Saltar para o conteúdo

Um creme hidratante clássico, longe das marcas de luxo, é eleito a escolha número um por especialistas em dermatologia.

Mulher a aplicar creme facial com espátula, espelho e toalha no lavatório.

Uma jovem mulher com uma gabardina bege pairava em frente à prateleira de “anti-envelhecimento”, a percorrer críticas no telemóvel com uma mão e a tocar na bochecha com a outra. Os olhos passaram-lhe ao lado do creme de 120 dólares, do favorito das influencers, do lançamento novo com lista de espera.

Depois viu-o. Um boião baixo e sem pretensões na prateleira de baixo. Rótulo azul e branco. Um preço que não doía. O tipo de creme que a sua avó provavelmente tinha na mesa de cabeceira, ao lado de um copo de água e um livro de bolso.

Dois corredores adiante, uma dermatologista de sapatilhas estava a recomendar exatamente esse produto a uma paciente. Sem tampa dourada, sem perfume, sem história de marketing. Só ingredientes que funcionam.

Um hidratante à moda antiga. Muitos especialistas. E uma revolução discreta no cuidado da pele.

O regresso do creme “feio”

Entre hoje em qualquer consultório de dermatologia e peça um hidratante simples e fiável. É provável que ouça sempre os mesmos poucos nomes. E um deles vai parecer chocantemente… banal.

Falamos daqueles clássicos de farmácia: cremes brancos e espessos em boiões básicos, fórmulas como Nivea Creme, CeraVe Moisturizing Cream, Eucerin, Vanicream. Aqueles que não ficam bem fotografados ao lado de um latte no Instagram, mas continuam a aparecer nas rotinas de especialistas.

Há uma razão para tantos profissionais da pele, em silêncio, escolherem o boião “feio” em vez do frasco de cristal. Não é romance. São resultados.

Os dermatologistas gostam de ver o que realmente acontece à pele ao longo de anos, não de semanas. Vêem rostos de perto, sob luzes duras, sem filtros. Vêem o que resiste ao inverno, aos retinóides, às crises de eczema, ao caos hormonal.

E, vezes sem conta, quem ganha são aqueles cremes potentes, sem fragrância, ricos em ceramidas, que custam menos do que um jantar fora. Não tentam fazer tudo. Fazem uma coisa extremamente bem: reparar e proteger a barreira cutânea.

Num mundo de “glow drops” e “skin cycling”, isto soa quase aborrecido. E, no entanto, esta abordagem despida é precisamente o que está a acalmar rostos inflamados, reativos e demasiado esfoliados.

Veja-se a história da Emma, 32 anos, que chegou à dermatologista com bochechas que ardiam quando as lavava com água. Tinha sobreposto ácidos, vitamina C, retinol, niacinamida, séruns de péptidos - por vezes tudo na mesma noite. A prateleira da casa de banho parecia um museu de skincare.

A dermatologista disse-lhe para parar com quase tudo. Nada de gel de limpeza perfumado, nada de esfoliantes, nada de tónicos. Só uma limpeza suave e um creme simples e rico da farmácia. Do tipo que a mãe dela usava nos anos 90 sem pensar duas vezes.

Na primeira semana, a Emma entrou em pânico. A pele parecia estranha sem o formigueiro habitual. Na segunda semana, a vermelhidão começou a desaparecer. No fim do mês, as bochechas voltaram a parecer pele. Menos vidro, mais humana - e muito mais saudável.

Histórias como a dela estão por trás de uma mudança subtil mas forte nas recomendações de especialistas. Um inquérito de 2023 a dermatologistas nos EUA, publicado numa revista profissional, mostrou que os hidratantes mais frequentemente recomendados não eram marcas de luxo, mas sim “cavalos de batalha” de farmácia abaixo dos 30 dólares.

É nesse fosso entre o que os especialistas usam e o que o marketing empurra que a curiosidade está a crescer rapidamente.

Se retirar o vidro fosco, as campanhas com celebridades e os slogans pseudo-científicos, um hidratante resume-se sobretudo a uma coisa: ajudar a pele a reter água. Uns fazem-no com humectantes como a glicerina e o ácido hialurónico; outros com oclusivos como a vaselina (petrolatum); e outros com lípidos reparadores da barreira, como as ceramidas.

Muitos cremes “à antiga” acertam nos três. Não foram desenhados para o Instagram; foram construídos para pele teimosamente seca, propensa a eczema, medicamente frágil. Isso significa testes robustos, listas de ingredientes simples e fórmulas que podem ser usadas por crianças, adultos e pessoas sensíveis.

