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Selo medieval descoberto em Inglaterra contém uma gema romana gravada com 2.000 anos.

Mãos seguram um medalhão oval com pedra âmbar sobre uma mesa de madeira com ferramentas e frascos.

Afinal, o objeto encontrado parece pequeno na mão, mas cose a Roma imperial e a Inglaterra medieval num selo cuidadosamente trabalhado. O que começou como uma busca casual no solo transformou-se num estudo de caso sobre poder, estatuto e a forma como sociedades posteriores refazem o passado para servir as suas próprias narrativas.

Um pequeno selo de prata com uma história invulgarmente longa

O achado vem de terras agrícolas perto de Gosfield, junto a Braintree, em Essex. À primeira vista, trata-se de uma modesta matriz de selo em prata, do tipo de instrumento pessoal que um proprietário medieval ou um clérigo poderia usar pendurado numa corrente. Mas, ao olhar mais de perto, a história recua mil anos antes da Idade Média.

O selo oval mede cerca de 27,5 mm por 20,1 mm. A sua armação de prata, datada entre 1200 e 1400, enquadra uma pedra preciosa de vermelho profundo. Essa pedra não é medieval: é um entalhe romano (intaglio) talhado algures entre o século I a.C. e o século I d.C. Ou seja, um selo inglês medieval transporta uma gema que já era antiga no tempo dos reis normandos.

O selo combina uma armação medieval de prata com uma gema romana finamente esculpida, ligando dois mundos separados por um milénio.

O entalhe em cornalina representa uma biga, uma quadriga de duas cavalos lançada para a frente, conduzida por um auriga com o chicote levantado. A cena seria familiar aos olhos romanos, ecoando a velocidade, o drama e o espetáculo do circo. Para um proprietário medieval, teria outro conjunto de significados: controlo, autoridade, talvez uma sensação de prestígio herdado do mundo antigo.

A orla de prata em redor da pedra traz uma inscrição latina, escrita ao contrário para aparecer corretamente quando prensada na cera: +SECRETVM . RICARDI - “o selo privado de Ricardo”. O nome dá voz ao objeto, mesmo que o próprio Ricardo permaneça escondido nos registos.

De achado casual a “tesouro” oficial

O detetorista que descobriu o selo seguiu o percurso normal de reporte e contactou o Portable Antiquities Scheme (PAS), um programa nacional que regista achados feitos por membros do público em Inglaterra e no País de Gales. Em Essex, o caso ficou a cargo da oficial de ligação de achados Lori Rogerson, a trabalhar no âmbito do Colchester and Ipswich Museum Service em nome do British Museum.

Ao abrigo do Treasure Act de 1996 do Reino Unido, objetos com mais de 300 anos e contendo pelo menos 10% de metal precioso podem ser classificados como tesouro e têm de ser comunicados ao coroner (autoridade judicial local). Este selo cumpre esses critérios. Um coroner local declarou-o, por isso, tesouro, dando aos museus a oportunidade de o adquirir antes que possa passar para mãos privadas.

O achado insere-se agora no enquadramento legal do Treasure Act, onde o reporte público e os museus locais partilham a responsabilidade de salvaguardar o património móvel.

O Braintree and District Museum já manifestou interesse em incorporar o selo na sua coleção pública. Se o financiamento e os processos de avaliação decorrerem sem problemas, o selo poderá deixar o campo tranquilo onde permaneceu durante séculos e ocupar um novo lugar numa vitrina, interpretado, legendado e debatido.

O entalhe romano: uma pedra de luxo com uma segunda vida

No mundo romano, os intaglios eram mais do que pedras bonitas. Funcionavam como assinaturas pessoais, talhadas com deuses, animais, cenas mitológicas ou símbolos de estatuto, e depois montadas em anéis ou sinetes. A cornalina, com o seu tom vermelho rico e superfície dura, oferecia durabilidade e detalhe nítido.

O motivo da biga escolhido para esta pedra carregava um conjunto de associações: velocidade e vitória; perícia do condutor; domínio sobre forças poderosas e potencialmente caóticas. Na vida política e social romana, imagens como esta podiam sugerir ambições ou ideais do proprietário.

Na época medieval, esses significados já não seguiam um guião fixo. Muitas pessoas que viam a pedra provavelmente sabiam que era antiga, ou pelo menos muito velha, mas não necessariamente o que a cena da carruagem significara para um romano. Em vez disso, a imagem podia ser lida de forma mais solta: energia, movimento, sucesso, um sentido de grandeza herdada.

Reutilizar gemas antigas como símbolos de estatuto

Entre os séculos XI e XIII, intaglios romanos de alta qualidade começaram a circular novamente em partes da Europa medieval, sobretudo via Itália. Alguns foram recuperados de ruínas antigas ou de campos. Outros passaram pelas mãos de mercadores, clero e elites itinerantes.

A gema de Gosfield destaca-se pela qualidade e pela montagem cuidada, o que sugere uma compra deliberada e não um achado casual num pátio agrícola. Para alguém como Ricardo, integrar uma pedra antiga num selo funcional alcançava várias coisas ao mesmo tempo:

  • Mostrava acesso a material raro, importado ou criteriosamente selecionado.
  • Sugeriria instrução e familiaridade com o passado clássico, fosse genuína ou reivindicada.
  • Imbuía documentos de rotina com um toque de autoridade antiga, como se o carisma romano transbordasse para a cera medieval.

