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Tendência em alta entre seniores: mais “cumulantes” trabalham após a reforma para equilibrar as finanças.

Homem idoso de barba usa portátil numa cozinha, segurando uma chávena. Roupa pendurada e calendário ao fundo.

30 a.m., o café do supermercado já está meio cheio. Atrás do balcão, uma mulher de cabelo prateado passa cartões de fidelização, brinca com os clientes habituais e limpa a máquina de café num único movimento, bem ensaiado. No crachá lê-se “Margaret – Anfitriã de Clientes”. Tem 71 anos, é bibliotecária reformada e este é o seu terceiro “trabalho de reforma”.

Trabalha três manhãs por semana “para pagar a renda e por um bocadinho de dignidade”, como diz, rindo-se daquela forma que nos diz que só está a brincar pela metade. À sua volta, cada vez mais seniores com coletes refletores, uniformes de receção ou aventais de supermercado começam o turno. Todos descontaram para a reforma. Todos acharam que ia chegar.

Agora fazem parte de um novo grupo com um apelido desajeitado: os “cumulantes” - pessoas que recebem ao mesmo tempo uma pensão e um recibo de vencimento. E o seu número está a aumentar depressa.

A ascensão silenciosa da geração dos “cumulantes”

Por toda a Europa e América do Norte, a mesma cena repete-se: cabelo grisalho atrás das caixas, em call centers, em rotas de entregas. Não como voluntários. Como trabalhadores. Muitos dizem que nunca planearam estar aqui aos 68 ou 72 anos, a passar compras ou a arquivar faturas. No entanto, a matemática das suas vidas deixou simplesmente de bater certo quando deixaram de trabalhar a tempo inteiro.

Pergunte-lhes porquê e as respostas surgem depressa. Contas de energia. Aumentos de renda. Ajudar filhos adultos. Custos médicos que vão mordiscando as poupanças mês após mês. A reforma não desapareceu, mas mudou de forma. Já não é uma pausa longa e ininterrupta. É um mosaico de pequenos trabalhos, pagamentos de pensão e rendimentos laterais, cosido mês após mês.

Em França, no Reino Unido, nos EUA, as estatísticas nacionais contam todas a mesma história: a participação na força de trabalho entre pessoas com mais de 65 anos aumentou na última década. Por detrás de cada ponto percentual, há alguém como a Margaret a tentar manter-se à tona, sem se perder no processo. Essa é a verdadeira tendência.

Veja-se o caso de Jean, 69 anos, antigo operário fabril de Lyon. Reformou-se aos 63 com aquilo que supostamente seria uma pensão sólida. Depois veio um divórcio, rendas inflacionadas e dois netos cujos pais viviam com contratos precários. O seu rendimento fixo começou a parecer muito pequeno, muito depressa.

No início, Jean entregava encomendas para uma transportadora. As manhãs cedo destruíram-lhe as costas. Por isso, mudou para zelador a tempo parcial num pequeno edifício de escritórios. Três noites por semana, verifica portas, repõe alarmes, rega plantas, conversa com a equipa de limpeza. Ganha cerca de 450 € por mês além da pensão. Não é glória. É margem para respirar.

Brinca dizendo que teve de “desreformar-se” para continuar a levar os netos ao cinema e para encher o frigorífico no fim do mês. Mas quando se caminha com ele na ronda de terça à noite, há outra coisa na sua voz. “Quando parei de trabalhar por completo, senti-me invisível”, diz. “Este trabalho cansa, mas pelo menos ainda há pessoas que precisam de mim.”

Essa frase resume por que motivo esta tendência não é apenas sobre dinheiro. Muitos seniores estão apertados pela inflação, por pensões baixas e por uma esperança de vida maior. Vidas mais longas são uma dádiva, mas esticam as poupanças até ficarem finas. Os sistemas públicos, da saúde à habitação, ainda não se ajustaram totalmente. Por isso, mais pessoas continuam a trabalhar por pura necessidade.

Ainda assim, a economia não explica tudo. O trabalho pode dar estrutura à semana, manter a mente ativa, pôr as pessoas em contacto com outras. A reforma como lazer puro serve a alguns. Para outros, tempo livre sem fim transforma-se lentamente em solidão e ansiedade. O trabalho remunerado, mesmo modesto, dá-lhes um estatuto social que não encontram noutro lugar.

Há, contudo, uma aresta dura. A liberdade de “escolher continuar a trabalhar” é mais fácil para quem tem boa saúde e qualificações. Para pessoas vindas de trabalhos manuais, com carreiras longas e dores crónicas, esta suposta escolha muitas vezes parece mais um último recurso. Por detrás da palavra neutra “cumulante”, há uma divisão social que raramente entra nos folhetos brilhantes sobre envelhecimento ativo.