Em comparação, o boião de luxo muitas vezes “gasta” uma grande parte do preço em embalagem, perfume, sensorialidade e marketing. Nem todos são inúteis, claro, mas o preço raramente reflete apenas o custo dos ingredientes. Um boião básico com vaselina, glicerina e ceramidas pode fazer mais por uma barreira danificada do que um creme perfumado cheio de extratos vegetais e mica brilhante.

Por isso, quando os dermatologistas “coroam” uma escolha número um, raramente estão a pensar em elegância. Estão a pensar: que creme mantém, silenciosamente, a pele dos meus doentes calma, hidratada e resistente, independentemente do que mais lhes prescrevemos?

Como usar um creme aborrecido como um profissional

Se trouxer para casa um destes hidratantes lendários de farmácia, a magia não está só no boião. Está em como o usa. A maioria das pessoas espalha uma camada fina e dá o assunto por encerrado - e depois queixa-se de que a pele continua repuxada à hora do almoço.

A forma “especialista” é diferente. Aplique o hidratante com a pele ligeiramente húmida, não completamente seca. Depois de limpar, seque o rosto com toques suaves, deixando um vestígio de humidade. Em seguida, pegue numa porção de creme - mais do que pensa que precisa - aqueça-o entre os dedos e pressione-o na pele; não esfregue como se estivesse a engraxar sapatos.

Esta combinação de água + creme generoso cria um selo suave, ajudando essa humidade a ficar retida durante horas em vez de minutos.

Um truque prático que os dermatologistas partilham com pessoas muito secas é o “slug-lite”: uma camada fina do seu creme à antiga e, depois, uma quantidade do tamanho de uma ervilha de vaselina (tipo Vaseline simples) apenas nas zonas mais secas - à volta do nariz, cantos da boca, por baixo dos olhos. Não é glamoroso, mas o espelho de manhã muitas vezes é.

Outro truque é o momento. A noite é quando um creme mais rico e “feio” brilha. A pele é naturalmente mais permeável à noite, e não está preocupado com a maquilhagem a acumular ou com o brilho à luz do dia.

Por isso, massaje essa fórmula de farmácia até ao pescoço e passe também no dorso das mãos como parte de um pequeno ritual - não como uma ideia de última hora.

Nas noites em que o rosto parece queimado do vento ou em que exagerou um pouco no retinol, salte todos os ativos e faça apenas: limpeza + creme. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias, mas as noites em que o faz vão poupá-lo a muita irritação mais tarde.

Onde a maioria das pessoas falha com estes hidratantes clássicos é esperar comportamento “de luxo” de um produto de trabalho pesado. Queixam-se de que é demasiado espesso, por isso usam quase nada. Ou comparam o “brilho” após uma aplicação com um novo sérum iluminador e declaram-no aborrecido.

Essa mesma impaciência alimenta a mudança constante de produtos que destrói tantas barreiras cutâneas. Uma semana: ácido glicólico e um gel leve. Na seguinte: uma essência coreana, um retinol, um creme branqueador. Não admira que o rosto fique vermelho e irregular.

Todos já tivemos aquele momento em que olhamos para o espelho e pensamos: Estou a fazer tudo o que me disseram… porque é que a minha pele está pior? Muitas vezes, a solução não é mais um produto. É menos um.

“Se eu pudesse pôr apenas um hidratante em todas as prateleiras de casa de banho”, disse-me uma dermatologista baseada em Londres, “não seria o mais trendy. Seria um creme de farmácia, sem fragrância e rico em ceramidas. Quando a sua barreira está saudável, tudo o resto funciona melhor - e muita gente percebe que precisa de muito menos do que pensava.”

Para tornar isto mais concreto, aqui está o tipo de creme à antiga que os especialistas gostam discretamente de ver numa rotina:

  • Fórmula sem fragrância – menor risco de irritação e alergia, sobretudo em pele sensível ou reativa.
  • Contém ceramidas, glicerina ou vaselina – ingredientes de manual para suporte da barreira e hidratação duradoura.
  • Testado em pele sensível ou propensa a eczema – uma grande vantagem se o seu rosto reage facilmente a produtos “divertidos”.
  • Disponível em boiões grandes ou em doseador.
  • Preço acessível, para não o racionar como se fosse ouro líquido.

