacks”; são pequenas negociações com o teu sistema nervoso.

  • Muda a pergunta de “Sou feliz?” para “O que faria tudo parecer 5% mais leve agora?”
  • Normaliza o alívio e a neutralidade como vitórias emocionais válidas.
  • Repara quando aparece a “polícia da felicidade” interna e sai, com gentileza, do interrogatório.
  • Protege algumas rotinas aborrecidas e previsíveis como ilhas de calma.
  • Deixa a alegria ser um efeito secundário, não um KPI.

Deixar o alívio fazer o seu trabalho silencioso antes de a alegria chegar

As pessoas que deixam de perseguir a felicidade muitas vezes descrevem os meses seguintes com palavras pouco glamorosas. “Menos frenético.” “Mais ou menos ok.” “Menos barulho na minha cabeça.” Não dá para grandes posts nas redes sociais, mas muda a forma como as manhãs começam, como as discussões acabam, quanto tempo demora a recuperar de um dia mau. O alívio não é tão viciante como a alegria. E é precisamente por isso que é mais estável.

Por vezes, psicólogos comparam esta fase a sair de um concerto barulhento. No início, o silêncio cá fora parece quase plano, até desapontante. Reparas no zumbido nos ouvidos, no som banal do trânsito, nos teus próprios pés cansados. Dá-lhe algum tempo e os sentidos recalibram. Começas a notar o ar frio, os detalhes da luz dos candeeiros na calçada molhada, o prazer simples de caminhar sem estar esmagado/a. O alívio funciona assim: cria condições para a perceção voltar a afinar.

Quando já não estás ocupado/a a avaliar a tua vida contra um ideal, começas a ver texturas mais pequenas: uma conversa que correu com mais facilidade do que na semana passada, uma tarefa que antes te aterrorizava e agora apenas te irrita ligeiramente, um fim de semana que não pareceu recuperação de pressão autoimposta. Nada disto se parece com as versões brilhantes de felicidade que nos vendem. E, no entanto, é aqui que muitas pessoas relatam, mais tarde, os primeiros momentos genuínos e não forçados de alegria: um riso ao acaso, uma música no autocarro, uma chávena de chá que sabe estranhamente perfeita.

A sequência costuma ser assim: rendição, alívio, neutralidade e depois pequenas faíscas de alegria, dispersas, que já não têm trabalho a fazer. Não estão lá para provar que estás a “ganhar” na vida. Estão apenas lá. E, porque estás menos tenso/a, finalmente tens capacidade para as notar. É aí que as pessoas dizem coisas como: “Não sei se sou mais feliz, mas a minha vida parece mais minha.” É uma revolução silenciosa, um suspiro de alívio de cada vez.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
O alívio vem antes da alegria Parar de perseguir a felicidade reduz primeiro a pressão interna e depois permite emoções mais calmas Ajuda-te a reconhecer o alívio como progresso, e não como falha por não seres “feliz o suficiente”
Mudar a pergunta Passar de “Como posso ser feliz?” para “O que parece 5% mais leve agora?” Dá uma forma prática e realista de mudar o dia a dia sem revoluções de vida
Momentos neutros importam Atividades simples e sem grandes acontecimentos funcionam como ponte entre a exigência e o prazer genuíno Mostra como pequenas escolhas “aborrecidas” podem reconstruir, em silêncio, a estabilidade emocional

FAQ:

  • Desistir de perseguir a felicidade não é só preguiça ou resignação?
    Não exatamente. Largar a perseguição costuma significar deixar cair uma pressão irrealista, não abandonar os teus valores. Muitas pessoas tornam-se mais envolvidas com o que importa quando deixam de se fixar em como “deviam” sentir-se.

  • E se eu parar de perseguir a felicidade e não sentir nada?
    Uma fase mais plana, entorpecida, pode acontecer - sobretudo depois de anos de aceleração emocional. Muitas vezes é o sistema nervoso a recuperar o fôlego. Se durar ou se parecer pesado, falar com um/a profissional pode ajudar-te a navegar esse patamar.

  • Posso continuar a definir objetivos se não estiver a perseguir a felicidade?
    Sim. A mudança está no motivo. Continuas a definir objetivos, mas com base na curiosidade, nos valores ou na contribuição - não na fantasia de que, ao atingi-los, vais “arranjar” os teus sentimentos para sempre.

  • Quanto tempo costuma durar a fase de alívio?
    Não existe um prazo padrão. Para alguns, o alívio chega em dias; para outros, constrói-se ao longo de meses, à medida que escolhem repetidamente opções mais leves em vez da perfeição. A chave é a consistência, não a velocidade.

  • E se as pessoas à minha volta continuarem obcecadas em ser felizes?
    Podes experimentar discretamente a tua abordagem sem pregares a ninguém. Por vezes, a tua postura mais calma torna-se, por si só, uma prova silenciosa de que há outra forma de viver para além da corrida permanente à felicidade.

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