Os proprietários medievais não se limitavam a reciclar pedras romanas; reinterpretavam-nas como pacotes condensados de prestígio, saber e poder herdado.

Os arqueólogos falam por vezes de “recontextualização”: objetos que passam de um contexto cultural para outro e ganham novos significados. Este selo é um bom exemplo. A pedra abandona o seu anel romano original, ganha uma moldura medieval de prata e começa a autenticar cartas e documentos na Inglaterra rural.

Como funcionava um selo privado na sociedade medieval

Os selos faziam parte da espinha dorsal da cultura documental medieval. Um selo podia aprovar uma doação de terras, provar uma dívida ou confirmar um acordo muito depois de as partes terem morrido. Onde uma assinatura moderna assenta na caligrafia, um selo medieval assentava numa imagem e numa inscrição prensadas na cera.

A palavra “secretum” indica uma função mais pessoal, por vezes mais confidencial. Muitas figuras medievais possuíam vários selos: um grande e formal para cartas públicas, e um ou mais selos menores para correspondência quotidiana ou privada. O selo de Ricardo insere-se nesta segunda categoria.

Tipo de selo Utilizador típico Finalidade principal
Grande selo Rei, grande senhor, bispo Cartas oficiais, proclamações
Selo doméstico ou de ofício Administradores, mordomos Negócio corrente, gestão de propriedades
Selo privado ou “secretum Indivíduos com redes letradas Cartas pessoais, acordos confidenciais

Para usar o selo, Ricardo aqueceria cera, deixá-la-ia cair sobre um documento e pressionaria a matriz de prata enquanto ainda estivesse macia. Depois de endurecida, a impressão sinalizava autenticidade e tornava a adulteração evidente. Quem quebrasse ou levantasse o selo deixaria marcas.

Possuir um instrumento destes já revela algo sobre a posição de Ricardo. Teria de atuar em círculos onde os registos escritos importavam: pequena nobreza local, um clérigo bem colocado, um funcionário menor ou uma figura urbana abastada com ligações a propriedades rurais. A qualidade material da gema e a precisão da montagem em prata inclinam a hipótese para alguém com recursos e alcance social.

Objetos em movimento: como o passado é reutilizado

O selo de Gosfield também aponta para um padrão mais amplo: a circulação de coisas antigas em tempos novos. A Europa medieval nunca rompeu por completo com a Antiguidade. Estradas romanas, ruínas e inscrições ocasionais permaneciam na paisagem. Pequenos achados, como moedas e gemas, surgiam em campos lavrados ou em obras, levantando questões muito antes de a arqueologia se tornar uma disciplina.

Alguns desses objetos entraram em igrejas como recipientes de relíquias ou fragmentos decorativos. Outros passaram para mãos privadas como curiosidades, amuletos ou marcas de sofisticação. Num período fascinado por santos, milagres e autoridade herdada, objetos de um império distante e poderoso atraíam naturalmente atenção.

Ao montar uma gema romana num selo funcional, um proprietário medieval incorporou um fragmento do mundo antigo nos atos quotidianos de lei, memória e confiança.

O Portable Antiquities Scheme registou já mais de 1,6 milhões de achados desde 1997, cada um com a sua própria biografia. Muitos vêm da deteção de metais como atividade amadora, prática que pode frustrar arqueólogos quando os sítios são perturbados, mas que também traz inúmeros pequenos objetos, de outro modo invisíveis, para o registo.

O que este achado significa para futuros visitantes e investigadores

Se a aquisição avançar, o Braintree and District Museum enfrentará um desafio familiar: como apresentar um objeto muito pequeno com uma história muito longa. Os curadores poderão optar por mostrá-lo ao lado de material romano da Britânia, de cartas medievais com selos de cera e de mapas de Gosfield e arredores ao longo do tempo.

Para os visitantes, o selo oferece uma forma compacta de pensar em vários temas ao mesmo tempo: a durabilidade dos materiais, a forma como as imagens mudam de significado e o simples desejo humano de ancorar estatuto em algo tangível. Um grupo escolar poderá olhar para ele e perceber que a “reciclagem” de bens de luxo tem raízes muito mais profundas do que as campanhas modernas de sustentabilidade.

Para quem se interessa por história, este tipo de objeto convida à comparação. Muitas pessoas possuem joias herdadas ou relíquias de família com histórias parcialmente esquecidas. Os historiadores chamam a isto “biografia do objeto”: acompanhar como as coisas acumulam novas camadas de significado a cada mão por onde passam. O selo de Gosfield é uma versão arqueológica desse processo, ligando proprietário, lugar e tempo.

O caso também sublinha por que razão o reporte cuidadoso importa. Uma única venda não registada num leilão online poderia ter dispersado o contexto do selo. Em vez disso, sabemos agora onde foi encontrado, como foi feito, que museu o poderá acolher e o que nos diz sobre uma pessoa chamada Ricardo, que usou uma pedra com dois mil anos para falar por si na cera.

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