Porque é que esta escolha “número um” parece uma rebelião silenciosa

Há algo estranhamente reconfortante na ideia de que o melhor hidratante da sua rotina pode ser o menos glamoroso. Corta muito ruído. Sem lista de espera, sem “hack” do TikTok, sem drama se esgotar durante uma semana - porque há sempre uma alternativa quase idêntica na prateleira ao lado.

Escolher um creme à antiga em vez de um boião de luxo é quase um ato de resistência contra uma cultura de beleza que quer que o skincare seja como moda: constantemente a mudar, infinitamente atualizável. Mas a pele não é um guarda-roupa. É mais parecida com um escudo vivo que pede estabilidade e respeito.

Isto não significa que tenha de deitar fora todos os séruns que tem ou nunca mais desfrutar de uma textura sofisticada. Apenas muda aquilo que vê como a “estrela” da sua rotina. O verdadeiro herói pode ser o creme discreto, ligeiramente pegajoso, que ninguém elogia… mas que, em silêncio, impede que o seu rosto arda, descame ou pique.

Quando aceita isso, mais uma coisa amolece: a pressão. Deixa de perseguir o produto perfeito que vai “resolver” tudo numa semana. Começa a ouvir mais como a sua pele se sente do que aquilo que as redes sociais dizem que ela deveria parecer.

Talvez seja por isso que tantos dermatologistas sorriem um pouco quando os doentes voltam e dizem: “Comprei aquele creme aborrecido. Não é sexy. Mas a minha pele não entrou em pânico há um mês.” Eles sabem que é aí que o verdadeiro progresso começa.

Da próxima vez que passar pelo corredor de skincare, talvez continue a sentir-se tentado pelos frascos brilhantes e pelos chavões. É humano. Mas algures perto do chão, entre boiões e doseadores simples, há provavelmente uma fórmula que ganhou, silenciosamente, a confiança de médicos, enfermeiros e de gerações de rostos secos e cansados.

Não tem de a tratar como um milagre. Apenas como um amigo fiável que aparece noite após noite, mesmo quando o resto da sua rotina muda. Algumas pessoas vão sempre atrás do último lançamento; outras vão descobrir o estranho alívio de se apaixonarem por algo que sempre esteve lá.

A pergunta mais interessante não é qual marca “vence”, mas o que acontece à sua pele - e à sua mente - quando deixa de comprar identidade num boião e começa a escolher o que realmente faz o seu rosto sentir-se calmo. Esse é o tipo de experiência que vale a pena partilhar, especialmente num mundo obcecado com fotografias de antes e depois e pouco com a forma como nos sentimos na nossa própria pele entre uma e outra.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
O “à antiga” vence o luxo Os dermatologistas preferem muitas vezes hidratantes acessíveis de farmácia a cremes caros. Ajuda a gastar menos e a obter resultados melhores e mais fiáveis.
Primeiro a barreira, depois as tendências Ceramidas, glicerina e vaselina reparam e protegem a barreira cutânea. Reduz vermelhidão, irritação e a sensibilidade “misteriosa” com que muita gente luta.
A técnica importa Aplicar o creme em pele húmida e usar quantidade suficiente aumenta a hidratação. Faz qualquer hidratante trabalhar mais, sem comprar nada novo.

Perguntas frequentes (FAQ)

  • Existe mesmo um hidratante “número um” em que todos os dermatologistas concordam? Não exatamente. Os especialistas têm preferências, mas tendem a concordar mais no tipo de fórmula: cremes de farmácia sem fragrância e de suporte à barreira, de marcas como CeraVe, Eucerin, Vanicream, ou texturas clássicas tipo Nivea.
  • Hidratantes baratos são tão eficazes como os de luxo? Muitas vezes são - e por vezes mais. A eficácia vem dos ingredientes, não da embalagem. Muitos cremes básicos têm fórmulas “de manual” para hidratação e reparação da barreira.
  • Posso usar um hidratante à antiga se tiver pele oleosa ou com tendência para acne? Sim, desde que escolha opções não comedogénicas e cremes mais leves em vez de pomadas muito pesadas. Muitos dermatologistas combinam tratamentos antiacne com hidratantes simples e suaves.
  • Devo parar de usar todos os meus séruns se mudar para um creme clássico? Não necessariamente. Muitas pessoas beneficiam de um período de “reset” só com limpeza e hidratante e, depois, reintroduzem alguns ativos específicos lentamente, observando como a pele reage.
  • Quanto tempo demora a notar diferença com um creme aprovado por dermatologistas? Para secura e irritação, muitas pessoas notam a pele mais calma em uma a duas semanas. Para uma barreira totalmente reparada e menos crises, pense em alguns meses, não em dias.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário