As mãos dela mal se mexem, pousadas direitinhas sobre a mala, como se tivessem aprendido a não incomodar. Falamos sobre a semana dela, o trabalho, o cão que acabou de adotar, e tudo soa… perfeitamente normal. Normal demais. Depois vem a frase, quase atirada ao ar: “Mas não foi assim tão mau, outras crianças tiveram pior, de qualquer forma.” A voz não treme; ela fala como quem comenta o tempo. No entanto, os ombros descem meio centímetro e os olhos evitam os meus por apenas um segundo. Essa frase curta já a ouvi centenas de vezes em gabinetes de terapia.
Sempre que acontece, na minha cabeça assinalo a mesma caixa silenciosa: um trauma de infância reprimido pode estar logo ali, mesmo à superfície. Escondido à vista de todos, por trás de uma frase que parece modesta, quase razoável. Uma frase que parece força - e sabe a autoapagamento.
A frase típica que esconde silenciosamente trauma de infância
Sou psicólogo/a e há uma frase que volta, vezes sem conta, quando as pessoas enterraram mais do que conseguem lembrar.
Dizem-na com naturalidade, muitas vezes com um risinho: “Não foi assim tão mau, outras pessoas tiveram pior.”
No papel, soa humilde, quase compassiva. Na vida real, muitas vezes funciona como um botão de “silêncio” dentro do cérebro.
A pessoa anula a própria dor antes de ela ter oportunidade de existir.
Do ponto de vista psicológico, esta frase é um escudo.
Protege contra memórias demasiado confusas, demasiado vergonhosas ou demasiado pesadas para uma criança carregar sozinha.
Ouço-a em todo o tipo de pessoas. O/a gestor/a de alto desempenho que teve um pai alcoólico.
A “amiga forte” que, aos oito anos, já era mediadora da família.
Peguemos no Alex, 34 anos, que veio à terapia por “um bocadinho de ansiedade” e “problemas em dormir”.
Descreveu a infância como “normal, nada de especial” e depois acrescentou: “O meu pai gritava muito, mas, pronto, nunca me bateu, por isso está tudo bem.”
A cada sessão escapava um novo detalhe: portas a bater até as paredes tremerem, uma mãe trancada no quarto, semanas de silêncio como castigo.
Sempre que uma memória emergia, chegava a mesma frase, como um reflexo: “Não foi assim tão mau, outras crianças sofreram abusos a sério.”
No papel, a vida dele parecia bem-sucedida. Bom emprego, relação, apartamento.
Por dentro, o sistema nervoso dele ainda vivia numa casa onde uma voz levantada significava perigo.
A investigação sobre experiências adversas na infância mostra algo cruel.
O corpo e o cérebro registam negligência emocional, gritos crónicos, silêncio frio ou humilhação quase tão profundamente como a violência física visível.
Quando alguém repete “outros tiveram pior”, não está apenas a ser modesto.
Está a classificar ativamente o próprio sofrimento no fundo de uma escala que inventou para sobreviver.
A minimização é um mecanismo de defesa clássico. A criança aprende: “Se eu disser que não foi assim tão mau, talvez doa menos.”
Em adulto, esse hábito não desaparece. Apenas se torna mais sofisticado, mais socialmente aceitável - até elogiado.
O resultado é uma divisão estranha.
Por fora: funcionamento, humor, produtividade. Por dentro: uma guerra silenciosa ainda travada com armas que ninguém vê.
Como perceber quando está a minimizar o seu próprio trauma
Há um método simples que uso em sessão quando ouço essa frase típica.
Peço à pessoa para repetir a história, mas desta vez na terceira pessoa: “Imagine que aconteceu a uma criança de quem gosta.”
Assim, “A minha mãe às vezes não falava comigo durante dias, mas não foi assim tão mau” torna-se: “A mãe desta criança não falava com ela durante dias.”
De repente, a sala muda. Silêncio. Um franzir de testa. Às vezes, lágrimas.
O escudo cai por um segundo e a realidade aparece.
O que soava normal na primeira pessoa, na terceira pessoa parece duro. Não é por acaso - é uma fissura na repressão.
Pode experimentar sozinho/a, com um caderno ou na sua cabeça.
Pegue numa memória que costuma encolher com uma frase como “não foi assim tão mau” ou “fizeram o melhor que podiam”.
Reescreva-a como se a estivesse a descrever a um/a amigo/a sobre uma criança desconhecida.
Mantenha os factos, retire as desculpas. Deixe-a tão neutra e seca como um relatório policial.
Depois observe o seu corpo.
Se o estômago apertar, se o maxilar cerrar, se uma parte de si sussurrar “ok, isto afinal soa bastante mau”… talvez tenha estado a minimizar mais do que imaginava.
Onde muitas pessoas ficam presas é aqui: reparam no desconforto e depois explicam-no rapidamente.
“Estou a exagerar”, “estou a dramatizar”, “outros pais eram muito piores”.
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias.
Por isso comece pequeno. Não precisa de “curar a sua infância” num único fim de semana corajoso.
Se puder, fale com alguém que não tenha interesses no seu enredo: um/a terapeuta, uma linha de apoio, por vezes até um/a amigo/a de confiança que ouve mais do que aconselha.
Diga a frase exata que usa sempre. Repare em quão automática ela é.
E, se for você esse/a amigo/a, evite o erro clássico: responder à minimização com mais minimização.
Quando alguém diz “não foi assim tão mau”, muita gente responde logo: “Sim, mas os teus pais amavam-te” ou “ao menos tinhas um teto”.
Isso volta a fechar a porta.
O que ajuda é uma validação suave - não um debate sobre quem teve a pior infância.
“A dor não é uma competição. O sistema nervoso não quer saber se alguém noutro continente teve pior. Só sabe o que teve de sobreviver.”
Pode criar uma pequena checklist mental para estas frases típicas que muitas vezes escondem trauma reprimido:
- “Não foi assim tão mau, outras crianças tiveram pior.”
- “Fizeram o que puderam, eu fiquei bem.”
- “Não me lembro de grande coisa, mas estava tudo bem.”
- “Eram rígidos, mas isso fez-me forte.”
- “Ninguém é perfeito; eu também era uma criança difícil.”
Cada uma destas frases pode ser parcialmente verdadeira.
A questão não é se são verdadeiras, mas o que estão a proteger.
Permitir-se sentir sem reescrever o passado
O objetivo não é acusar os seus pais, nem reescrever toda a sua história a preto e branco.
É parar de pisar o próprio pé sempre que uma memória tenta falar.
Pode começar com uma prática de baixíssima ambição: quando se ouvir a pensar ou a dizer a frase mágica, acrescente um complemento discreto.
“Outras pessoas tiveram pior… e isto ainda assim foi difícil para mim.”
Parece pequeno. Dentro do cérebro, é uma entrada de ar fresco.
Está a permitir que duas realidades existam ao mesmo tempo: sim, nuance; sim, contexto; e sim, a sua dor também conta.
Em termos práticos, falar ajuda, mas a ancoragem ao corpo também.
Pessoas que reprimem trauma de infância muitas vezes vivem longe do corpo, como se estivessem sempre meio passo acima de si mesmas, a observar.
Pode inverter isso suavemente com gestos simples: sentir os pés no chão quando se lembra de algo.
Nomear 5 objetos na sala. Pôr uma mão no peito e notar a velocidade da respiração.
Não apaga o passado, mas impede o sistema nervoso de entrar num “modo de emergência” silencioso sempre que se aproxima dele.
Num dia mau, isso já é muito.
Todos já vivemos aquele momento em que um pequeno detalhe traz de volta uma atmosfera inteira: um cheiro, uma porta a fechar, um certo tom de voz.
Se a sua primeira resposta é rir e dizer “que ridículo”, isso não é estupidez. É treino.
Foi treinado/a, talvez muito cedo, para ser a pessoa compreensiva, a que perdoa, a que não “faz barulho”.
Esse treino não desaparece porque fez 25 ou 40 anos.
O trabalho, se o escolher fazer, não é heroico. É teimoso e silencioso.
Parece-se com apanhar-se a meio de uma frase e atrever-se a dizer, talvez pela primeira vez: “O que me aconteceu afetou-me.”
Esse pequeno ato de honestidade não é traição. É lealdade à criança que foi - que não tinha palavras.
E, às vezes, o primeiro sinal de que essa criança quer falar é exatamente essa frase adulta: “Não foi assim tão mau, outros tiveram pior.”
Quando começa a ouvi-la pelo que muitas vezes é - um sinal de fumo, não um veredicto - as conversas mudam.
Consigo/a, com o seu passado e com as pessoas de quem gosta que também carregam as suas mochilas invisíveis.
| Ponto-chave | Detalhe | Interesse para o/a leitor/a |
|---|---|---|
| A frase típica | “Não foi assim tão mau, outras pessoas tiveram pior.” | Ajuda a identificar minimização escondida da sua própria dor. |
| Teste da terceira pessoa | Recontar a sua história como se tivesse acontecido a outra criança. | Ajuda a ver o seu passado com mais clareza e menos autoculpa. |
| Reformulação suave | Acrescentar “…e ainda assim foi difícil para mim” à sua frase habitual. | Permite validar a sua experiência sem apagar nuance ou contexto. |
FAQ:
- Como sei se estou mesmo a reprimir trauma e não apenas a pensar demais? Repare em padrões: grandes falhas de memória em certas idades, reações fortes a gatilhos pequenos e frases automáticas como “outros tiveram pior”. Se o seu corpo reage mais intensamente do que a história parece justificar, pode haver algo enterrado.
- É possível ter trauma de infância sem violência física? Sim. Gritos crónicos, humilhação, negligência emocional, parentificação ou viver em tensão constante podem ser traumáticos para o cérebro e o sistema nervoso de uma criança, mesmo que ninguém alguma vez tenha levantado a mão.
- E se os meus pais realmente fizeram o melhor que puderam? As duas coisas podem ser verdade: fizeram o melhor que conseguiram com o que tinham, e mesmo assim você ficou magoado/a. Reconhecer a sua dor não apaga os esforços deles; apenas deixa de apagar você.
- É necessário escavar todas as memórias de infância para curar? Não. Muitas pessoas curam o suficiente ao compreender padrões, aprender ferramentas de regulação e processar algumas experiências-chave num espaço seguro. Não precisa de uma cronologia perfeita do seu passado.
- Por onde começo se este artigo for desconfortavelmente certeiro? Comece muito pequeno: durante uma semana, repare nas suas frases típicas de “não foi assim tão mau”. Anote-as. Se se sentir preparado/a, leve-as a um/a terapeuta ou a um/a ouvinte de confiança e explore o que pode estar escondido por trás de cada uma.
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