Como os seniores estão a reinventar o trabalho depois da reforma

Muitos destes novos “cumulantes” tornam-se estrategas habilidosos do seu próprio tempo. Em vez de aceitarem qualquer emprego, fatiam a semana em pequenos blocos suportáveis. Uma enfermeira reformada pode fazer dois turnos por semana numa clínica. Um antigo contabilista pode tratar da contabilidade de três lojas locais a partir de casa. Um maquinista pode fazer mentoria paga a trabalhadores mais novos uma vez por mês.

O método é simples: começar por listar o que ainda consegue fazer sem prejudicar a saúde e, depois, mapear as oportunidades locais que encaixam nessa janela. Uma tarde, não todos os dias. Duas manhãs, não cinco. O trabalho passa a ser um botão que se ajusta, não um interruptor que está totalmente ligado ou desligado. É uma pequena mudança mental, mas muda tudo.

Alguns até experimentam. Testam um trabalho durante três meses e depois deixam-no por algo menos cansativo ou melhor pago. Vendem objetos de que já não precisam online. Arrendam o lugar de estacionamento. Dão aulas pagas de línguas ou música em casa. Não é o conto de fadas empreendedor que se vê nas redes sociais. É confuso, prático e surpreendentemente criativo.

Numa quarta-feira cinzenta em Manchester, Aisha, 67 anos, ensina inglês básico a um grupo de recém-chegados. Reformou-se do ensino a tempo inteiro há quatro anos, convencida de que finalmente teria tempo para viajar. Depois, a saúde do marido piorou e as contas de eletricidade duplicaram. Os planos de viagem encolheram. As contas não.

Por isso, voltou à sala de aula, mas nos seus termos. Duas manhãs por semana. Apenas adultos. Um pagamento que mal supera o salário mínimo e, ainda assim, faz uma diferença concreta no fim do mês. Diz que a preparação é leve, o prazer é grande e o dinheiro paga as compras e a medicação dele sem mexer nas poupanças.

No autocarro de regresso a casa, percorre anúncios de emprego no telemóvel, meio curiosa, meio cautelosa. “Algumas ofertas simplesmente não são realistas para alguém da minha idade”, diz, abanando a cabeça perante propostas que exigem turnos noturnos ou levantar pesos. Num papel na mala, escreveu três colunas: “Dinheiro”, “Saúde”, “Prazer”. Cada oportunidade leva um visto ou uma cruz em cada coluna. Só as que têm pelo menos dois vistos recebem resposta.

Por detrás destas histórias individuais está uma realidade mais fria: para muitos seniores, a fórmula da pensão já não corresponde ao custo da vida diária. Os cálculos foram muitas vezes construídos com custos de habitação mais baixos, esperanças de vida mais curtas e carreiras mais estáveis. Hoje, mais anos na reforma combinam-se com percursos profissionais interrompidos, trabalho a tempo parcial, anos passados a cuidar de familiares em vez de ganhar.

A inflação funciona como uma fuga lenta no orçamento. Os preços sobem, as pensões mal mexem. A almofada de segurança derrete. Trabalhar alguns dias por mês torna-se a nova forma de tapar o buraco. Os governos falam em aumentar as idades de reforma para poupar nos orçamentos públicos, enquanto as empresas descobrem que trabalhadores mais velhos trazem fiabilidade e experiência que, por vezes, faltam aos mais novos.

Esta mudança obriga também a um repensar cultural. A velha imagem da reforma como um pôr do sol dourado e inativo não corresponde à realidade vivida por milhões. Muitos “cumulantes” não se sentem heróis do envelhecimento ativo. Sentem-se pessoas a fazer o que é preciso, com as ferramentas que têm. Entre a imagem polida e a verdade áspera, abrem um terceiro caminho que não é nem reforma total nem grind a tempo inteiro.

Manter-se à tona sem esgotar: formas práticas de os “cumulantes” fazerem funcionar

Os seniores que melhor lidam com trabalho após a reforma raramente começam por procurar empregos. Começam por auditar a própria vida. Numa tarde, espalham extratos bancários, contas e recibos em cima da mesa. Assinalam os inegociáveis: renda ou prestação da casa, comida, transportes básicos, saúde. Depois acrescentam as coisas que dão sabor à vida, mesmo em pequenas doses.

A partir daí, calculam um défice mensal. Não um rendimento de sonho. Apenas o dinheiro extra mínimo para parar a ansiedade constante. Esse número - 200 €, 350 £, 500 $ - torna-se o alvo. De repente, a pergunta deixa de ser “Devo voltar a trabalhar?” e passa a ser “Que tipo de trabalho consegue cobrir este défice em segurança?” Essa mudança de perspetiva devolve algum controlo.

Alguns chamam-lhe “planeamento de microtrabalho”. Em vez de pensarem em carreiras, pensam em horas por semana e semanas por ano. É assim que um antigo motorista de autocarro em Barcelona acaba a conduzir turistas aos fins de semana durante quatro meses no verão e, depois, vive tranquilamente - e totalmente reformado - o resto do ano.

Claro que o caminho não é suave. Muitos seniores subestimam a fadiga. Dizem que sim a turnos extra porque têm medo de perder oportunidades e depois acabam por colapsar. Outros evitam pedir ajustes ergonómicos, como se precisar de uma cadeira com encosto ou de pausas mais longas fosse uma falha pessoal. Num dia mau, a vergonha pode pesar mais do que o volume real de trabalho.

Os empregadores podem piorar. Contratos vagos. Mudanças de horário em cima da hora. Tarefas que se alargam silenciosamente para além do combinado. É aqui que os limites contam. Um “não” claro a domingos à noite. Um lembrete escrito dos termos iniciais. Dizer, em voz alta: “Estou reformado, estou aqui para ajudar, não para me destruir.” Parece simples. Na prática, é um ato de autodefesa.

Numa nota mais positiva, muitos “cumulantes” encontram aliados em sítios inesperados. Colegas mais novos oferecem-se para trocar tarefas pesadas. O RH prolonga prazos discretamente. Clientes escolhem a fila da caixa mais velha porque preferem uma conversa a sério. Essa solidariedade do dia a dia não resolve os problemas estruturais, mas amacia as arestas. Numa quinta-feira cansativa, isso pode valer muito.

“Eu tinha vergonha de dizer que trabalhava aos 70”, confessa Rosa, antiga bancária agora a fazer receção a tempo parcial num ginásio. “Depois, um dia, percebi que metade dos meus amigos fazia o mesmo. Só que não tínhamos ousado falar disso.”

Para muitos, o peso emocional é quase maior do que o stress financeiro. Há o orgulho de ter “chegado” à idade da reforma a chocar com a sensação desconfortável de voltar atrás para pedir horas. Há o medo de ser julgado pela família - sobretudo pelos filhos que cresceram com o sonho de que os pais finalmente “descansariam”.

É aqui que partilhar histórias muda as coisas. À volta de um café, em centros comunitários, em grupos do Facebook, os “cumulantes” trocam dicas e confissões. Todos já tivemos aquele momento na caixa da farmácia em que fingimos que não vimos o preço porque sabemos que vamos pagar na mesma. Estas conversas vão, pouco a pouco, desgastando a vergonha e abrindo espaço para a solidariedade.

  • Fale com alguém em quem confia antes de dizer que sim a qualquer trabalho: parceiro/a, amigo/a, assistente social, representante sindical.
  • Faça perguntas diretas sobre horários, tarefas físicas, pausas e remuneração. Sejamos honestos: ninguém lê realmente as letras pequenas todos os dias.
  • Mantenha um dia “livre” inegociável por semana, mesmo que o dinheiro o tente.

Viver entre a pensão e o recibo de vencimento: o que este novo normal diz sobre nós

Quando se anda pela cidade com isto em mente, a paisagem muda. A professora reformada na receção do museu, o antigo construtor que lhe entrega a encomenda, a ex-secretária que distribui amostras num corredor de supermercado - deixam de ser figuras de fundo. São a linha da frente de uma transformação silenciosa do envelhecimento.

Alguns gostam mesmo desta fase. Dizem que a mistura de trabalho e pensão os mantém atentos, socialmente ligados, menos assustados com os dias a confundirem-se uns com os outros. Outros estão cansados e preferiam estar no jardim do que num autocarro às 6 da manhã. O mesmo crachá com a etiqueta “funcionário” esconde histórias e níveis de escolha radicalmente diferentes.

Quando se escuta com atenção, emerge um frágil jogo de equilíbrio. Poucas horas de trabalho e a conta bancária encolhe para dentro da preocupação. Demasiadas e a saúde ou a dignidade estalam. A linha muda com cada nova medicação, cada aumento de renda, cada despesa inesperada. E, no entanto, dentro dessa linha móvel, as pessoas improvisam as suas próprias formas de agarrar o que importa.

As famílias também se adaptam. Filhos adultos que antes imaginavam os pais numa férias perpétuas agora dão boleias para turnos tardios, ajudam com burocracia online ou assumem mais cuidados nos dias de trabalho. Avós baralham horários para encaixar horas pagas e idas buscar crianças à escola. A reforma torna-se uma negociação familiar, não apenas um marco individual.

A sociedade ainda não acompanhou totalmente esta nova realidade. As leis continuam a pensar em categorias rígidas: a trabalhar ou reformado, ativo ou inativo. A vida real parece mais um gradiente. Pensões reforçadas com alguns turnos. Doença crónica equilibrada com um contrato ocasional. Trabalhos distribuídos por estações, não por anos inteiros. Nesse espaço intermédio, os “cumulantes” são, querendo ou não, pioneiros.

Talvez seja por isso que as suas histórias ressoam tanto quando as ouvimos. Falam de fragilidade e dureza ao mesmo tempo. Pouco dinheiro, mas uma recusa teimosa em abdicar de pequenos prazeres. Corpos que protestam, mas ainda pegam em sacos de compras ou vestem um uniforme mais uma vez. Vidas que não saíram exatamente como os folhetos prometiam e, ainda assim, contêm momentos de orgulho e alegria.

Quer esteja a décadas da reforma ou já a equilibrar a pensão com um crachá a tempo parcial, estas novas vidas de trabalho após os 65 funcionam como um espelho. Forçam uma pergunta que muitas vezes evitamos: como é realmente uma velhice digna quando os números não batem certo? A resposta não é simples. Está na coragem silenciosa desses turnos de madrugada no café do supermercado, onde alguém como a Margaret ata o avental, sorri ao primeiro cliente e, em silêncio, faz as contas ao custo de mais um mês.

Ponto-chave Detalhes Por que é importante para os leitores
Comece por um número claro do “défice” mensal Liste as despesas fixas (habitação, alimentação, transportes, saúde) e compare com o rendimento da pensão. A diferença - mesmo que sejam apenas 150 € ou 200 £ - é o alvo real para qualquer trabalho extra. Saber o valor exato ajuda a evitar assumir mais trabalho do que a saúde ou o tempo permitem e foca a procura em funções que realmente resolvem o problema.
Escolha trabalhos que se ajustem ao seu corpo, não ao seu antigo cargo Em vez de perseguir a antiga profissão com a mesma intensidade, procure versões mais leves do que sabe fazer: mentoria, apoio administrativo, ajuda online, trabalho sazonal ou por projeto com horários flexíveis. Reduz o risco de lesões ou esgotamento e permite usar a experiência de forma sustentável, em vez de tentar reviver os anos de pico da carreira.
Negocie limites antes de dizer que sim Faça perguntas específicas sobre horários, tarefas físicas, pausas e a possibilidade de reduzir horas se a saúde mudar. Obtenha o acordo por escrito, mesmo em funções pequenas. Limites claros protegem a energia e evitam a “deriva de missão”, quando um part-time simples se transforma silenciosamente em algo que toma conta da reforma.

FAQ

  • Vale mesmo a pena trabalhar depois da reforma se o salário é baixo? Para muitos seniores, mesmo um rendimento modesto faz uma grande diferença depois de pagas as contas. Mais 200 €–400 € por mês pode significar não mexer nas poupanças, manter o aquecimento ligado no inverno ou dizer que sim a alguns pequenos prazeres. A questão-chave é se o custo do trabalho - em fadiga, stress, transportes - é proporcional ao alívio financeiro real que traz.
  • Que tipos de trabalho são mais adequados para trabalhadores mais velhos? Funções com horários previsíveis, baixas exigências físicas e possibilidade de se sentar ou descansar tendem a resultar melhor: receção e front desk, explicações, apoio ao cliente remoto, administração básica, acolhimento em museus ou galerias, retalho leve e funções sazonais no turismo ou na educação. O trabalho ideal respeita os seus limites e ainda o faz sentir-se útil.
  • Como posso falar com a minha família se precisar de voltar a trabalhar? Comece pelos números, não pela culpa. Mostre o orçamento, explique o défice mensal e partilhe como um pequeno trabalho pode reduzir o stress. Depois, fale das suas condições: quantos dias, que tipo de trabalho, o que recusa fazer. Enquadrar como uma decisão prática, e não como um “fracasso”, ajuda todos a apoiar de forma mais serena.
  • E se a minha saúde for demasiado frágil para um emprego regular? Nesse caso, procure compromissos muito pequenos: algumas horas por semana em tarefas remotas, hobbies pagos como arranjos de costura ou tradução, arrendar um quarto ou um lugar de estacionamento, ou contratos sazonais curtos com pausas longas entre eles. Também é sensato confirmar se está a receber todos os benefícios, subsídios ou apoios sociais a que tem direito.
  • Como evito sentir-me explorado/a como “cumulante”? Defina as suas linhas vermelhas antes de começar: máximo de horas, tipos de tarefas que não fará, horários em que não trabalhará. Discuta-as claramente com qualquer potencial empregador. Se as promessas forem quebradas logo no início, encare isso como um sinal de alerta e afaste-se se puder. Respeitar os seus próprios limites é o primeiro passo para exigir respeito dos outros.

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